Quando a Arc System Works anunciou Qliphah in Providence's Shadow, a promessa era ambiciosa: um RPG tático que combinava combate por turnos com a ação frenética característica dos jogos de luta da desenvolvedora. O resultado é uma experiência única, mas que tropeça na execução de suas próprias ideias.
Um mundo à beira do colapso
Tóquio está sofrendo com o “Colapso do Mundo”, um evento que rasgou a realidade, permitindo que criaturas grotescas chamadas de “Aberrações” invadissem o planeta. A realidade está se perdendo e a linha entre o normal e o sobrenatural praticamente não existe mais.
A protagonista é Rena Hizuki, uma investigadora de 28 anos da Quinta Divisão de Assuntos Externos do Departamento de Polícia Metropolitana de Tóquio. Rena carrega um "estigma", uma marca que se espalha por seu corpo e lhe concede um Olho Demoníaco capaz de vislumbrar fragmentos de seu próprio futuro.
Durante uma investigação, Rena encontra Soma Hoshigami, um jovem entregador de 20 anos que foi atacado por uma Aberração e ficou preso em um estado "semioficial": metade humano, metade monstro. Em vez de tratá-lo como uma ameaça, a polícia o classifica como "propriedade perdida", e Rena o toma sob sua custódia para que os dois investiguem essa transformação do mundo.
A dinâmica que sustenta o jogo
O coração de Qliphah in Providence's Shadow é seu sistema de combate "tactical counter-timeline" (linha do tempo de contra-ataque tático), e é aqui que o jogo brilha e tropeça em igual medida.
A proposta é engenhosa: Rena e Soma possuem três ataques básicos, marcados pelas cores azul, vermelho e amarelo. Os inimigos também atacam usando essas mesmas cores. O objetivo é observar a linha do tempo que corre no centro da tela, prever qual cor o inimigo usará e executar um ataque da mesma cor no momento exato para desencadear um contra-ataque.
Acertar o contra-ataque é muito satisfatório e os comandos são intuitivos. O jogo pausa o tempo para que você possa planejar suas ações e enfileirar comandos. Além disso, é possível usar habilidades de suporte com ZR ou desviar de ataques com o analógico.
O jogador controla Rena e Soma simultaneamente. Os ataques de um ficam nos botões Y, B e A; os do outro, nos direcionais para esquerda, baixo e direita no d-pad. Contra-ataques bem-sucedidos deixam inimigos atordoados, abrindo janelas para combos maiores e habilidades especiais.
Apesar de ser bem simples controlar a dupla, o sistema de combate em si é excessivamente complexo e mal explicado. Os tutoriais cobrem o básico, mas deixam de fora mecânicas essenciais, como o fato de que os ataques dos protagonistas têm ritmos diferentes, podendo demorar um pouco para iniciar.
Outro exemplo é que "Clone +1" e outros termos nas descrições de habilidades simplesmente não são explicados em lugar nenhum durante a campanha. É necessário ir ao menu, abrir a lista de tutoriais e ler para entender melhor algo que precisaria ser mais claro em um jogo que está criando tantas coisas novas.
A lentidão forçada também incomoda às vezes. Se você não tem uma ação enfileirada, o jogo entra em câmera lenta automaticamente e não sai até que você selecione algo, nem que seja andar para o lado. Isso pode parecer uma ajuda, mas na prática interrompe o fluxo e força o jogador a fazer comandos desnecessários apenas para "passar o tempo".
Ainda assim, é uma sensação muito boa lidar com as Aberrações no jogo. A quantidade de inimigos às vezes pode complicar para entender o que está acontecendo na tela, mas, como a variedade é baixa, fica fácil de decorar como lidar com cada um.
Estrutura de investigação desinteressante
Fora do combate, Qliphah se apresenta como um híbrido de RPG e visual novel. A história avança por meio de um mapa de Tóquio, no qual você seleciona locais para investigar, cada ação consumindo um período de dia ou noite.
Nisso, há um sistema de limite de tempo: cada capítulo tem um número determinado de dias, e ultrapassá-lo faz com que os inimigos fiquem mais fortes a cada dia extra de investigação. Isso adiciona uma camada de tensão estratégica, mas também significa que você não pode explorar tudo livremente.
O problema é que, apesar de Rena ser uma detetive, não há praticamente nenhuma investigação real. Você não deduz, não procura pistas, não resolve mistérios. A história simplesmente acontece ao seu redor por meio de diálogos e caixas de texto. É uma oportunidade perdida que reduz o potencial dos personagens e torna a história menos interessante.
O sistema de evidências acaba servindo mais como um depósito de lore e habilidades desbloqueáveis do que como ferramenta de dedução. Existe uma boa quantidade de habilidades desbloqueáveis nesses arquivos, que também explicam termos científicos, filosóficos e religiosos do mundo do jogo. No entanto, esses textos são densos e quebram o ritmo, já que a narrativa acaba dependendo deles para fazer sentido.
Existe um bom futuro para essa linha do tempo
É notável que Qliphah in Providence’s Shadow é um projeto de orçamento mais modesto. Os modelos 3D dos personagens durante o combate são expressivos e bem animados, mas os cenários são estáticos e reaproveitados com frequência. Isso cria uma sensação de repetição muito rápido.
Existem várias ideias sendo executadas juntas: linhas do tempo, medidores de cooldown, indicadores de cor, habilidades desbloqueáveis, e a maior parte funciona bem. Talvez até fosse melhor se certos recursos fossem cortados caso algum projeto futuro da Arc System Works use esse estilo de jogabilidade novamente.
No fim, foi uma boa primeira tentativa de uma ideia inédita para RPGs de batalhas por turno. Quem sabe Rena e Soma possam voltar em uma sequência que apare essas arestas e apresente uma versão definitiva de tactical counter-timeline.
Prós
- O uso do tactical counter-timeline cria um estilo de jogabilidade satisfatório nas batalhas por turno;
- Controlar os dois personagens ao mesmo tempo é bem intuitivo;
- Boa variedade de ataques e habilidades de suporte.
Contras
- Alguns combates contra múltiplos inimigos acabam sendo caóticos demais;
- História pouco interessante;
- Sistema de investigação é superficial;
- Tutoriais incompletos que deixam mecânicas essenciais sem explicação adequada.
Qliphah in Providence's Shadow — Switch/PC/PS5 — Nota: 7.0Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Maria Brenda
Análise feita com cópia digital cedida pela Arc System Works









