
A missão da Biggoron Sword é uma das sequências secundárias mais elaboradas do clássico do Nintendo 64 — e, quiçá, de toda a série The Legend of Zelda . Para concluí-la, Link precisa cumprir uma longa cadeia de trocas que atravessa diferentes regiões de Hyrule, envolvendo personagens, itens e condições específicas. Não por uma surpresa, é bastante comum o jogador se perder no caminho, seja porque foi fazer algo que lembrou, seja porque travou sem saber qual seria o próximo passo.
Eu era jovem quando joguei Ocarina of Time pela primeira vez — tinha apenas nove anos — e meu conhecimento de inglês era básico, insuficiente para compreender todos os diálogos. Na ocasião, não consegui completar a missão sozinho e precisei recorrer a um detonado da revista Nintendo World para chegar ao fim da sequência.
Uma espada que exige muito mais do que habilidade
A Biggoron Sword é uma arma de duas mãos que causa mais dano do que a Master Sword. Para consegui-la, porém, não adianta simplesmente avançar pela história ou procurar em uma masmorra. O jogador precisa completar uma sequência de trocas, levando objetos de um personagem a outro e cumprindo determinadas condições para avançar.
A missão exige familiaridade com lugares e habitantes que podem ter passado despercebidos durante a aventura principal. É necessário prestar atenção aos diálogos, guardar informações e descobrir como cada etapa se conecta à seguinte. A complexidade não está em um único enigma, mas na combinação de tarefas espalhadas por Hyrule.
A etapa de levar o Eyeball Frog até o laboratório foi especialmente difícil para mim. A tarefa exigia atenção ao tempo e conhecimento do caminho, transformando um simples transporte em mais uma fonte de pressão. Hoje sei que o tempo é mais do que suficiente para cruzar os campos de Hyrule, mas, naquela época, Essa lembrança ajuda a explicar o que torna a missão tão marcante. Tanto que, quase trinta anos depois, ainda me recordo da experiência de ser um entregador no reino. O jogo não entrega todas as respostas de imediato; é preciso interpretar as pistas e transformá-las em uma solução.
Hyrule não tem uma lista de tarefas para você seguir
Ocarina of Time usa seus personagens e cenários como fontes de informação. As conversas podem oferecer pistas, mas nem sempre explicam exatamente o que fazer em seguida. Na missão da Biggoron Sword, o jogador precisa conectar essas informações e descobrir por conta própria como prosseguir.
Nos jogos mais atuais, há diários de missão, marcadores e tutoriais que explicam cada etapa. Esses recursos são úteis, especialmente em aventuras extensas, mas também podem reduzir a necessidade de observar o ambiente e interpretar o que acontece ao redor.
A diferença não está em os jogos antigos serem melhores ou em toda orientação ser prejudicial.
O interessante é perceber como Ocarina of Time abre espaço para que o jogador construa seu próprio entendimento da missão. Uma conversa aparentemente banal pode se tornar importante mais tarde, enquanto um personagem em outra região pode ser a peça que faltava para avançar.
Essa abordagem também tem seus custos. Sem um direcionamento eficaz, a exploração pode se transformar em frustração, e as idas e vindas nem sempre são divertidas. Ainda assim, no caso da Biggoron Sword, a sequência conecta os habitantes, os objetos e os lugares de Hyrule, recompensando quem presta atenção ao mundo.
A recompensa que decepciona
Depois de tanto trabalho, seria natural esperar uma arma que transformasse completamente a experiência de combate. Seu dano de fato supera o da Master Sword, mas há uma limitação importante: por exigir as duas mãos, a espada impede Link de usar o escudo enquanto a empunha.
Para quem passou tanto tempo tentando conquistá-la, descobrir essa restrição pode ser decepcionante. A espada é poderosa, mas cobra um preço alto, e a Master Sword continua sendo a opção mais equilibrada. No meu caso, a sensação de descobrir, após tantas etapas e a ajuda de um detonado, que a nova arma impedia o uso do clássico escudo foi um balde de água fria. A conquista não parecia corresponder inteiramente ao esforço exigido.
Talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes da sequência, afinal, uma missão pode ser memorável sem ser perfeita. Foi assim com as Lightroots nas Profundezas de Tears of the Kingdom: você espera ganhar um item incrível ao acender todas as luzes, mas a recompensa é apenas um brasão. O caminho até o objetivo é o verdadeiro prêmio.
O valor de descobrir por conta própria
A missão da Biggoron Sword continua sendo um exemplo de como os jogos podem confiar na curiosidade e na inteligência do jogador. Em vez de dezenas de instruções, Ocarina of Time convida a explorar, interpretar dicas e encontrar soluções — ainda que, em alguns momentos, seja necessário pedir ajuda.
Décadas depois, a chegada do remake de The Legend of Zelda Ocarina of Time é uma oportunidade para revisitar essa jornada e descobrir como ela será recebida por uma nova geração de jogadores. Será que eles terão a mesma paciência para cruzar Hyrule em busca de uma espada ou ou simplesmente a ignorarão e seguirão em frente?
Seja qual for a resposta, espero que a aventura preserve espaço para aquela sensação de finalmente resolver um problema que parecia impossível — mesmo que a recompensa ainda obrigue Link a deixar o escudo de lado.
Revisão: Dinho Maia Paixão




