Há algo de profundamente reconfortante em The Witch's Bakery, que vai muito além de ser um cozy game. O título da desenvolvedora francesa Sunny Lab se apresenta como mais um simulador aconchegante, dessa vez, sobre gerenciar uma padaria mágica em Paris. Porém, essa experiência revela camadas que exigem tempo e paciência para serem verdadeiramente apreciadas. O que emerge é uma história sobre emoções humanas, compaixão e a dificuldade de pedir ajuda.
Uma padaria, três momentos
Lunne é uma jovem bruxa do coração que chega a Paris com seu sócio, Orio, para abrir a padaria Le Croissant de Lunne. O dia a dia no jogo é dividido em três períodos: pela manhã e à tarde, você gerencia a padaria, atendendo clientes e preparando massas; após o expediente, pode explorar as ruas parisienses, construindo relacionamentos e descobrindo novas atividades; à noite, pode estudar, praticar receitas no ateliê ou simplesmente descansar.
A rotina da padaria é leve, mesmo em momentos mais avançados, quando mais clientes estão chegando. Orio cuida de produzir os alimentos, enquanto o jogador controla Lunne, preparando as massas.
O preparo e a entrega dos alimentos são os momentos em que o jogo apresenta a importância da magia de Lunne: ela pode infundir os pães com a energia necessária para tocar os corações dos clientes. São alguns minigames rápidos de andar por labirintos e encontrar o caminho até o coração da pessoa, fazendo com que aquele alimento possa libertá-la de seu peso emocional.
Para adicionar um pouco mais de complexidade ao jogo, o tempo para sovar massa se intercala com o atendimento, e a paciência dos fregueses adiciona uma tensão moderada, mas nunca pesada demais, já que esse não é o objetivo do jogo.
Palácios do coração: onde a magia encontra as vulnerabilidades
O verdadeiro propósito da padaria, porém, vai além do sustento. Lunne, sendo uma bruxa do coração, consegue enxergar os sentimentos das pessoas. Eles são representados por criaturas espectrais que se agarram aos clientes sem que eles saibam.
Em certos momentos da história, os alimentos não são suficientes. Lunne precisa entrar no palácio do coração do personagem e encontrar o cerne de seu trauma. Cada palácio é um espaço mágico e profundamente personalizado: um mundo subaquático para uma pessoa afogada em mágoas ou um trem suspenso no ar para alguém em fuga constante, por exemplo.
A estrutura desses palácios comunica bem os sentimentos do personagem, enquanto mantém a jogabilidade simples. Não há combate. Em vez disso, o jogador resolve quebra-cabeças ambientais e, em alguns momentos, precisa se esconder de manifestações monstruosas que dominam a mente do hospedeiro. Ser pego não significa morte, apenas um recomeço de seção, e os trechos são curtos o suficiente para que a frustração nunca se acumule.
A inspiração em Persona 5 é inegável, e o próprio jogo nunca tenta esconder suas referências, mas enquanto o RPG da Atlus usa palácios como masmorras de combate, os de Lunne são exercícios de empatia.
Você não derrota o chefe do palácio; você o compreende. A barreira que bloqueia o progresso só se abre quando Lunne passa mais tempo com a pessoa no mundo real, ouvindo suas histórias e preenchendo as lacunas que a magia não consegue.
Respirando cultura francesa
Visualmente, The Witch's Bakery é muito agradável. O estilo de arte desenhado à mão captura a essência de um desenho clássico, com ruas de paralelepípedos, cafés ornamentados com videiras e a luz suave do entardecer de Paris. Os fundos dos cenários são particularmente impressionantes, transformando cada tela em algo que poderia servir como papel de parede.
A trilha sonora acompanha o tom da narrativa com precisão: melodias suaves e reconfortantes no dia a dia, tornando-se mais sombrias nos palácios do coração. O jogo está traduzido para o português, mas os poucos momentos de uso de voz estão apenas em francês, o que ajuda na imersão.
Uma receita quase perfeita
Apesar de seus acertos narrativos e estéticos, o título não está isento de arestas. A rotina da padaria, embora relaxante, pode se tornar repetitiva após as primeiras horas. Como a narrativa é o ponto forte, ter que passar pelo atendimento antes de conseguir dar continuidade à história pode incomodar um pouco.
Há também a questão do ritmo. The Witch's Bakery exige paciência. As conversas são longas, os dias são meticulosamente estruturados e as recompensas emocionais vêm lentamente. Para quem busca uma experiência mais dinâmica, o jogo pode parecer arrastado. Porém, para quem se permitir mergulhar no ritmo do jogo, há uma recompensa genuína.
É uma boa experiência, embrulhada em uma estética que evoca “O Serviço de Entregas da Kiki” com uma mensagem importante: não existe solução mágica para a dor emocional. A magia de Lunne é uma ferramenta, não uma cura. O verdadeiro trabalho acontece quando ela está no mundo real.
Prós
- Narrativa emocionante, que aborda saúde mental com delicadeza;
- Estilo de arte desenhado à mão, que evoca animações clássicas;
- Trilha sonora que acompanha perfeitamente o tom do jogo, do aconchegante ao melancólico;
- Personagens bem escritos.
Contras
- A rotina da padaria se torna repetitiva após as primeiras horas;
- A progressão lenta da história dos personagens pode desagradar.
The Witch’s Bakery — Switch/Switch 2/PC/PS5/XSX — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Mariana Marçal
Análise feita com cópia digital cedida pela Silver Lining Interactive









