Mais do que reis: a figura paterna em The Legend of Zelda

Entenda a importância da figura paterna no decorrer da franquia Zelda e veja como os pais podem ser os guias para o futuro de toda uma geração.

Segundo domingo de agosto, Dia dos Pais. Embora seja contra criar um dia exclusivamente para parabenizar os pais (afinal, deveríamos agradecer a eles todos os dias pelo simples fato de terem permitido que existamos, assim como nossas mães), é bom ter uma oportunidade de quebrar a rotina e ter uma data específica para relembrar como nossos pais foram responsáveis, direta ou indiretamente, pelo que somos hoje. A figura paterna é essencial para que a geração seguinte possa brilhar, e se você duvida disso, veja a importância dos pais em uma das mais famosas franquias do mundo do jogos: The Legend of Zelda.

Mais que um pai, um líder

Vamos para o princípio dos tempos, para quando a lenda de Zelda teve sua origem. Em The Legend of Zelda: Skyward Sword (Wii), o líder de toda a vila flutuante de Skyloft é Gaepora, o pai de Zelda. Logo de cara podemos ver sua importância não somente como o progenitor da personagem central da trama, mas como o responsável por preservar a ordem de toda uma sociedade.

Gaepora construiu uma sociedade equilibrada com um povo feliz, onde ninguém se opõe ao que foi estruturado. Sua gestão permitiu que se aproveitassem do pouco espaço que lhes era disponível para criar plantações capazes de manter toda a população abastecida. A fundação dos Cavaleiros de Skyloft garantiu uma proteção constante contra criaturas hostis dos céus e uma forma de evitar acidentes onde as pessoas pudessem cair da ilha flutuante, principalmente as crianças que costumam ser mais inconsequentes.

Mas Gaepora não é apenas o patriarca de sua vila. O pai de Zelda também age como uma figura paterna para Link, que não tem em quem se espelhar se não nele. Como guardião da Skyward Sword, é responsabilidade dele instruir o protagonista com os conhecimentos de eras, passando boa parte da trama enfurnado na biblioteca e buscando formas de aconselhar e instruir o herói a cada etapa de sua aventura, além de estar constantemente preocupado com sua filha seguindo o rumo sozinha na Superfície.
Pai coruja: Gaepora foi claramente inspirado em Kaepora Gaebora, a coruja conselheira que já acompanhou Link em outras aventuras, mais notavelmente em Ocarina of Time (N64). Neste jogo também temos o Sábio da Luz, Rauru, que possui muitas semelhanças físicas com ambos, Gaepora e coruja, levando muitos a crer que existe uma relação entre os três. Seriam todos a mesma pessoa em diferentes encarnações? Teria Gaepora assumido a forma espiritual para conseguir aconselhar os futuros heróis e princesas? Isso decerto criaria um nível totalmente novo de “pai coruja”!
No fim das contas, Gaepora foi responsável pelo progresso de Link e seu crescimento no decorrer do jogo, assim como a criação que deu a Zelda permitiu que ela conseguisse ser a mulher forte que foi no desenrolar da história e sua gestão deu um grande futuro para seu povo – até mais do que esperava. De certa forma, este primeiro pai notável foi uma peça fundamental para todo o nascimento de Hyrule e o princípio da história de The Legend of Zelda. Quer prova maior de que um pai pode influenciar o futuro do povo?

Mais que um pai, um rei

Logo depois de Skyward Sword, o segundo jogo da linha do tempo de Zelda é The Minish Cap (GBA). Neste jogo, temos um curioso personagem que fica ofuscado dentre os muitos pais da trama. Enquanto o rei de Hyrule não teve um papel muito efetivo no jogo, um de seus antepassados teve. Rei Gustaf foi um dos primeiros reis de Hyrule, sendo que é dito que o seu reinado ocorreu eras antes dos eventos de Minish Cap, o que nos deixa relativamente perto do final de Skyward Sword.

Segundo a trama, Gustaf foi um dos responsáveis pela organização de Hyrule como ela é hoje, contando com o auxílio da “tribo dos céus”, um grupo de pessoas que vivia em ilhas flutuantes além das nuvens. Soa familiar, não? Embora não exista confirmação de que exista uma relação entre essa tribo e os residentes de Skyloft, isso abre muito espaço para especulação sobre quando Gustaf reinou.

Ele se locomove até
Lake Hylia apenas para dar
sua mensagem.
Além de ter sido um dos grandes responsáveis pela formação de Hyrule, o espectro do antigo rei surge para ajudar o Link desta geração. Após o herói conquistar o terceiro elemento, o fantasma de Gustaf surge e o convida para vê-lo na Cripta Real, em um cemitério ao noroeste do castelo. Quando visitado, o rei ainda dá ao protagonista uma relíquia que pode leva-lo para os céus para encontrar a tribo que o ajudou no passado, e assim resgatar o quarto e último elemento.

Não fosse a interferência do rei antigo nos tempos atuais, Link jamais teria sido capaz de conquistar o elemento final e salvar o reino de Hyrule. A sabedoria de Gustaf, responsável por perpetrar a Família Real e por ter ajudado na fundação do reino, permitiu que o herói conseguisse trazer mais um amanhecer para aquele povo. Novamente, é uma pequena ação, mas que mudou totalmente o rumo de uma história.

Mais que um pai, um amigo

Dizem que um verdadeiro líder cai com seu povo, assim como um capitão afunda junto com seu navio. Este foi o destino de Daphnes Nohansen Hyrule, o rei da era sem um herói que veio logo depois dos eventos de Ocarina of Time. Quando Ganondorf escapou de sua prisão etérea em Light Realm, ele avançou com seu exército contra o reino de Hyrule – agora sem o Herói do Tempo para protege-lo, já que este voltou para seu próprio tempo e deixou a Triforce da Coragem sem um dono na linha futura.

Com isto, as deusas deixaram fluir a Grande Enchente que soterraria as terras de Hyrule e selaria Ganondorf nas profundezas. Daphnes instruiu sua filha de fugir para as montanhas para perpetrar a Família Real e quebrou sua Triforce da Sabedoria em duas partes, deixando uma com a princesa, para que passasse de mãe para filha, e uma consigo. Com este último ato, o rei serviu de escudo humano e foi selado junto de Ganondorf para garantir que este não pudesse escapar.

O principal meio de
locomoção do jogo é,
na verdade, um rei.
Contudo, o rei dos ladrões eventualmente quebrou o selo e conseguiu voltar para a superfície. Nisso, Daphnes emergiu também, agora com a aparência de um barco e se rebatizando como “Rei dos Leões Vermelhos”, passando a vagar em busca de um herói que fosse capaz de se opor ao tirano malévolo e pela sua descendente, portadora do fragmento da Triforce da Sabedoria. É isso que dá início a trama de The Wind Waker (GC).

Daphnes foi o rei mais ativo de todos até hoje, estando presente junto com o herói do começo ao fim do jogo. Suas brincadeiras, conselhos e esforço levaram Link e Tetra (que se revelou como a encarnação desta época da princesa Zelda) a conseguirem consumar seus destinos, se unindo para interceptar o plano malévolo de Ganondorf. Não foi tudo como o planejado, já que o vilão conseguiu reunir a Triforce completa e estava prestes a realizar o seu desejo, não fosse Daphnes chegando antes e usando o triângulo dourado para desfazer a barreira que protegia o reino submerso, agora afundando-o permanentemente.

Após a derrota do rei dos ladrões, Daphnes abre caminho para que Link e Tetra possam voltar à superfície, mas não vai com eles. Novamente ele aceita que o seu lugar é com o seu reino e deseja apenas que os dois consigam formar uma nova Hyrule, agora livre do tormento do vilão que afundaria junto com ele. Do começo ao fim, Daphnes foi tão herói quanto o guerreiro de túnica verde e, na ausência do Herói do Tempo, ele foi o rei que Hyrule mereceu e foi o verdadeiro herói que salvou não uma, mas incontáveis gerações.


Não bastasse isso, seu direcionamento permitiu que Link e Tetra, no final de Phantom Hourglass (DS), encontrassem um território novo que, no futuro, seria conhecido como “Nova Hyrule”.

Mais que guardiões, são pais

Rusl foi um dos que
mais chegaram perto de
ser um pai para Link.
Para concluir, é válida a menção honrosa de alguns personagens que, embora não sejam pais biológicos, continuam sendo por consideração e pelo seu papel como guardiões e mentores de outros heróis que compõem The Legend of Zelda. Afinal de contas, ser pai nem sempre é ter uma relação sanguínea, mas sim ser a figura de exemplo, a que vai criar o caráter do protegido e que vai guia-lo para um bom futuro.

A princípio, temos de ressaltar que, muitas vezes, Link não tem um pai. A maioria dos jogos coloca o garoto órfão ou nem sequer mencionam a figura paterna, mesmo este sendo apenas uma criança. Contudo, Link nunca está verdadeiramente sozinho. Em The Minish Cap e A Link Between Worlds (3DS), por exemplo, o herói é criado por um ferreiro sem nome, com uma conexão forte com a família real. Em The Wind Waker este papel é exercido por uma mulher, a avó de Link que cuida do jovem como mãe e pai ao mesmo tempo. Em Twilight Princess (GC), existe Rusl, o mentor de Link nas artes da espada e pai do menino Colin. Ironicamente, Link passa para Colin a mesma imagem que Rusl passa para Link, a de um mentor, exemplo a ser seguido.

Por vezes, nem é preciso ser humano para ser pai. Em Ocarina of Time, Link é órfão e foi acolhido pela Great Deku Tree para ser criado junto com as outras crianças da floresta, os Kokiris. A árvore cuida de toda a floresta como se fossem seus filhos até a morte, e mesmo em sua nova encarnação ela continua fervorosamente cuidando de seus protegidos, como podemos ver em Wind Waker e a relação da árvore com os Koroks.

Um sacrifício que definiu
o rumo do jogo.
Contudo, destes muitos parentes próximos ou guardiões, um dos mais sutis e mais importantes é o tio de Link em A Link to the Past (SNES). Sua participação no jogo é ínfima, mas o pouco que ele faz é notável. Além de criar o herói como se fosse seu filho, ensiná-lo a usar uma espada, como lutar e como se defender, quando o seu reino se viu em perigo, não hesitou em vestir seu escudo, sacar a espada e ir tentar proteger seu rei. Infelizmente, ele acabou sendo mortalmente ferido, mas deixando para seu sobrinho não somente uma espada e um escudo, mas uma motivação para lutar até o fim pelo seu reino. No desfecho da trama, a Triforce o traz de volta a vida, mas estar disposto a se sacrificar pela sua responsabilidade e por seu protegido o torna um pai e tanto.

E, bem, pretendia mencionar Hero's Shade de Twilight Princess também, mas a imagem abaixo já fala por si só quanto a responsabilidade de se guiar a próxima geração, mesmo que seja necessário transcender o tempo e a morte para isso.

Isso conclui a nossa contagem de pais de The Legend of Zelda. É claro que possivelmente existem muitos outros notáveis no decorrer destes mais de 25 anos de história, então lembre-nos se souber de mais algum. Contudo, o que importa é o fato de que jogos conseguem nos mostrar a verdadeira essência do que é ser um patriarca, um guardião. Pais, vocês são os heróis de seus filhos, os reis de suas casas e um exemplo para seus protegidos. Seja por sangue ou não, continuem sendo o melhor para eles, sejam os heróis que as suas crianças precisam. Você pode estar pavimentando o caminho para o grande herói da próxima geração.

Feliz Dia dos Pais!
Revisão: José Carlos Alves
Capa: Sybellyus Paiva
Fellipe Camarossi é graduando em Ciências Contábeis e amante de uma boa discussão sobre videogames. Além de escrever para o Nintendo Blast, também é redator nas revistas Nintendo World e EGW. Para elogios e críticas, pode encontrá-lo no Facebook ou Twitter.

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