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Análise: Fire Emblem: Awakening (3DS)

O primeiro game tático que joguei no 3DS foi Tom Clancy's Ghost Recon: Shadow Wars . Apesar de modesto, o jogo me fez perceber que o p... (por Rafael Neves em 19/02/2013, via Nintendo Blast)

O primeiro game tático que joguei no 3DS foi Tom Clancy's Ghost Recon: Shadow Wars. Apesar de modesto, o jogo me fez perceber que o portátil 3D tinha potencial para bons games do gênero. Porém, Fire Emblem: Awakening deixa claro que o 3DS não pode viver de migalhas e, sinto muito, mas Shadow Wars é uma migalha. Com Awakening, a Intelligent Systems e a Nintendo não só trouxeram mais um capítulo da franquia que praticamente inventou o gênero dos RPGs táticos, como também deram uma merecida renovada na série. Não é uma revolução na mecânica da franquia, mas Awakening tem motivos de sobra para ser mais um título obrigatório do 3DS.

Espadas, coragem e crises políticas


A estrutura de Awakening não distancia-se muito da de seus antecessores: você terá de realizar missões (cuja maioria se resume a derrotar todos os inimigos) através de um esquema tático de RPG em turnos, sendo que cada estágio corresponde a um capítulo da história. O enredo foca-se no Reino Ylisse, onde vivem o príncipe Chrom e seu grupo de combatentes, os Shepherds. A paz reinava nessa região, até que o reinado vizinho, Plegia, começou a praticar ações um tanto quanto maléficas para obter o artefato mágico Fire Emblem. E é óbvio que você não vai ficar parado vendo seu inimigo fazer o que bem entende, não é? Ao ataque!



Como todo game da série Fire Emblem, Awakening conta com um elenco de personagens diverso, vários conflitos políticos, alguns interessantes plot twists e momentos bem emocionantes – sobretudo no final. A história é bem bolada e tem um ritmo fluido, que mantém o jogador sempre a querer saber qual será o próximo passo. E tudo é representado não só por cenas tradicionais de diálogo com algumas poucas dublagens, mas também através de cutscenes pré-renderizadas que abusam de um estilo visual fantástico e de dublagem completa.


Xadrez e RPG

A junção de uma movimentação através de uma grade quadriculada com elementos de RPG em turnos sempre foi a grande inovação da série Fire Emblem. E, mesmo muitos anos depois do seu nascimento, o esquema continua interessante. Awakening não altera drasticamente o gênero dos RPGs táticos, mas tem uma complexidade admirável. Dezenas de classes que podem evoluir ou mesmo retroceder, uma variedade imensa de armas, bônus extras em determinadas regiões do cenário, tudo traz uma diversidade de relações de vantagem e desvantagem que transforma o jogo em um grande quebra-cabeça (no bom sentido). E prepare-se para realmente quebrar a cabeça, ainda mais se optar pelas dificuldades mais elevadas.

Com o objetivo de alcançar um público maior, a Intelligent Systems implementou um versátil esquema de opções de dificuldade. É possível jogar tanto no modo tradicional quanto no casual, sendo que esse último não possui as clássicas “mortes permanentes”, ou seja, os personagens que morrerem no campo de batalha voltarão à vida ao fim da partida. Além disso, o jogador pode escolher ainda níveis de dificuldade que vão do modesto Normal ao infernal Lunatic. Jogando no modo tradicional com dificuldade Hard, suei a camisa para superar os estágios sem deixar que meus personagens preferidos morressem. 


Pés? Quem precisa deles?
Nesse quesito, Awakening acerta em cheio, e a inteligência artificial acompanha bem as opções de dificuldade. Na verdade, a dificuldade é só uma das diversas opções de customização que o jogo disponibiliza. Basta abrir o menu de opções para poder escolher as formas que mais lhe agradam de curtir o jogo.

DRs, intrigas e babados em seu exército

Mesmo sem muita inovação, Awakening traz novidades que dão certo frescor à série. Primeiramente, temos algumas novas classes. Se as quase 40 profissões tradicionais inclusas já traziam esquemas complexos de estratégia, as 12 novas classes fazem com que até o mais veterano dos fãs volte a pensar seus planos (veja no vídeo abaixo). Uma dessas novas classes é a Tactician, profissão do personagem que é customizado pelo jogador, desde o gênero até a voz. Além disso, esse novo Fire Emblem traz de volta a livre movimentação pelo mapa do jogo, recurso usado em Fire Emblem: The Sacred Stones (GBA). Em Awakening, o mapa é muito mais dinâmico. Você não simplesmente o usará para acessar a próxima missão, mas também para enfrentar desafios esporádicos, realizar sidequests, comprar e vender itens e acessar outras opções do jogo.


Mas o que torna Awakening diferente dos seus antecessores é o maior foco nos relacionamentos entre os personagens. Arriscar a vida junto a alguém no campo de batalha é algo que, querendo ou não, acaba aproximando as pessoas. E foi pensando nisso que a Intelligent Systems transformou camaradagem, amizade e até amor em elemento de gameplay. Quem acompanha a série sabe que tal recurso não é inteiramente inédito, mas Awakening eleva-o ao seu expoente máximo. Fora das batalhas, é possível promover conversas entre os personagens, que, conforme vão se tornando mais frequentes, podem resultar até em casamentos e filhos.

Em Awakening, todo diálogo tem segundas intenções,
até que se prove o contrário
Nas batalhas, a possibilidade de lutar em dupla é um recurso muito bem vindo. Ele permite que não só você peça ajuda ao personagem que está ao seu lado, como também possa formar pares com eles e batalhar juntos, aumentando o elo entre os guerreiros. O auxílio do parceiro pode vir tanto através de bônus para os atributos como também na base do “escudo humano” e de um ataque extra.

"Espada velha é que corta bem"


Sabendo da bagagem histórica que a série Fire Emblem carrega nas costas, Awakening não só se preocupou em trazer um frescor para a franquia, mas também quis homenagear esse histórico excelente de grandes jogos. Tal homenagem vem na forma de conteúdo extra do jogo – tanto o baixado automaticamente por SpotPass como o acessado através de pagamento (as DLCs). Fases, armas e personagens dos games antigos podem aparecer no seu mapa a qualquer hora ou serem acessados pelo Other-world Gate.  E o melhor é que os guerreiros clássicos não apenas podem ser enfrentados, eles também podem ingressar no seu time.

Sim, é possível ter o príncipe Marth lutando ao lado do príncipe Chrom, abusar da força destrutiva de Roy e Ike, lutar em dupla com os gêmeos Ephraim e Eirika, e ainda contar com a ajuda de Lyn e Cellica. É claro que a grande maioria dessas figuras é desconhecida para nós, já que as raízes da série Fire Emblem não foram localizadas para o Ocidente. Ainda assim, a Nintendo já confirmou que todo o conteúdo disponibilizado no Japão virá também para as versões ocidentais. Mesmo quem não é muito fã de DLCs poderá respirar aliviado, já que o conteúdo SpotPass gratuito é bem vasto.


Diálogos "um pouquinho" anacrônicos
Mas já que falamos sobre a conectividade, precisamos discutir o StreetPass – recurso muito bem usado em Awakening. Através dele, o jogador pode montar um time de guerreiros e customizar uma ficha, que poderão ser trocados com outros jogadores. Os times transferidos para o seu 3DS poderão ser desafiados pela sua equipe de guerreiros, aumentando ainda mais as opções extras disponíveis no mapa do jogo. Já o multiplayer local é cooperativo e faz com que dois jogadores unam algumas unidades de seus exércitos para enfrentarem inimigos juntos. Infelizmente, esse modo é muito simples, composto apenas por batalhas consecutivas (sem mapas para navegar) através de conexão local. Quando comparamos ao divertido modo para dois jogadores online de Fire Emblem: Shadow Dragon (DS), fica claro o descaso da equipe de desenvolvimento de Awakening com esse aspecto.

Quem anda meio preocupado com o preço das DLCs melhor se apressar! Até o dia 6 de Março, todos os donos de Fire Emblem: Awakening poderão baixar gratuitamente o mapa Champions of Yore I, que tem como prêmio Marth como integrante de seu time! Depois do dia 6, o DLC passará a custar U$ 2,50, além de outros mapas pagos também aumentarem de preço.

A beleza de uma batalha

Fire Emblem: Awakening é mais um dos games que eleva o padrão gráfico do 3DS, consagrando-se como um dos mais belos títulos do aparelho. E o primor gráfico é muito bem aproveitado por uma direção de arte incrível. Embora totalmente poligonal, coisas como os menus e os ícones dos personagens na grade de batalha foram mantidos em 2D – e esse último detalhe é interessante para os acostumados com o estilo da série. A grade quadriculada foi movida da tela de baixo (como visto nas versões para DS) para a tela de cima. Em troca da comodidade de se guiar o jogo pela touchscreen, temos uma escolha que valoriza o efeito 3D – muito bem empregado no jogo. A malha quadriculada onde a ação se desenvolve levanta-se feito maquete ao ligarmos o efeito estereoscópico. 

Ainda assim, o novo estilo visual poligonal torna difícil delimitar as diferentes regiões da malha. Por exemplo, quando a série era inteiramente em 2D, saber até onde vai aquela floresta que aumenta suas chances de esquiva era fácil, mas o estilo 3D faz desses limites confundíveis. No entanto, é quando as lutas começam que vemos o poder gráfico de Awakening. Os visuais ultrapassam até mesmo os de Fire Emblem: Radiant Dawn (Wii), mostrando lindas animações de batalha. A única ressalva é quanto ao contraste entre os personagens muito bem polidos e as texturas de alguns cenários pouco detalhadas.



Você é grande, mas não é dois!
Interessante também é notar a beleza das cutscenes e a possibilidade de assistir aos confrontos a partir uma câmera dinâmica, em terceira pessoa ou lateralizada – este último modo lembra bastante o esquema de câmera de batalha dos games anteriores da série. Já a arte conceitual dos personagens foi um exímio trabalho de Yusuke Kozaki (ilustrador da série No More Heroes, para Wii). A trilha sonora também é invejável. Aqui temos as composições da renomada Yuka Tsujiyoko e de outros compositores como Hiroki Morishita e Rei Kondoh. As canções de Awakening exploram recursos como orquestras sinfônicas e piano para trazerem melodias tocantes, sobretudo nas cutscenes.

Um emblema para o 3DS

Fire Emblem: Awakening é incrível. Se o DS viveu à mercê de remakes da série Fire Emblem, o 3DS já começa o ano com um de seus melhores capítulos. Awakening traz uma aventura densa, com personagens carismáticos e uma mecânica de RPG tática muito complexa. É difícil mensurar a quantidade de combinações e estratégias que as dezenas de classes, as possibilidades de relacionamento, os confrontos em dupla e a vinda de personagens clássicos permitem. Com certeza um dos mais profundos dentre os RPGs disponíveis para o 3DS, Awakening é uma jornada que todo fã da série deve viver. E os novatos também são muito bem vindos, graças à flexível escolha de dificuldade.


Prós

  • Profunda e complexa mecânica de RPG tático;
  • Relacionamentos entre os personagens e batalhas em dupla abrem espaço para mais estratégias;
  • Flexíveis opções de dificuldade beneficiam fãs veteranos e novos jogadores;
  • Enredo envolvente traz surpresas e personagens bem construídos;
  • Visuais belos incluem cutscenes impressionantes e um ótimo uso do efeito 3D;
  • Trilha sonora muito bem concebida;
  • DLCs e conteúdo extra via SpotPass trazem de volta personagens clássicos;
  • Ótimo uso do StreetPass;
  • Livre movimentação pelo mapa do jogo traz diversas atividades a mais para serem realizadas.

Contras

  • Algumas texturas pouco detalhadas e aspectos visuais mal polidos contrastam com os belos gráficos do título;
  • Pouca precisão na delimitação das diferentes áreas do campo de batalha;
  • Multiplayer não tem conexão online e é pouco interessante.
Fire Emblem: Awakening - 3DS - Nota final: 9.0



Revisão: Samuel Coelho
Rafael Neves é quadrinista e estudante de medicina da UFBA. Jogos fizeram parte dessa vida desde os seus primeiros anos, embalando muitos dos mais fortes laços de amizade e histórias de vida. E esse legado desembocam nas matérias que escreve aqui no Blast e em sua HQ, The Legend of Link.

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