Análise: Diablo IV: Age of Hatred Collection leva o ódio e a violência a outro nível

Entre demônios, sangue e tragédias, o ódio se torna mais do que uma força: é o fio que conduz uma jornada pelo coração sombrio de Santuário.


Lançado originalmente em 2023, Diablo IV finalmente chega ao Switch 2 em uma versão que reúne o jogo base e suas expansões em uma única experiência: Diablo IV: Age of Hatred Collection. A edição leva ao novo console da Nintendo toda a campanha já conhecida, além dos conteúdos adicionais lançados posteriormente, funcionando como uma porta de entrada completa para a atual fase do RPG de ação da Blizzard.

A Age of Hatred Collection abre suas portas com um ritual: vozes entoando um cântico antigo, sangue oferecido de bom grado, e um portal se abrindo na carne do mundo para trazer de volta a própria Filha do Ódio. É uma cinemática que já entrega, nos primeiros segundos, o tom sombrio que vai guiar toda a jornada, ainda que, no Switch 2, esse primeiro impacto venha manchado por uma queda de frames bastante perceptível logo na abertura. Felizmente, o problema não se repete: nas cenas seguintes, o jogo volta a rodar sem sobressaltos..

O Renascimento de Lilith, a Filha do Ódio

A campanha começa com o prólogo “Wandering”, quando Lilith é trazida de volta a Santuário pelo próprio culto que a venera. O Andarilho, no meu caso o Necromante, acaba se envolvendo com Lorath Nahr, um dos Horadrim que ainda estão por aí, e parte para investigar o retorno do  demônio e a influência  que ela começa a exercer sobre Santuário.

A história passa por Fractured Peaks, Scosglen e Kehjistan, colocando o jogador no meio de uma disputa que é bem maior do que simplesmente “matar a Lilith”. Ela aparece para seus seguidores como uma espécie de salvadora, alguém que pretende preparar a humanidade para enfrentar os Males Supremos e se livrar da eterna briga entre Céu e Inferno. Do outro lado está Inarius, junto da Catedral da Luz, tentando impedir o retorno de Lilith e enxergando nisso também uma oportunidade de recuperar seu lugar no Paraíso.


E jogar com o  Necromante (a classe que escolhi na primeira gameplay ) deixa isso ainda mais engraçado. Enquanto Lilith fica andando por aí pregando que é a grande protetora de Santuário e sendo chamada de “Mãe de Santuário” pelos próprios seguidores, eu estava literalmente atrás dela com um exército de mortos-vivos. Ela falando sobre o destino da humanidade e eu levantando cadáver do chão. É um contraponto meio absurdo, mas combina demais com o clima da campanha e com a própria estética sombria de Diablo IV.

Nahantu e o Espírito da Caçada

Vessel of Hatred começa exatamente de onde Diablo IV termina. Depois de aprisionar Mefisto na Soulstone, Neyrelle parte sozinha carregando a pedra, tentando encontrar uma forma de acabar de vez com o Senhor do Ódio. O Andarilho, obviamente, não aceita simplesmente deixar a garota desaparecer com um dos demônios mais perigosos de Santuário e segue seus rastros até Nahantu. É aí que a expansão muda completamente o cenário, colocando a história no meio de uma enorme região de selvas, ruínas e povos que possuem uma relação própria com o mundo espiritual.


E foi justamente aqui que resolvi trocar de estilo e jogar de Natispírito. A nova classe combina combate corpo a corpo, mobilidade e os poderes dos Guardiões Espirituais, permitindo escolher diferentes espíritos para definir o estilo de luta. Depois de passar a campanha inteira de Necromante, a diferença é gigantesca: eu saí de um personagem cercado por cadáveres e esqueletos para praticamente virar um maluco correndo pela selva e descendo porrada em tudo que aparece pela frente. É uma classe que combina bastante com a identidade de Nahantu e faz a própria expansão parecer diferente desde os primeiros minutos. 

Além da nova classe, Vessel of Hatred também trouxe um monte de coisa para mexer na experiência: os Mercenários, que podem acompanhar o personagem e ajudar nas batalhas; as Palavras Rúnicas, que permitem criar combinações novas para os equipamentos; a Cidadela Sombria, pensada para jogo cooperativo; e a Cidade Subterrânea de Kurast, com seus desafios e recompensas. Algumas mudanças maiores também chegaram ao jogo-base junto da expansão, então a sensação não é simplesmente de ter recebido uma campanha nova. Vessel of Hatred parece uma segunda etapa de Diablo IV, ampliando tanto a história quanto a forma de jogar.

A Face do Senhor do Ódio

Lord of Hatred começa colocando Mefisto no centro da história, e dessa vez o golpe vem logo na abertura: ainda tentando conter o Senhor do Ódio dentro da Soulstone, Neyrelle não resiste e morre nos primeiros minutos da campanha. É a partir da sua morte, e das anotações que ela deixa para trás, que o Andarilho e Lorath descobrem o verdadeiro plano de Mefisto: ele retornou sob a identidade de um falso profeta, apresentando-se como Akarat e espalhando sua influência rumo às ilhas de Skovos. A partir daí, a aventura passa a girar em torno de encontrar uma forma de derrotar Mefisto de vez e, ao mesmo tempo, vingar a morte de Neyrelle, contando até com a ajuda pouco óbvia de Lilith, que segue ligada ao Andarilho desde o fim da campanha base.


Dessa vez, resolvi deixar o Necromante e o Natispírito de lado e fui de Bárbaro. E olha, depois de duas classes tão diferentes, voltar para um personagem que resolve praticamente qualquer discussão na base da pancada é divertido demais. O Bárbaro combina muito com essa fase mais agressiva da história, principalmente porque a campanha começa a colocar o jogador cada vez mais perto dos seguidores e das criaturas de Mefisto. Em vez de ficar tentando controlar a batalha à distância ou depender de espíritos, minha solução passou a ser bem mais simples: chegar perto, girar, bater e continuar andando como se nada tivesse acontecido. 

E Lord of Hatred não chega só com uma nova campanha. A expansão aumenta bastante o tamanho do jogo, com a região de Skovos, novas atividades de fim de jogo, equipamentos, sistemas de progressão e mudanças nas Árvores de Habilidades das classes. Também temos o retorno do Cubo Horádrico, os Planos de Guerra, o Ódio Ressonante e até pescaria.


Sim, pescaria. Depois de passar horas descendo porrada em demônios, aparentemente o Andarilho também precisava sentar na beira de um rio e jogar uma isca na água. E, mesmo jogando de Bárbaro, dá para perceber que as mudanças não ficaram restritas às classes novas: Lord of Hatred mexe bastante na estrutura de Diablo IV e faz a expansão parecer uma nova etapa do jogo, não apenas mais uma campanha.

O Inferno que coube no Switch 2

O desafio foi evidente e não dá para ignorá-lo. O console da Big N conseguiu lidar muito bem com o jogo tanto no modo portátil quanto no modo TV, mas é importante ser honesto: não dá para ter 40 FPS e os gráficos no máximo ao mesmo tempo. Para quem quiser priorizar a qualidade visual, existe a opção “Gráficos Aprimorados”, que melhora bastante a aparência dos personagens e dos ambientes, mas limita o jogo a 30 FPS. Já no modo desempenho, é possível chegar aos 40 FPS, sacrificando parte dessa qualidade visual. É uma troca bastante clara entre os dois modos, mas, considerando o tamanho de Diablo IV, ver o jogo rodando dessa forma no Switch 2 já é algo impressionante.


Também existe uma pequena dor de cabeça logo no primeiro contato: o jogo vem inicialmente em inglês. Caso você queira jogar em português, precisa entrar na Nintendo eShop, procurar Diablo IV, acessar a área de expansões, encontrar o pacote de idioma em português e baixá-lo separadamente. Só depois disso o idioma fica disponível no jogo. Não é exatamente o tipo de burocracia que alguém espera encontrar antes de simplesmente começar a jogar, e seria muito mais prático se o pacote já viesse integrado à instalação principal.

O Ódio não é Eterno

Diablo IV: Age of Hatred Collection não é somente uma versão unificada das histórias com as duas expansões posteriores. São continuidades admiráveis, com uma profundidade narrativa que merece ser aplaudida de pé, com direito à violência máxima possível, unindo a representação mais profana do demoníaco a algo que, ao mesmo tempo, consegue ser profundamente poético.

O renascimento de Lilith é um poema. Não é somente um mero ritual de chefe ou uma cinemática feita para impressionar: é uma obra-prima diante dos nossos olhos. O mesmo acontece em Vessel of Hatred e Lord of Hatred, cujas cinemáticas introdutórias também são admiráveis. A quantidade de conteúdo existente neste jogo traz um fator replay evidente, não apenas pela história, mas por tudo aquilo que existe dentro dela. 

Cada classe apresenta um estilo de jogo próprio; as missões secundárias podem ser genéricas e cansativas ou tão interessantes quanto algumas da campanha principal; e os NPCs vão de  personagens estáticos  e sem graça até figuras capazes de arrancar do jogador o máximo de empatia e compaixão diante do sofrimento e da miséria humana provocados por uma catástrofe demoníaca. 

O jogador não é só “o Andarilho”. Ele é você. E você tem o papel de trazer a liberdade e mostrar que o ódio não é eterno, fazendo isso da maneira mais clássica desta franquia: descendo a lenha em todo inimigo possível e da maneira mais criativa que encontrar, para mandar todos os demônios de volta para o lugar de onde vieram.

Prós

  • Dublagem brasileira é ótima.
  • Dificuldade ajustável, permitindo tanto uma experiência acessível quanto um desafio maior.
  • Equipamentos realmente impactam as builds, alterando o estilo de jogo de cada classe.
  • Grande variedade de inimigos, com designs criativos e comportamentos próprios.
  • Diversidade de builds, ampliando bastante as possibilidades de jogo com cada classe.
  • Mapa enorme e repleto  de conteúdo, apesar de algumas dungeons serem pouco marcantes.
  • Missões secundárias variadas, com histórias interessantes mesmo quando seguem objetivos simples.
  • NPCs ajudam a construir o mundo, reagindo aos acontecimentos e dando contexto à narrativa.
  • Eventos aleatórios relevantes, oferecendo experiência e bons equipamentos.
  • Progressão profunda, com diversas formas de fortalecer o personagem e personalizar sua build.

Contras

  • Otimização ainda irregular no Switch 2, especialmente em algumas cinemáticas.
  • Dependência de internet, que torna o jogo praticamente injogável durante instabilidades na  conexão.
  • Introdução narrativa confusa, com missões e progressos aparecendo sem explicações claras.
  • Expressões faciais pouco convincentes, inclusive em personagens importantes.
  • Algumas cenas dramáticas são mal executadas, perdendo impacto por problemas de direção e montagem.
Diablo IV: Age of Hatred Collection – PC/PS4/PS5/XBO/XSX|S/Switch 2— Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Nintendo Switch 2

Revisão: Dinho Paixão
Análise produzida com cópia digital cedida pela Blizzard
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César Alexandre da Silva Aprile
Sou professor de História, historiador, pesquisador e escritor. Gosto de transformar minhas ideias e interesses em textos, pesquisas e projetos, sempre buscando explorar diferentes temas e formas de compartilhar conhecimento. Também atuo na produção de materiais didáticos e conteúdos sobre história, educação, cultura e videogames.
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