Análise: Culdcept The First Saturn Tribute é uma ressurreição de clássico um a um do Sega Saturn, por bem ou por mal.

Primeiro título da série cult finalmente chega ao ocidente, basicamente com a mesma roupagem de seu lançamento em 1997 e com poucos novos atrativos.

Na aurora da quinta geração dos games, no Sega Saturn, nascia a saga Culdcept. Misturando jogo de tabuleiro com carteado, a franquia fez sucesso no Japão, enquanto passou praticamente despercebida no ocidente, com alguns títulos traduzidos e lançados esporadicamente, sendo o primeiro a única exceção. 


Com alguns relançamentos para o PlayStation e a Nintendo DS, a gênese da franquia finalmente recebeu lançamento traduzido por meio de Culdcept The First Saturn Tribute, uma recriação extremamente fiel ao jogo original para que uma nova geração possa lutar pelo controle do mundo. 

Diante disso, prepare seu deck e venha comigo, vamos ver estes monstros duelando.

Hora do duelo!

Há muito tempo no planeta Rued, houve uma guerra santa entre Cultura, a deusa suprema e regente do tempo, e Baltias, deus da neutralidade e restrição, pelo controle de Culdcept, o livro onipotente capaz de criar e destruir qualquer coisa em que nele é escrito, além de deter poder absoluto do universo. Tal como histórias antigas, esta também foi esquecida por eras. Atualmente, no continente de Babrashka, palco do fim da guerra, a humanidade tem saboreado uma era de paz e glória. No entanto, tábuas de pedra do tamanho de cartas - resquícios de Culdcept - começaram a surgir, e a lenda do poder do livro sagrado voltou a ser ecoada.

Com isso, os Cepters, pessoas com a capacidade de usufruir das misteriosas cartas, partiram em busca de masterizar o poder e conquistar o privilégio de possuir Culdcept, iniciando batalhas ferozes por cobiça e sangue. Para impedir que as chamas da guerra consumam de novo o mundo, Cultura enviou seu bastão mágico e falante, Goligan, para encontrar algum Cepter digno de confiança e trazer a paz de volta a Rued, sendo este o jogador.

Coletando posses e monstros

Efetivamente, Culdcept funciona como uma mistura de Banco Imobiliário com Yu-Gi-Oh!. Ao todo, quatro jogadores podem jogar em um tabuleiro com o objetivo principal de ganhar até alguma quantidade de dinheiro (no caso, magia, mas vamos falar dinheiro por praticidade). Exemplo: no primeiro tabuleiro, enfrentamos apenas Zeneth, sendo necessária a quantia de 6000 para vencer. 

Para adquirir dinheiro, precisamos tomar posse de quadrados do tabuleiro e, para isso, colocamos monstros para defender nosso território, sendo que estas criaturas custam dinheiro para serem invocadas. Se pararmos em um quadrado possuído pelo inimigo, podemos não fazer nada e pagar o imposto ou desafiar o monstro capataz. Se vencermos o duelo, tomamos posse; perdendo, temos que pagar. Ao chegarmos no começo do tabuleiro (o castelo), recebemos o dinheiro total de nossas posses, e nossos monstros têm 50% da barra de vida restaurada e continua assim até que o vencedor seja declarado.

Este é o esqueleto de Culdcept, bem básico e reforçado pela carne que envolve o resto de sua jogabilidade: os terrenos e monstros têm propriedades únicas que podem se complementar como tipos elementais, forjar correntes de território (possuir territórios próximos reforça o poder e vida dos capatazes), investir no valor da terra e no imposto que será cobrado, cartas que podem destruir cartas do oponente e melhorar ou piorar a movimentação pelo tabuleiro. 

É um jogo muito bem pensado que pode parecer muito assustador e complicado no começo, mas é possível pegar a manha e ficar interessante com o tempo, mesmo que seja necessário esperar um pouco para entender e chegar na parte boa. O primeiro duelo por si só foi entediante: com pop-ups de “dicas” mais repetitivos e irritantes do que úteis e zombarias de Zeneth que tiravam rapidamente o charme badboy dele, deixando o fluxo de jogo bem lento, algo um pouco difícil de engolir para um tutorial. Eu estava com o relógio do lado e venci o tutorial por volta de 30 minutos… mas, pela lerdeza e frustração por certas jogadas mal feitas, pareceu que eu joguei por mais de uma hora. 

Tabuleiros e trolls

Visualmente, Culdcept é muito bonito. As artes das cartas são muito legais e realmente brilham nos efeitos dos duelos, variando se for dano elemental, corte e porrete, por exemplo. Um visual com charme de retrô atual, mas que impressionou bastante na época em que foi lançado, uma vez que os jogos ainda estavam engatinhando para balancear efeitos 2D com 3D. 

A lore de Culdcept é interessante, mas fica somente por aí. Para se ter uma ideia, só consegui entender e explicar o contexto e história do jogo graças ao menu de emulador dentro do software, já que a abertura e outras cutscenes estão escritas em japonês. O áudio dos vídeos está em inglês (tal como em seu lançamento original), mas a narração por cima está ridiculamente baixa, mesmo colocando o áudio no máximo, e difícil de entender por causa dos efeitos sonoros do vídeo.

Nossos oponentes, outros Cepters, têm visuais interessantes, personalidades e sprites distintos que os tornam diferentes uns dos outros (fãs de longa data da série podem reconhecer o rival Zeneth em sua estreia na franquia) e que fazem deles oponentes legais de se enfrentar, mas, tal como a lore, só ficam por aí. De forma bem curta e grossa, a história não existe, o que é meio frustrante considerando o esforço visível em construir um mundo diferente. Apesar desse aspecto negativo, a trilha sonora é um dos pontos mais altos do jogo, um padrão para a franquia Culdcept, oferecendo músicas ótimas que evocam sentimentos de batalha, quando se trava um duelo, e calmaria, quando estamos revendo nosso deck. 

Espanando o pó, mas sem tirá-lo

Em questão de performance, o jogo está impecável, mas com um asterisco a mencionar. Culdcept começa bem depressa e carregando a jogatina quase que instantaneamente, sem engasgos na jogabilidade, o que é o mínimo a se pedir para um jogo emulado. Agora, vem a parte do asterisco: temos dois menus principais, sendo o do “Saturn Tribute” e o próprio do jogo clássico. O primeiro menu só aparece para simplesmente atrapalhar a retomada do jogo e não oferece nada além de uma tela estática para apresentar o jogo antes dele mesmo e elaborar sobre o menu de emulador. Parece ser uma crítica mesquinha, mas aqui está o ponto: Este tal “Tribute” é tão pequeno que não serve para pagar o imposto.

As únicas adições oferecidas pelo relançamento são a localização em inglês (incompleta, considerando as cutscenes com texto em inglês) e o chamado Menu Zebra (o menu do emulador). Este que oferece alguns filtros de tela para enfeitar o jogo, a possibilidade de ver as cartas dos NPCs a todo momento (em um pequeno quadradinho no canto, o que não é muito útil), o número de cartas adicionais que somos recompensados ao vencer uma partida, a possibilidade de criar dois save states que ajudam muito para corrigir alguma jogada errada, um recurso bizarro de rewind (retroceder ações) que só funciona em pontos específicos da trama e a mera explicação da lore já mencionada. 

Fora isso, não temos uma galeria concisa de cartas, opção para aumentar a velocidade do jogo ou desabilitar pop-ups, uma apresentação mais a fundo do jogo, menu para escutar a trilha sonora e um guia mais conciso e eficiente para explicar como o jogo funciona, uma vez que boa parte dele é jogada rapidamente para tentar pegar o ritmo, mas no final acaba sendo esquecida pela alta quantidade de informação que é constantemente bombardeada. Por fim, Culdcept usa o botão “B” como confirmação de ações, enquanto o menu de emulador usa o botão “A”. É uma crítica pequena, mas estranha e inexplicável que ambos menus operam diferente.

Truco, marreco!

Culdcept The First Saturn Tribute é uma surpresa inesperada que, honestamente, eu esperava mais. Acima de tudo, não é um jogo ruim. O pouco de sua lore é interessante, seu estilo artístico tem personalidade, sua trilha sonora é excelente e o fluxo de jogo consegue prender quando é justo e direto. 

No entanto, a falta de novos recursos de relançamento e a tradução estranhamente incompleta fazem deste um jogo decente, mas difícil de recomendar, mesmo sendo um deleite histórico dos jogos, especialmente pela proposta hipócrita de ser um tributo ao lançamento original. Em resumo, um pacotinho de cartas de Yu-Gi-Oh! da padaria: vieram cartas boas e ruins, deixando equilibrado, mas não exatamente satisfatório.

Prós

  • Universo simples, mas cativante;
  • Trilha sonora magistral;
  • Adições de emulador como save state são mão na roda para corrigir erros bobos;
  • Estilo artístico de alta qualidade, impressionante para a época e com charme retrô para padrões atuais;
  • Mecânicas e funcionalidades que funcionam muito bem, cumprindo com eficiência a proposta de fusão de tabletop com carteado;
  • Performance impecável, sem tempos de carregamento;
  • O mero fato de estar disponível globalmente e em hardwares atuais já é uma vitória.

Contras

  • Ausência de localização em PT-BR e localização em inglês incompleta; 
  • Fluxo de jogo funciona, mas lentidão pode se estender além da necessidade;
  • Título de tributo é enganoso por não oferecer nada que realmente seja uma saudação ao lançamento original, como galeria de artes e trilha sonora separada;
  • Explicação de jogo confusa e sobrecarregada ao longo do tempo.
Culdcept The First Saturn Tribute — Switch/PC/PS5/XSX — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Maria Brenda
Análise produzida com cópia digital cedida pela Clear River Games.
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Fábio Castanho Emídio (StarWritter)
Formado em Publicidade e Propaganda na USC e especializado em Marketing Digital, sou Editor de Vídeos também, meu TCC foi sobre a Guerra dos Consoles e evolução da publicidade nos games. Jogo um pouco de tudo e também escrevo. Me descrevo como um artista.
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