
The Legend of Zelda: Ocarina of Time costuma ser associado a aventuras coloridas, personagens carismáticos e descobertas que recompensam a curiosidade, mas basta explorar alguns cantos de Hyrule para perceber que a série também sabe brincar com o desconforto. Em Ocarina of Time, há uma família amaldiçoada, um poço cheio de criaturas assustadoras e até uma corrida contra o fantasma de um velho coveiro.







Esses momentos ajudam a explicar por que o clássico do Nintendo 64 continua rendendo conversas tantos anos após seu lançamento, em 1998. Mais do que simples curiosidades, são passagens que exploram temas como morte, maldição e a passagem do tempo, sem abandonar a estrutura de uma aventura fantástica.
Com o remake de Ocarina of Time já confirmado pela Nintendo para o Switch 2, vale revisitar essas cenas e imaginar como poderiam funcionar em uma versão moderna. Afinal, atualizar os gráficos é uma coisa; encontrar a medida certa para preservar, ou até ampliar, o impacto dessas experiências é outra bem diferente.
Bottom of the Well: o lugar onde a curiosidade vira cautela
Na Vila Kakariko, existe um poço que esconde uma das masmorras mais desconfortáveis da aventura. O Bottom of the Well não é apenas um lugar para Link explorar em busca de itens: é uma descida por corredores apertados, salas escondidas e criaturas que parecem ter saído de um pesadelo.
O local está ligado a Bongo Bongo, criatura que foi aprisionada ali por Impa antes de escapar e se tornar uma das ameaças enfrentadas pelo herói. Para avançar, o jogador precisa investigar o ambiente com cuidado, encontrar passagens secretas e lidar com inimigos que podem surpreender até quem já conhece bem o jogo. Um exemplo é o Dead Hand, um minichefe que sai do chão, cercado de mãos, para agarrar o protagonista.

As ReDeads são um dos destaques. Seus gritos paralisam Link, deixando-o vulnerável para um abraço que suga a vida, em um momento no qual correr seria a reação mais adequada. É uma mecânica simples, mas que funciona muito bem porque transforma um encontro com um inimigo em uma pequena disputa contra o próprio nervosismo.
Ah, sem contar a necessidade de uso da Lens of Truth, um dispositivo empregado para ver coisas ocultas no mapa. Ou seja, além de ser um local com esqueletos nas paredes e mortos-vivos, você ainda tem coisas sobrenaturais que não são vistas a olho nu. Se isso não é assustador, eu não sei o que mais seria.
House of Skulltulas: uma família condenada
Outra história peculiar está na House of Skulltulas, também em Kakariko. A casa abriga uma família atingida por uma maldição que transformou seus integrantes em criaturas semelhantes a aranhas. Para ajudá-los, Link precisa encontrar Gold Skulltulas espalhadas por Hyrule e reunir os totens dourados deixados por elas.
A atividade funciona como uma das missões opcionais mais conhecidas do jogo. As pequenas aranhas douradas estão escondidas em lugares que exigem atenção, incentivando o jogador a revisitar cenários e experimentar diferentes ferramentas. A recompensa, no entanto, vai além de um item útil: cada integrante libertado recupera a aparência humana, enquanto os demais continuam presos à maldição.

Há algo curioso nessa ideia. Em uma série na qual explorar costuma significar encontrar tesouros e descobrir passagens secretas, a recompensa também representa a chance de ajudar pessoas que não conseguem resolver o próprio problema. A casa transforma uma tarefa de colecionismo em uma história que se desenrola aos poucos, conforme o jogador se dedica a procurar cada Skulltula.
Um remake poderia aproveitar melhor essa progressão. Pequenas mudanças nas animações, nas expressões dos personagens e na ambientação da casa ajudariam a destacar a diferença entre os integrantes que já foram libertados e aqueles que ainda esperam por ajuda. O importante seria preservar a simplicidade da missão, sem transformar uma história secundária em uma sequência excessivamente dramática.
O cemitério de Kakariko e a última corrida de Dampé
O cemitério de Kakariko já é assustador por si só, afinal guarda túmulos, passagens subterrâneas e segredos que Link pode descobrir durante a aventura. É também o local de trabalho de Dampé, o coveiro que, na infância do protagonista, o envolve em uma peculiar escavação noturna entre os túmulos.
Quando Link retorna adulto, porém, encontra uma situação diferente: Dampé morreu. O antigo coveiro aparece como fantasma e desafia o herói para uma corrida pelas passagens subterrâneas. A atividade continua sendo um minijogo, mas ganha um significado diferente diante da ausência do personagem que antes cuidava daquele espaço.

A cena resume bem uma das ideias centrais de Ocarina of Time. Ao passar sete anos adormecido, Link não encontra apenas um reino dominado por Ganondorf. Ele percebe que o mundo seguiu em frente sem ele, e que algumas coisas do passado não podem ser recuperadas.
Dampé não recebe uma despedida elaborada, nem sua morte se transforma em um grande acontecimento da história. O jogo segue adiante, como a própria vida em Hyrule. É uma escolha narrativa discreta, mas que ajuda a dar peso à passagem do tempo.
Templo da Floresta é uma mansão mal-assombrada
Ainda que o Temple of Water seja considerado o mais difícil do jogo, o Forest Temple é o que mais chama a atenção quando o assunto é ser assustador. O local funciona como uma mansão assombrada, com quadros que se movem, armadilhas mortíferas e fantasmas por todo lado.
A maior prova disso são as mecânicas que envolvem os Poes, que ficam camuflados nas pinturas. E nem é preciso dizer que o chefe do templo é ninguém menos que Phantom Ganon, uma versão fantasmagórica do grande vilão do game. A batalha com ele é tensa e a rebatida de bolas de energia fornece uma prévia do que esperar na luta final.

Como se não bastasse, quem já se aventurou certamente vai lembrar do corredor retorcido, no qual o local parece girar enquanto o personagem anda, uma cena digna de um filme de terror. Parece que o personagem anda pelas paredes, mas tudo é uma ilusão de ótica, pois o chão está posicionado em outro ângulo.
Tudo isso é embalado por uma música para lá de macabra. É curioso como existe um contraste fortemente marcado aqui: o Minueto da Floresta é uma canção leve e muito gostosa de ouvir, enquanto o tema do templo, do qual a música é a chave, vai no sentido oposto.
Há uma lenda urbana que diz que este templo foi projetado, na verdade, para ser o castelo de Bowser em Super Mario 64. A Nintendo nunca confirmou, mas faz muito sentido, tendo em vista a mecânica dos quadros, os fantasmas inspirados nos Boos e o visual vilanesco do local.
Hyrule Field à noite: o uivo, os esqueletos e os fantasmas
Um dos locais que o jogador de Ocarina of Time mais visita são os vastos campos centrais de Hyrule. Para trocar de regiões, na maioria das vezes, é preciso atravessar o imenso espaço, no qual as horas parecem passar com mais rapidez que em outros locais.
Apesar da familiaridade com o lugar de transição, é inegável a sensação de medo no anoitecer, nas primeiras horas do jogo, quando os poucos corações dificultam a jornada. Isso porque, quando o sol se põe, esqueletos brotam na terra para atacar Link. Quando a música parava e o uivo do lobo ecoava, muita gente ficava desesperada para sair dali o mais rápido possível.

Uma solução muito comum era tocar imediatamente a Sun’s Song na Ocarina, evitando que os inimigos brotassem da terra. Essa prática de ressuscitar inimigos mortos como esqueletos aparece em outros games, inclusive em Breath of the Wild e em Tears of the Kingdom, mas nenhuma tão assustadora quanto no game de Nintendo 64.
Como se não bastasse, a Big N ainda resolveu adicionar fantasmas assombrando a planície durante o período noturno. Os Poes são encontrados em locais específicos da região, além de estarem no cemitério também, mas podem dar um baita susto em um viajante incauto — sem contar a chatice que é acertá-los com a espada. Ao derrotá-los, o jogador pode engarrafar e vender todos eles para um mercador em troca de Rupees.
Castle Town e a derrota do herói
Uma das consequências da viagem temporal de Link foi a tomada do reino pelo maligno Ganondorf, que se aproveitou dos sete anos de ausência do herói para se fortalecer. O maior exemplo do pavor espalhado pelo vilão fica claro logo após Link adulto sair do Temple of Time.
A antiga Castle Town, tão vibrante e cheia de pessoas, virou uma ruína infestada de ReDeads e destruição. A atmosfera de desolação é um dos choques narrativos mais fortes do jogo ao trazer, de forma muito crua, as consequências do ato.

Até aquele momento, o jogo não tinha trazido nenhuma outra cena tão impactante quanto essa, o que deixa os novatos apreensivos sobre o que esperar dali para frente. E, de fato, muitos dos momentos mais “assustadores” de Ocarina of Time ocorrem justamente na fase adulta do protagonista, quando tudo se perdeu após a vitória de Ganondorf.
O que um remake pode fazer com essas histórias?
Todos os exemplos mostram que Ocarina of Time não depende apenas de grandes batalhas e revelações para construir seu universo. Muitas vezes, são as pequenas histórias espalhadas pelo mapa que tornam Hyrule um lugar convincente: uma família esperando para se livrar de uma maldição, uma masmorra perdida sob uma vila, uma série de fantasmas e esqueletos, além de figuras associadas a mortos-vivos e a seres sobrenaturais.
É justamente por isso que o remake não deveria se limitar a modernizar os modelos dos personagens e a resolução das texturas. A oportunidade está em explorar melhor aquilo que o jogo já faz bem, usando recursos atuais para dar mais expressividade aos personagens e reforçar a identidade de cada lugar — e isso não significa que tudo precise ficar mais assustador. Na verdade, é bem provável que os desenvolvedores tenham suavizado diversos ambientes, afinal é provável que a ideia seja manter uma classificação indicativa baixa.

Parte do charme de Zelda, especialmente Ocarina of Time, está no contraste entre situações absurdas, humor e momentos genuinamente inquietantes. A House of Skulltulas, por exemplo, pode causar estranheza sem perder seu caráter de missão opcional. Você não vai até lá para se assustar, mas, sim, para obter recompensas que facilitam a jornada de Link.
No fim, revisitar essas passagens é lembrar que The Legend of Zelda: Ocarina of Time sempre teve mais do que uma aventura de fantasia para oferecer. Hyrule pode ser colorida, musical e acolhedora, mas também guarda histórias sombrias que permanecem na memória muito depois de terminarmos a jornada.
Revisão: Cristiane Amarante