A série Fire Emblem tem um histórico vertiginoso. Lançamentos conturbados, disputas judiciais e cancelamentos divisivos marcam o histórico da franquia. Ao mesmo tempo, consagrou-se como um marco de jogos táticos, seguindo como referência nítida em seu nicho há mais de 20 anos. Conquistou milhões de fãs ao redor do mundo e gerou bilhões de dólares em receita, dentro e fora dos consoles. Não há o que discutir: Fire Emblem é uma série extremamente bem-sucedida, só que com uma bagagem de altos e baixos recorrente em seus projetos, dentro e fora dos games.
Fire Emblem nem sempre foi uma série benquista, com vendas iniciais fracas e recepção crítica negativa. Com o tempo, o game conquistou uma parcela dedicada de fãs e, via marketing de boca, conseguiu um número considerável de vendas após alguns meses. A série gradualmente cativou o público japonês e se estabeleceu como uma franquia querida, ainda que comercialmente instável, da Intelligent Systems. Sua trajetória permaneceria conturbada nos anos seguintes, tanto dentro quanto fora dos games, contando até com um processo judicial decisivo que bifurcou sua história, e teria muitos altos e baixos dentro e fora do Japão.
Animação: tropeços e decisões
Em 1996, Fire Emblem ganhou sua primeira animação em formato de OVA (formato de animação japonesa na qual os episódios são lançados diretamente em home vídeo sem serem exibidos previamente na televisão ou no cinema), produzida em parceria pelos estúdios KSS e Fantasia. Baseada em Mystery of the Emblem, a produção contava com apenas dois episódios, cobrindo os três primeiros capítulos do Livro 1. A recepção foi discreta, e os episódios subsequentes nunca saíram do papel.
Pouco depois, os episódios conquistaram um lugar curioso na história da franquia ao serem localizados para o Ocidente. Além de decisões de dublagem questionáveis, como a infame tradução de "Marth" para "Mars", a série acabou se tornando a primeira introdução do público norte-americano ao nome Fire Emblem, já que até então nenhum jogo havia sido lançado fora do Japão.
Três décadas depois, nenhum novo OVA, anime ou filme foi produzido. Isso não significa que a série não tenha um histórico rico de animação: desde a época do 3DS, com Fire Emblem Awakening, a Nintendo firma parcerias com estúdios aclamados, como Anima Inc. e Sanzigen, e inclui horas de animação em seus títulos. A exceção é Engage (2023), em que se trocaram as animações pré-renderizadas por animação in-engine que replica o estilo dos animes modernos.
As animações tendem a ser bem recebidas pelos fãs, mas parece que a Nintendo e a Intelligent Systems não superaram o amargor da experiência inicial, ou não vislumbram, por ora, potencial cinematográfico na série, optando por utilizar a animação predominantemente como elemento narrativo dos games.
Cartas: duas tentativas, dois encerramentos
Fora dos consoles, o primeiro produto de peso da série após o flerte com o OVA foi um card game colecionável, o Fire Emblem: Trading Card Game, lançado em 2001 pela NTT Publishing. O jogo contou com sete séries, todas reunindo personagens, itens, habilidades e localizações dos games, com as três primeiras focadas em Fire Emblem: Genealogy of the Holy War e as subsequentes em Thracia 776, Shadow Dragon and the Blade of Light e Mystery of the Emblem.
Lançado apenas no Japão, o jogo rendeu cinco anos de coleções antes de ser silenciosamente encerrado em 2006. Havia conquistado um público fiel, contudo, e provocou a criação de um sucessor espiritual chamado Fire Revolution Trading Card Game no ano seguinte.
O sucessor existia na zona cinzenta dos dōjins japoneses (termo utilizado para se referir a trabalhos publicados por amadores), nos quais, resumidamente, empresas como a Nintendo tendem a ignorar projetos de fãs, contanto que eles não concorram diretamente com seus produtos [1], permaneçam como produtos ou serviços de pequena escala [2] e não se apresentem como produtos oficiais [3], mesmo que façam uso de personagens ou locais da série. O Fire Revolution chegou a sete séries próprias, adaptando The Binding Blade, The Blazing Blade e The Sacred Stones e expandindo Genealogy of the Holy War, Thracia 776 e Mystery of the Emblem. Seguiu firme pelos próximos sete anos e provou à Intelligent Systems que havia um público genuinamente interessado em jogos de cartas da série, impulsionando o próximo projeto.
Em 2015, a Intelligent Systems lançou Fire Emblem 0, conhecido como Cipher, em uma nova aposta. O jogo, também voltado ao colecionismo de cartas, propunha-se a servir como uma carta de amor e um catálogo dos games passados, reunindo material da série principal e também dos derivados, como Tokyo Mirage Sessions, Heroes e Warriors. Foi um sucesso, acumulando vinte e duas expansões ao longo de cinco anos, sediando torneios oficiais com transmissões e organizando encontros presenciais. A desenvolvedora optou por produzir o jogo apenas no Japão, mais uma vez, e os colecionadores internacionais tiveram de recorrer a importações.
Apesar do sucesso, o jogo foi oficialmente encerrado em 2020. Conforme declarações do produtor, Ryota Kawade, o encerramento foi uma decisão estratégica. O produto havia sido concebido para dar palco aos personagens antigos no intervalo entre um lançamento e outro, e esse papel já vinha sendo cumprido por Fire Emblem Heroes e por eventos como os concertos. Foram cinco bons anos, mas Fire Emblem não teria mais um card game oficial.
Muitos mangás, nenhuma exportação
Ao contrário das animações, os mangás da série prosperaram. Fire Emblem conta com cerca de doze mangás diferentes, cobrindo praticamente todos os jogos principais, de Shadow Dragon a Engage, além de coletâneas e novelizações.
E os títulos não são meras adaptações dos games. Com onze volumes, Hasha no Tsurugi explora uma trama paralela no universo de The Binding Blade, protagonizada por personagens originais. Serializado na Monthly Shonen Jump à época, segue sem tradução oficial até hoje, permanecendo mais um título exclusivamente japonês.
Não existem números públicos sobre as vendas dos mangás, mas a quantidade de séries distintas sugere que o retorno esteja, no mínimo, dentro do esperado. A Intelligent Systems e a Nintendo também não têm medo de fazer referência a eles, incluindo os itens Al's Sword, Gant's Lance e Tiena's Staff em The Blazing Blade, em referência aos protagonistas do mangá.
A falta de tradução de Hasha no Tsurugi não é um caso isolado: nenhum dos mangás principais teve lançamento oficial fora do Japão, incluindo o de Engage, publicado na Saikyo Jump a partir de 2023. É um padrão que se repete nos inúmeros projetos: a série produz bastante, mas produz só para o Japão.
O futuro da série
Um olhar atento à série revela que Fire Emblem nunca teve problema em investir em projetos variados. Já apostou em animação, em dois jogos de cartas e em uma dúzia de mangás ao longo dos últimos trinta anos. O problema dela parece ser outro: acertar com consistência.
Alguns projetos fracassam e são prontamente ceifados, outros começam tropeçando e depois encontram seu público, enquanto poucos conquistam sucesso de forma indolor. O tempo dirá se Fortune's Weave inaugura uma nova era de projetos consistentemente bem-sucedidos para a série ou se Fire Emblem permanecerá experimentando constantes altos e baixos.
Revisão: Vitor Tibério
Referências: Fire Emblem Wiki, Anime News Network, Studio Anima, Serenes Forest, Siliconera.