Análise: Tormented Souls II é um survival horror clássico que sabe como assustar e divertir

Com câmeras fixas, recursos escassos e história cheia de bizarrice, o jogo resgata terror de sobrevivência dos anos 90, mesmo com concessões técnicas.

em 22/10/2026

Os melhores jogos de terror são aqueles que não entregam todas as ferramentas para você se sentir seguro. Em vez de distribuir munição aos montes ou oferecer itens de cura a cada esquina, esses games nos obrigam a pensar duas vezes antes de enfrentar uma criatura e a desconfiar de cada corredor aparentemente vazio. Tormented Souls II leva essa filosofia ao pé da letra e, por isso, consegue se destacar em um gênero tão saturado nos últimos anos. 

Disponível para Nintendo Switch 2 desde 15 de outubro, o segundo título da franquia aposta em uma fórmula que remete aos primeiros Resident Evil, mostrando que o survival horror tradicional ainda tem muito a oferecer. O game é desenvolvido pela empresa chilena Dual Effect Games e publicado pela PQube, trazendo de volta Caroline Walker para mais uma jornada sobrenatural. 

Desta vez, a protagonista parte em busca de respostas para os acontecimentos sobrenaturais que envolvem sua irmã, Anna. A investigação conduz as duas à Villa Hess, uma cidade isolada no sul do Chile onde uma clínica misteriosa esconde segredos tão perturbadores quanto as criaturas que rondam seus corredores. Dito isso, prepare-se para enfrentar monstros, fantasmas e fanáticos religiosos repletos de crueldade.

Um pesadelo com a cara dos clássicos

Quem cresceu jogando os primeiros Resident Evil e Silent Hill vai reconhecer rapidamente as principais referências de Tormented Souls II. A câmera fixa, que muda de posição conforme atravessamos os detalhados cenários, é uma das marcas mais evidentes dessa inspiração. Além de criar enquadramentos cinematográficos, ela limita nossa visão e transforma portas, curvas e passagens estreitas em fontes constantes de apreensão.

A progressão também segue uma estrutura familiar. Em vez de avançar simplesmente derrotando inimigos, precisamos explorar ambientes, encontrar objetos, interpretar pistas e resolver enigmas para abrir caminhos. Uma barra de ferro pode parecer inútil até encontrarmos o local certo para encaixá-la, enquanto alguns itens bem banais podem se revelar fundamentais mais à frente.

Então, a primeira coisa que precisa saber antes de começar é que você se pegará indo e voltando inúmeras vezes em um mesmo cenário — algo considerado parte da mecânica de exploração. Embora seja um tanto linear, essas idas e vindas ajudam a dar direção sem eliminar a necessidade de prestar atenção aos detalhes. O jogo deixa claro que existe um objetivo a cumprir, mesmo sem um hud poluído saltando na tela, graças às limitações muito bem construídas dos cenários — um grande mérito da equipe de ambientação.

A movimentação e os controles ficam pelo meio do caminho: nem muito solta, como na maioria dos games atuais, nem excessivamente presa, como nos survivors dos anos 2000. Apesar disso, quem não experimentou os primórdios do gênero, possivelmente, vai achar a jogabilidade um tanto quanto travada para um jogo de 2026. Porém, na avaliação deste jornalista, essa proposta traz um charme adicional, somando-se à progressão cautelosa, à administração de inventário e à fuga de confrontos desnecessários — principalmente quando a vida está baixa e você não salvou o progresso na safe room.

Munição curta, tensão longa

Como já mencionado, a administração de recursos é um dos pontos que mais reforçam a identidade do jogo. Munição e itens de recuperação são escassos, de modo que nem todo inimigo merece uma troca de tiros. Em determinadas situações, preservar as balas para um confronto futuro é uma decisão mais inteligente do que tentar eliminar tudo o que se mexe. 

Essa economia muda a maneira como exploramos os ambientes. Um exemplo disso é a criatura aracnóide que exige uma dezena de tiros de pregos para ser abatida, mas morre somente com uma bala de escopeta. Você pode perfilar duas ou três delas em um corredor estreito e usar uma única munição para derrotar todas de uma vez.

Aliás, vale mencionar como os momentos de combate do game podem ser complexos. Caroline é um tanto quanto travada para andar e correr, exatamente como nos games do final do século passado. É praticamente impossível desviar de ataques nos corredores apertados e o jogador ainda corre o risco de parar em um beco escuro sem saída durante a fuga. Então, se você se deparar com duas ou três criaturas ao mesmo tempo, tente exterminá-las como brevidade, caso contrário o dano será certo. 

As fitas de salvamento, por outro lado, aparecem com relativa abundância. Isso ameniza um pouco a dificuldade elevada, pois possibilita que Caroline passe em uma sala segura sempre que concluir uma série de atividades importantes. No início, quando eu não sabia disso, economizei muitas fitas e acabei perdendo quase duas horas de progresso com uma morte inesperada.

A escassez de itens para restaurar a vida, sim, pesa nessa conta do arsenal limitado. A todo momento você vai parar e pensar se vale a pena zerar o pente de pregos, para evitar um ataque que cause a morte da personagem, ou usar aquele analgésico enquanto a sua vida está com o marcador "Cuidado" ativado. Conhecer a movimentação dos inimigos pode ajudar muito a se livrar de danos que podem ser fatais.

A história que abraça o absurdo

Se a estrutura de Tormented Souls II é tradicional, sua narrativa não tem medo de exagerar. A trama combina experimentos macabros, acontecimentos sobrenaturais e situações cada vez mais estranhas, criando uma sucessão de revelações que mantém a curiosidade em alta.

A busca por Anna é o ponto de partida, mas os mistérios de Villa Hess logo ampliam o escopo da investigação. Conforme novas informações aparecem, fica difícil prever até onde a história pretende chegar. Há momentos em que a quantidade de bizarrices parece sair de um pesadelo particularmente criativo, o que conversa diretamente com mecânicas encontradas no game, como viagens no tempo e idas para “o outro lado”.

O roteiro não deve ser interpretado como um retrato realista ou sutil. Em alguns momentos, há uma certa conveniência para fazer a narrativa caber na gameplay, porém sem soar como algo excessivamente falso. A força da história está na capacidade de apresentar novas perguntas e revelar conexões inesperadas, obrigando o jogador a querer descobrir qual será a próxima loucura. E, em termos de terror e violência, a aventura entrega bons (e misteriosos) motivos para continuar.

Visual caprichado, mas com concessões no Switch 2

A direção de arte brilha ao construir a atmosfera do game. Os ambientes são detalhados, o contraste de iluminação e sombras ajuda a esconder ameaças (e problemas gráficos também) e os cenários sustentam o desconforto mesmo quando não há perigo imediato. A câmera fixa também favorece a composição visual, transformando cada sala em um pequeno quadro cuidadosamente construído para sustentar o clima de tensão constante.

A versão de Nintendo Switch 2, porém, apresenta concessões técnicas. O jogo roda com limite de 30 quadros por segundo, bem abaixo do que ocorre nos PCs, por exemplo. Embora essa taxa não comprometa de maneira significativa o ritmo mais cadenciado da aventura, ela representa uma limitação que vale mencionar.

No modo portátil, o console sofre um pouco mais e peca pela falta de ajustes de brilho. A depender do local de onde se está jogando, fica difícil enxergar o que está rolando na tela. A dica é, sempre que possível, colocar o videogame na dock e levar a experiência para uma TV grande.

Há perdas na qualidade de alguns elementos visuais, especialmente, nos reflexos e nas cenas cinematográficas quando comparadas a versões mais robustas. Ainda assim, o conjunto mantém uma apresentação competente. Não é uma conversão tecnicamente impecável, mas tampouco deixa de entregar aquilo que mais importa para a experiência: ambientes realistas e boa leitura dos espaços.

A trilha sonora completa o pesadelo

Tal qual a ambientação, o trabalho de áudio merece todos os elogios possíveis. A trilha sonora ajuda a estabelecer o clima de tensão sem precisar chamar atenção o tempo todo, enquanto os efeitos sonoros reforçam a sensação de vulnerabilidade durante a exploração.

O som amplia toda a incerteza, entregando ruídos, passos, gritos e efeitos do ambiente que podem sugerir algo por perto, mesmo quando não conseguimos identificar a ameaça imediatamente. Os jumpscares surgem de tempos em tempos, mas não ficam saltando na tela a todo o momento, o que acaba funcionando muito bem sem saturar o jogador.

Ainda que não seja algo inesquecível, fica nítido o competente trabalho dos desenvolvedores com a parte sonora. É uma abordagem coerente com o restante da experiência que ajuda a construir a atmosfera desconfortável durante a investigação.

Clássico no melhor sentido da palavra

Tormented Souls II não precisa esconder suas referências, talvez por isso funcione tão bem. Ele é quase como um Resident Evil modernizado, com puzzles criativos e enigmas que exigem raciocínio afiado e atenção aos detalhes. Mesmo pegando tantos elementos emprestados, o resultado é um título com muita personalidade e superior ao antecessor.

Para quem sente falta de um survival horror raiz em que cada bala importa e uma porta trancada pode ser o início de uma longa investigação, a jornada de Caroline Walker é uma recomendação certeira. A narrativa repleta de absurdos, os cenários bem construídos, a exigência de gerenciar recursos e a trilha sonora eficiente completam e tornam a experiência única e alinhada ao que o jogo pretende oferecer.

Mais do que uma viagem nostálgica, é um lembrete de que o terror clássico continua vivo — e que, às vezes, a melhor maneira de sobreviver é pensar duas vezes antes de puxar o gatilho. Haja tormento para sua pobre alma lidar!

Prós

  • Resgata com competência a fórmula clássica de survival horror;
  • Câmeras fixas e enigmas que incentivam a exploração;
  • História cheia de mistérios, bizarrices e reviravoltas;
  • Trilha sonora eficiente na construção da tensão;
  • Escassez de munição e itens de cura torna os confrontos mais estratégicos;
  • Menus, textos e legendas em português do Brasil.

Contras

  • Limite de 30 FPS na versão de Nintendo Switch 2;
  • Perdas gráficas em relação a versões mais robustas;
  • Combate mais travado pode ser difícil para alguns;
  • A estrutura linear e as referências aos clássicos podem parecer pouco inovadoras para alguns jogadores.

Tormented Souls II — PC/PS5/XSX/Switch 2 — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: Switch 2

Revisão: Maria Brenda
Análise feita com cópia digital cedida pela PQube


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Alveni Lisboa
Jornalista com passagens pela Revista Nintendo World e site Canaltech. Atua com jornalismo de games desde 2009, época em que escrever sobre videogame ainda era uma ótima desculpa para passar horas jogando e chamar isso de trabalho. Fã de carteirinha desde o SNES, passei por todos os videogames da gigante nipônica até os dias atuais.
Este texto não representa a opinião do Nintendo Blast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Você pode compartilhar este conteúdo creditando o autor e veículo original (BY-SA 4.0).