Levar Hellraiser para os videogames sem perder aquilo que torna a franquia tão particular não parece uma tarefa simples. A obra de Clive Barker sempre esteve ligada a uma combinação desconfortável de violência extrema, dor e prazer, elementos inseparáveis da presença dos Cenobitas e do universo construído ao redor deles. Clive Barker's Hellraiser: Revival tinha, portanto, dois desafios pela frente: funcionar como um survival horror por conta própria e, ao mesmo tempo, não suavizar justamente aquilo que faz Hellraiser ser Hellraiser.
Depois de acompanhar Aidan Lynch pelo Labirinto no Nintendo Switch 2, minha impressão é que o jogo acerta principalmente quando abraça essa identidade. O combate tem momentos excelentes e outros mais ásperos do que deveriam, enquanto a exploração, a Configuração Gênesis e a ambientação conseguem sustentar muito bem a experiência. Existem bugs que precisam de atenção, mas eles não foram suficientes para apagar uma jornada que conseguiu me deixar desconfortável, curioso e, em diversos momentos, genuinamente impressionado.
Tudo começa com uma caixa
Clive Barker's Hellraiser: Revival é um survival horror em primeira pessoa que mistura elementos de shooter e ação. No papel de Aidan Lynch, o jogador embarca em uma jornada para resgatar sua namorada, Sunny, depois que ela ativa a Configuração Gênesis, uma misteriosa puzzle box que acaba colocando os dois no caminho dos Cenobitas.
Aidan logo descobre que ainda existe uma possibilidade de salvar Sunny e parte em uma jornada que testaria a sanidade e a humanidade de qualquer um. Pelo caminho, é preciso enfrentar criaturas bizarras, como os Indignos, e também os membros da Scarlet Church, um culto devoto aos Cenobitas que busca estabelecer contato com essas entidades. Tudo isso enquanto o protagonista se aprofunda cada vez mais no Labirinto e em um universo no qual dor e prazer caminham lado a lado.
Sem censura, como Hellraiser precisa ser
Uma das minhas maiores preocupações antes de jogar era justamente se a versão para Nintendo Switch 2 sofreria algum tipo de censura ou não. A violência extrema e a relação entre dor, prazer e diferentes sensações estão diretamente ligadas aos fundamentos de Hellraiser, e os próprios desenvolvedores deixaram claro durante a divulgação que esses temas seriam centrais para a experiência.
Por isso, foi uma grata surpresa e também um alívio perceber que a versão de Nintendo Switch 2 não tenta esconder ou suavizar esses elementos. E isso não funciona apenas como uma tentativa gratuita de chocar. É justamente por abraçar esse lado da franquia que algumas cenas conseguem causar o desconforto e o impacto que procuram, algo que também se estende ao próprio combate.
Um arsenal de altos e baixos
O combate foi, para mim, um misto de coisas boas e ruins, embora a balança pese mais para o lado positivo. O que me deixou com um gosto ruim na boca foi principalmente o funcionamento de algumas armas corpo a corpo. Dependendo da escolha, os ataques parecem pesados demais, não necessariamente pelo impacto, mas pela forma como são executados. Com armas, como a faca, o taco de beisebol e o cutelo, as animações dos golpes são mais lentas e existe uma janela considerável de recuperação depois de cada ataque, o que deixa Aidan com pouca mobilidade durante esses momentos.
O problema fica ainda mais evidente quando um golpe não acerta. Como Aidan demora um pouco para voltar a responder depois da animação, praticamente resta recorrer à esquiva para evitar o contra-ataque inimigo. Só que essa esquiva tem um alcance curto e, como boa parte dos confrontos acontece em espaços apertados, diversas vezes tentei sair do caminho utilizando a esquiva apenas para esbarrar em alguma coisa e acabar sendo atingido por um golpe inimigo.
Esse peso, porém, não aparece da mesma forma em todo o arsenal. Com opções como a lâmina-serra, a machete e o taco com pregos, senti que Aidan conseguia atacar de maneira mais rápida e dinâmica, o que acabou fazendo dessas armas minhas principais escolhas sempre que estavam disponíveis.
As armas corpo a corpo também possuem durabilidade e vão se desgastando conforme são utilizadas, podendo ficar inutilizadas por completo. Kits de reparo ajudam a evitar que elas quebrem, desde que sejam usados antes disso. Caso a durabilidade chegue a zero, a arma é descartada e não pode mais ser reparada. Então existe uma preocupação constante não apenas com qual arma carregar, mas também em acompanhar seu desgaste para que ela não acabe quebrando em combate.
Outro detalhe de que gostei bastante envolve os inimigos protegidos por armaduras que aparecem durante todo o jogo tanto entre os humanos quanto entre algumas criaturas. Armas contundentes são especialmente úteis para quebrar essa proteção, enquanto armas cortantes acabam funcionando melhor nas partes desprotegidas do corpo. Isso dá algum propósito às diferentes opções do arsenal e evitou que eu simplesmente carregasse a arma com maior dano e ignorasse o resto.
As armas de fogo foram outro ponto positivo. Atirar e atingir os inimigos transmitem bastante impacto, e a reação ao disparo muda perceptivelmente dependendo da arma utilizada. A pistola básica foi a que menos me passou essa sensação no início, mas, conforme fui aprimorando-a, seus disparos começaram a exercer um efeito muito mais perceptível sobre os adversários.
Muito mais do que uma puzzle box
O elemento que mais ajuda o combate a ganhar uma identidade própria é a Configuração Gênesis. Ela está longe de funcionar apenas como a clássica puzzle box associada à franquia e se torna uma ferramenta fundamental durante os confrontos.
Com ela, é possível agarrar objetos espalhados pelo cenário e arremessá-los contra inimigos, manipular fogo para incendiá-los e realizar finalizações corpo a corpo depois de atordoá-los. Essas finalizações também recuperam parte da vida de Aidan, o que torna esse recurso especialmente útil quando os itens de cura começam a ficar escassos. Foi uma mecânica que me lembrou bastante as execuções de DOOM, em que finalizar inimigos também ajuda a recuperar vida.
Já a habilidade mais poderosa da Configuração Gênesis são as Hell Chains, que funcionam praticamente como uma habilidade suprema. Ao ativá-las, Aidan invoca correntes capazes de prender e desmembrar vários inimigos de uma só vez. Elas foram especialmente úteis quando precisei lidar com grandes grupos de Indignos, principalmente nos momentos em que o espaço para me movimentar começava a desaparecer.
Claro que nada disso pode ser utilizado livremente. Os poderes da Configuração Gênesis consomem Sofrimento, recurso abastecido durante o combate ao causar dano aos inimigos. As Hell Chains são o exemplo mais extremo disso, pois só podem ser ativadas quando o medidor está completamente cheio e, ao serem usadas, consomem toda a carga. Isso cria um ciclo que combina muito bem com a própria temática de Hellraiser: provocar sofrimento permite alimentar a caixa para liberar poderes capazes de causar ainda mais sofrimento.
Sobreviver também exige planejamento
Como em todo bom survival horror, também é preciso administrar bem o inventário, que começa bastante limitado. É possível aumentar sua capacidade ao encontrar expansões espalhadas pelos cenários, mas, mesmo assim, o espaço continua apertado, principalmente porque as próprias armas ocupam uma boa parte dele.
Munição e itens de cura também não são recursos que sobram, e houve um momento em que senti isso da pior maneira possível: no confronto contra a Irmã da Misericórdia. Cheguei até ela praticamente sem munição, cura e dinheiro. Parte da culpa, admito, foi minha por ter sido imprudente em relação aos recursos até aquele ponto, mas o resultado foi uma das boss fights mais difíceis que enfrentei durante toda a campanha.
As moedas que encontramos e coletamos ao longo da campanha podem ser gastas com Zora, a mercadora que aparece em diferentes momentos da campanha. Além de ser possível comprar recursos e melhorias, também é possível vender itens carregados por Aidan. No meu caso, ao chegar ao confronto contra a Irmã da Misericórdia praticamente sem dinheiro para comprar munição ou itens de cura deixou bem claro que gastar sem pensar pode ter seu preço depois.
Nem todos os caminhos do Labirinto se abrem sozinhos
Clive Barker's Hellraiser Revival não é apenas combate. Ao longo da campanha, também há momentos de exploração e puzzles, muitos deles relativamente simples e centrados em encontrar um objeto, identificar uma combinação ou manipular algum mecanismo necessário para continuar avançando.
Os momentos em que mais me fizeram parar por alguns minutos foram os relacionados às senhas de armários e compartimentos de suprimentos. Como esses desafios são opcionais, acabam funcionando mais como pequenos extras para quem decide explorar com mais atenção. Mesmo assim, nenhum deles chegou a representar uma dificuldade muito grande.
Já o puzzle que achei mais interessante é um que envolve a Configuração Gênesis. Em determinado momento, é preciso mudar a forma da própria caixa para encaixá-la em um mecanismo como se fosse uma chave. É algo bastante simples, mas mostra bem a maneira como a Configuração foi implementada, já que ela não está ali apenas como uma referência ao material original, mas para realmente participar do gameplay e da história como um todo.
Perder-se no Labirinto faz parte da experiência
É no Labirinto que essa função da Configuração Gênesis ganha ainda mais importância. Em diferentes momentos, ela permite manipular o próprio ambiente para continuar avançando, levantando estruturas, movimentando plataformas, girando partes do cenário e abrindo novos caminhos.
E o Labirinto de Clive Barker's Hellraiser: Revival é um espetáculo à sua maneira. A tensão constante, a arquitetura estranha e as criaturas que aparecem ou simplesmente observam Aidan à distância ajudam bastante a vender a sensação de estar em um lugar que não deveria obedecer às mesmas regras do mundo real.
Apesar de ser uma experiência majoritariamente linear, houve momentos em que consegui andar em círculos duas vezes antes de perceber que já tinha passado pelo mesmo ponto. Isso fica ainda mais interessante durante algumas perseguições, quando aparecem caminhos diferentes e escolher a direção errada pode colocar Aidan praticamente nas mãos de quem está atrás dele.
Um Labirinto feito de memórias
Em meio às passagens pelo Labirinto, Aidan também precisa enfrentar a si mesmo e partes de seu passado. São momentos em que a campanha desacelera o ritmo para colocar o personagem diante dos acontecimentos e escolhas que o levaram até ali.
Algumas dessas sequências me lembraram imediatamente P.T. Silent Hills. Certos ambientes começam a se repetir em loop e, para conseguir avançar, é preciso prestar atenção ao cenário e realizar uma interação específica. Caso contrário, Aidan simplesmente retorna ao mesmo lugar outra vez.
Além de funcionarem muito bem dentro do terror psicológico, esses momentos ganham importância conforme a narrativa avança. Sem entrar em detalhes sobre os desfechos, Hellraiser: Revival possui dois finais definidos pela decisão tomada no trecho final da campanha, e revisitar o passado de Aidan ajuda a colocar essa escolha em perspectiva. Para mim, essas sequências acabaram sendo importantes justamente porque me fizeram pensar melhor sobre o caminho que queria seguir quando chegou a hora de fazer minha escolha.
Bonito e estável, mas longe de impecável
Mesmo com as limitações do Nintendo Switch 2, em nenhum momento tive a sensação de estar diante de uma versão completamente reduzida de Hellraiser: Revival. Pelo contrário: achei o jogo bastante bonito no console, com texturas bem definidas, bons modelos de armas e personagens e, principalmente, uma iluminação que cumpre um papel fundamental na construção dos ambientes.
A versão de Switch 2 tem como alvo 30 fps e, durante a minha experiência, esse desempenho se manteve estável na maior parte do tempo. Não senti stutters constantes, embora tenha percebido uma queda de frames ou outra de maneira bem pontual. Tanto no modo portátil quanto no dock, fiquei satisfeito com o resultado visual apresentado.
O maior problema técnico que encontrei não estava exatamente na performance, mas nos bugs. Em determinado momento, cheguei a uma área que simplesmente não havia carregado objetos, paredes, e, praticamente, todo o cenário desapareceu , deixando Aidan andando sobre um grande vazio transparente. Depois de um longo período, tudo surgiu de uma vez e descobri que estava justamente na parte central da boate.
Também encontrei problemas menores, mas bastante irritantes. Em algumas ocasiões, o comando de corrida simplesmente não era interrompido, fazendo Aidan continuar correndo mesmo depois de eu soltar o analógico. Em outra, o menu de criação deixou de responder aos botões superiores do controle, permitindo que eu acessasse apenas a área relacionada à história. Curiosamente, o problema desapareceu depois que meu personagem morreu e o jogo foi recarregado.
O caso mais preocupante aconteceu com um dos meus saves manuais, que acabou ficando corrompido. Felizmente, consegui contornar a situação sem perder todo o progresso. Em uma estação de salvamento, excluí o arquivo manual afetado e criei outro a partir do ponto em que estava na campanha.
O sofrimento vale a pena
Apesar de haver bugs e algumas escolhas do combate corpo a corpo que não me agradaram, nada disso foi suficiente para estragar a experiência visceral que Clive Barker's Hellraiser: Revival conseguiu me proporcionar. É um jogo que não tem medo de tentar chocar e, na maior parte do tempo, consegue, usando a violência, a relação entre dor e prazer e as próprias criaturas de seu universo para causar desconforto em vez de simplesmente espalhar gore pela tela.
O combate tem seus altos e baixos, mas encontra bons momentos principalmente nas armas de fogo e nas possibilidades oferecidas pela Configuração Gênesis. Já a narrativa conseguiu manter minha curiosidade conforme Aidan se aprofundava cada vez mais no Labirinto e em seu próprio passado. No Nintendo Switch 2, os bugs ainda deixam claro que existem arestas a serem corrigidas, mas desempenho e qualidade visual sustentaram bem a experiência que tive tanto no modo dock quanto no portátil.
No fim, poder levar comigo uma experiência como Clive Barker's Hellraiser: Revival e jogá-la onde quer que eu estivesse foi um grande diferencial para uma jornada que, ironicamente, me trouxe muito mais prazer do que sofrimento.
Prós
- Representação de Hellraiser sem suavizar a violência, a dor e o prazer que caracterizam a franquia;
- Configuração Gênesis muito bem integrada ao combate, à exploração e à narrativa;
- Armas de fogo transmitem bastante impacto durante os confrontos;
- Gerenciamento de inventário e recursos contribui para a tensão do survival horror;
- Labirinto se destaca pela ambientação, arquitetura e sensação constante de desorientação;
- Sequências de terror psicológico ajudam a desenvolver Aidan e dão peso às escolhas da narrativa;
- Boa qualidade visual e desempenho majoritariamente estável no Nintendo Switch 2;
- Legendas em português do Brasil.
Contras
- Algumas armas corpo a corpo são excessivamente lentas e deixam Aidan vulnerável após os ataques;
- Bugs podem afetar diferentes partes da experiência, incluindo carregamento de cenários, controles, menus e até arquivos de salvamento.
Clive Barker's Hellraiser: Revival — Switch 2/PC/PS5/XSX — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: Nintendo Switch 2
Revisão:Maria Brenda
Análise produzida com cópia digital adquirida pelo próprio redator













