Podemos perceber que os quadrinhos e filmes da Marvel invadiram os videogames, como uma extensão de todo o sucesso que a marca alcançou ao longo dos últimos anos. Porém, adaptá-los para jogos nem sempre é uma tarefa simples. Muitas vezes, o resultado acaba trazendo frustração e afastando o público desse tipo de experiência. Ainda assim, algumas obras conseguem nos surpreender positivamente e mostram como uma boa adaptação deve ser feita. Felizmente, esse é o caso de Marvel’s Guardians of the Galaxy: Encore Edition.
Uma adaptação que entende os Guardiões
Uma das maiores dificuldades ao adaptar este universo para os videogames está em entender que não basta transportar personagens conhecidos para outro formato; é preciso encontrar uma maneira de fazer com que eles funcionem dentro daquela nova experiência, e Marvel’s Guardians of the Galaxy consegue fazer isso muito bem. O jogo não tenta simplesmente reproduzir aquilo que já vimos nos cinemas ou nos quadrinhos, mas aproveita os elementos que tornaram os Guardiões tão queridos para construir sua própria aventura.Isso fica claro principalmente na forma como a história foi construída. O game apresenta uma versão dos Guardiões que já carrega acontecimentos importantes de seu passado, mas segue por um caminho próprio. A aventura inicia depois dos eventos envolvendo Thanos e Ego, pai de Peter Quill, por exemplo, colocando a equipe em um momento diferente daquele que conhecemos nos filmes. Essas mudanças ajudam a estabelecer um universo próprio, mesmo mantendo diversas características que reconhecemos nos personagens.''
Outro detalhe interessante é a possibilidade de tomar decisões durante as conversas de Peter Quill com os demais Guardiões. Em alguns momentos, precisamos escolher como responder a um comentário, acalmar uma discussão entre os integrantes ou até mesmo instigar ainda mais a confusão. Essas situações dão um pouco mais de personalidade à nossa versão de Peter e permitem participar diretamente da dinâmica do grupo. Também gosto do fato de termos um tempo limitado para escolher cada resposta, o que deixa algumas conversas mais espontâneas e nos faz pensar rapidamente em como queremos conduzir a situação. Porém, apesar de serem escolhas divertidas e ajudarem na construção das relações entre os personagens, elas não provocam consequências muito expressivas no desenvolvimento da campanha.
Peter Quill continua sendo o líder impulsivo e cheio de referências aos anos 1980, Rocket permanece com seu jeito provocador, Drax não perde a oportunidade de interpretar tudo de maneira literal, enquanto Gamora e Groot também preservam características que já conhecemos. Ao mesmo tempo, existem diferenças suficientes nas personalidades e, principalmente, nas relações entre eles para que essa versão tenha sua própria identidade.
E é justamente na convivência entre os Guardiões que o jogo encontra uma de suas maiores forças. As discussões, brincadeiras e conversas mais sérias acontecem durante a própria jornada, muitas vezes enquanto estamos explorando um cenário ou seguindo para o próximo objetivo. Isso faz com que a equipe pareça estar realmente vivendo aquelas situações, em vez de simplesmente esperar o jogador chegar até uma cutscene para voltar a interagir.
O humor também tem um papel importante nessa construção. Guardians of the Galaxy sabe quando fazer uma piada e, principalmente, quando não é o momento de fazê-la. Em meio aos problemas e batalhas que surgem durante a campanha, existem diversos momentos em que simplesmente acompanhar uma conversa entre os personagens já é suficiente para tornar tudo mais divertido.
Mesmo com tantas referências e características que remetem diretamente aos filmes, o jogo não depende deles para o seu enredo; ele aproveita aquilo que já conhecemos, estabelece suas próprias regras e segue por outro caminho. É uma adaptação que respeita a essência dos Guardiões, mas entende que os videogames também precisam de espaço para contar suas próprias histórias.
Um detalhe que me causou certo estranhamento foi a aparência dos personagens. No Brasil, o jogo conta com a excelente dublagem em nosso idioma, realizada pelos mesmos profissionais que deram voz aos Guardiões nos filmes, o que ajuda bastante a criar uma conexão imediata com essa versão da equipe. Porém, quando olhamos para os personagens, percebemos que seus visuais são bastante diferentes dos atores que os interpretam nos cinemas. Peter Quill, por exemplo, não possui a aparência de Chris Pratt, assim como os demais integrantes também seguem modelos próprios. Entendo que pode haver questões de licenciamento envolvidas nessa decisão, embora não saiba se esse foi realmente o motivo, mas confesso que não gostei muito da escolha. No começo, ouvir vozes tão familiares enquanto vemos personagens com aparências diferentes causa uma certa estranheza, e precisei de algum tempo para me acostumar. No entanto, isso não chega a comprometer a experiência, mas é um detalhe que poderia ter sido melhor trabalhado.
O Caos também faz parte da diversão
O combate é uma parte importante da experiência e coloca Peter Quill no centro da ação. Mesmo sendo o líder dos Guardiões, ele não precisa enfrentar os inimigos sozinho, podendo contar com as habilidades dos demais integrantes para superar os diferentes confrontos. Controlamos Peter diretamente, utilizando suas armas elementais e sua movimentação durante as batalhas, enquanto também podemos dar ordens aos companheiros para que utilizem seus ataques especiais. Essa dinâmica faz com que precisemos prestar atenção não apenas no que acontece ao nosso redor, mas também nas oportunidades de combinar as habilidades do grupo.Um dos aspectos mais interessantes é justamente combinar estas habilidades, aproveitando as características de cada integrante para criar ataques em conjunto e causar mais dano aos adversários. Essa divisão de funções também aparece durante a exploração, quando precisamos recorrer às especialidades de cada Guardião para avançar pelos cenários: Rocket, por exemplo, consegue hackear portas e mecanismos eletrônicos; Groot utiliza seus poderes para criar pontes e caminhos com galhos; Drax tem força suficiente para carregar objetos pesados e abrir passagens, enquanto Gamora consegue cortar obstáculos, como cabos de energia e galhos que bloqueiam nosso caminho. Essas situações dão mais utilidade aos companheiros e fazem com que cada um tenha sua importância além das batalhas.
As batalhas são, sem dúvida, uma das partes mais divertidas da jornada, principalmente quando precisamos coordenar os cinco Guardiões e aproveitar suas habilidades para lidar com os inimigos. Entretanto, senti que a variedade de confrontos e adversários acaba ficando repetitiva depois de algumas horas. Em muitos momentos, a quantidade de inimigos na tela e a agilidade com que precisamos reagir fazem com que eu utilize praticamente todas as habilidades disponíveis de maneira acelerada, quase sem tempo para pensar muito nas combinações. Gerenciar Peter e ainda coordenar os outros quatro integrantes exige bastante atenção e, embora isso contribua para a intensidade das batalhas, também pode tornar alguns confrontos um pouco confusos. Não chega a tirar a diversão do combate, que continua bastante satisfatório, mas é um aspecto que poderia ter recebido um pouco mais de variedade e equilíbrio.
A evolução também merece atenção, pois durante a campanha encontramos diferentes materiais e itens que podem ser utilizados nas bancadas de trabalho para desbloquear melhorias nos equipamentos de Peter, enquanto os pontos de habilidade obtidos nas batalhas permitem adquirir novos golpes especiais para ele e os demais Guardiões. A exploração também recompensa os jogadores com itens colecionáveis e diferentes skins para os personagens, incluindo uniformes inspirados nos soldados da Nova, oferecendo algumas opções para personalizar visualmente a equipe.
Uma viagem pela galáxia
Um dos pontos que merece destaque em Marvel’s Guardians of the Galaxy é a construção de seu universo. Durante a campanha, visitamos diferentes planetas e ambientes, cada um com suas características, criaturas e construções, trazendo uma boa variedade visual para a jornada. A direção de arte consegue dar identidade a esses lugares, enquanto os modelos dos personagens, suas expressões e animações ajudam a transmitir suas emoções. A exploração também reserva algumas surpresas, com caminhos alternativos, segredos e colecionáveis que incentivam o jogador a observar melhor os cenários. Outro elemento que merece elogios é a trilha sonora, especialmente pela seleção de músicas clássicas dos anos 1980, como “Take On Me”, da banda norueguesa a-ha, que combina perfeitamente com a personalidade de Peter Quill. As canções não aparecem apenas como um detalhe, mas ajudam a criar momentos marcantes, principalmente nas sequências de ação.Mesmo com algumas concessões necessárias pelas limitações técnicas do console, considero o resultado bastante satisfatório. O trabalho da Eidos-Montréal oferece duas opções gráficas no modo TV: Qualidade, com resolução-alvo de 1440p a 30 quadros por segundo, e Desempenho, que busca 1080p a 40 quadros por segundo em televisores de 120 Hz, com suporte ao VRR. No modo portátil, a meta é de 30 quadros por segundo, embora a resolução não tenha sido detalhada oficialmente. Durante minha experiência, percebi algumas quedas de desempenho, mas foram pouco perceptíveis na maior parte do tempo. Também encontrei alguns artefatos visuais que apareceram na tela em determinadas situações, embora isso tenha acontecido poucas vezes. Outro problema foi um único fechamento inesperado do jogo durante minhas sessões, algo que não voltou a acontecer. São pequenos problemas técnicos que merecem ser mencionados, mas que não chegam a comprometer o conjunto.
A Encore Edition também traz novidades exclusivas, como cinco trajes inéditos inspirados no glam rock dos anos 1980, um para cada Guardião, além de suporte aos controles por mouse dos Joy-Con 2, que podem ser utilizados para mirar e interagir com o jogo. O giroscópio também ganha espaço, permitindo controlar a Milano pelo espaço e movimentar Peter em sequências de deslize e gravidade zero. São adições interessantes que aproveitam os recursos do novo console e ajudam a diferenciar essa edição das versões anteriores.
Defendendo a galáxia
Marvel’s Guardians of the Galaxy: Encore Edition é uma aventura que consegue entender muito bem o que torna os Guardiões tão especiais. A boa construção dos personagens, o humor, a história envolvente e os combates cheios de possibilidades fazem desta uma das adaptações mais interessantes da Marvel para os videogames. A viagem pela galáxia também é bastante divertida, com cenários variados e uma trilha sonora que combina perfeitamente com o espírito da equipe. No Nintendo Switch 2, o resultado é satisfatório, apesar de alguns problemas técnicos e de certas limitações que poderiam ter sido melhor trabalhadas. Ainda assim, são pequenos tropeços em uma jornada que vale a pena conhecer, principalmente para quem gosta de Peter Quill e companhia. É uma aventura divertida, emocionante, e que mostra que esses heróis têm muito mais a oferecer além das telonas.Prós
- História envolvente e personagens muito bem desenvolvidos;
- Excelente dublagem em português;
- Humor e diálogos que capturam a essência dos Guardiões;
- Combates dinâmicos e habilidades variadas;
- Cenários criativos e trilha sonora marcante;
- Boa adaptação para o Nintendo Switch 2.
Contras
- Combates podem ficar repetitivos e confusos;
- Escolhas de diálogo com pouco impacto no desenvolvimento da campanha;
- Visual dos personagens pode causar estranhamento em relação aos filmes;
- Pequenas quedas de desempenho e artefatos visuais;
- Um fechamento inesperado durante a experiência.
Marvel’s Guardians of the Galaxy: Encore Edition - PC/PS4/PS5/XBO/XBX/Switch 2Nota: 8.0Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Juliana Alvarenga
Análise produzida com cópia digital cedida pela Square Enix














