Crônica

#Mario30th: Super Mario Bros. 3 (NES)

A maravilhosa experiência de viver o zeitgeist de Super Mario Bros. 3 e tudo o que o sucedeu.


O primeiro console que eu tive na vida e o único da Sega de uma lista, felizmente extensa, foi um Master System. Era comum passar horas e horas jogando Alex Kidd “na memória” (também conhecido como “in the Miracle World”), Castle of Illusion e o joguinho de futebol que eu não sei o nome até hoje, mas é o que tocava o hino dos países antes de começar. Castle of Illusion, inclusive, é o primeiro contato com algo da Disney que minha memória me permite lembrar.


Mas, como toda criança que eu conheço, não ficava todo meu tempo livre em casa, porque várias vezes minha mãe tinha que ir resolver algum problema na rua. Nesses momentos eu ficava na casa da minha tia que, dentre outras qualidades, faz o meu feijão favorito até hoje e um cachorro-quente de forno que rende elogios de todos os meus amigos que já experimentaram. Certo dia, depois de um desses almoços memoráveis desses, tinha uma caixa preta bizarra chamada Turbo Game.

Voltando um pouco no tempo

Pra quem não viveu o começo da década de 1990, o Turbo Game era um console pirata do NES, produzido e fabricado no Brasil, que vendia nas prateleiras das lojas Mesbla, algo equivalente a ter um pirata de PS4 na vitrine das Lojas Americanas em 2015. Esse tipo de coisa acontecia porque algum político achou que era boa ideia ter uma lei que proibia importação de computadores e liberava a cópia descarada aqui. Obviamente, a Nintendo ou qualquer outra empresa não via isso com bons olhos, uma imagem que o Brasil só conseguiu apagar bem recentemente, com a chegada oficial da Sony e Microsoft para produzir jogos aqui.
O Turbo Game é aquele treco preto em cima da cabeça do carinha da Mesbla
Explicada essa realidade, é fácil entender por que brasileiros são apegados com jogos do passado, sendo alguns deles bem ruins, mais que qualquer outro país que vejo por aí. Eu adoraria ver uma estatística de quantas pessoas gostam de Yo! Noid, um advergame da Domino’s (que sequer existia no Brasil, mas era motivo pra pedir pra essa minha tia que cozinha bem fazer outra especialidade dela, pizzas) ou Bart vs. the Space Mutants. Trazer jogos para cá era tarefa para profissionais e, por isso, eles praticamente só chegavam na nossa mão através de locadoras. A vantagem do Turbo Game é que ele era capaz de rodar tanto fitas de NES quanto de Famicom. Era bem normal jogar em japonês naquela época e muitas vezes fazia pouca diferença.

Então, quando nós tínhamos a sorte do meu primo escolher um jogo bom para alugar, era festa. A primeira lembrança clara que tenho de um videogame rodando na minha frente foi com Rockman 4, na fase do Bright Man. Não à toa, Mega Man é minha franquia favorita e o 4 é um dos que mais gosto da série clássica. O joystick do Turbo Game era bem ruim, então ver os comandos funcionando precisamente era lindo. Aquilo voltou a acontecer quando no sábado de manhã meu primo tinha chegado com uma fita amarela que, apesar de ter aos montes na locadora, era difícil de conseguir. Esse jogo era Super Mario Bros. 3.

Conhecendo a franquia

Meu primeiro contato com Super Mario Bros 3, curiosamente, não foi a primeira fase do jogo, mas o port de Mario Bros. (Arcade) presente. Oras, tínhamos dois controles e queríamos jogar juntos! Perdemos algumas horas nos divertindo naquilo, mesmo que eu, com meus cinco anos de idade, não estivesse entendendo nada, muito menos porque meu primo cinco anos mais velho sempre me ganhava. Mas era divertido ficar pulando naqueles bichos e “matando-os” após virar o casco.

Mas então resolvemos começar o jogo propriamente dito e, para a minha surpresa, aquilo era maravilhoso. O legal era ficar jogando, explorando e conhecendo novas fases e mundos, em um tempo em que o ato de salvar era inexistente para o jogo.
Os mundos dos gigantes, do céu e dos canos estão entre os que eu mais gosto de jogar até hoje. A primeira vez que estive em uma fase da água foi neste jogo e, caras, aquilo era fenomenal! Hoje em dia as pessoas odeiam fases da água, mas ver aquilo pela primeira vez me deixava fascinado. Claro que não era só isso. A diversificação das fases, uniformes e caminhos tornava tudo aquilo muito agradável de jogar e conversar com os amigos.

Sim, eu vivi o zeitgeist de Super Mario Bros. 3, e isso me deixa muito feliz. Descobri no boca a boca que tinha uma flauta que te levava direto para a metade do jogo, o que era muito útil, já que a gente não conseguia salvar. Estes e muitos outros segredos (vários deles falsos, diga-se) tornavam o ato de exploração daqueles oito mundos uma experiência que ia muito além de pegar o controle e sair passando de fase.

A visão com a cabeça de hoje

Ainda é frequente pegar Super Mario Bros. 3 para jogar, seja a versão de NES ou a de SNES, no Super Mario All-Stars. Depois de tantos anos jogando a mesma coisa, somado ao meu natural fascínio por game design, é normal que hoje eu volte a jogar apenas com os olhos críticos. Fazer isso é como voltar a assistir Pokémon — O Filme depois de anos. Você percebe que aquilo lá é pra criança, mas não é só para criança.
Imagem de uma das mais interessantes análises de level design que já li

Os princípios inseridos em Super Mario Bros. 3 guiam a franquia até hoje. Mesmo que ela esteja há uns tempos à mão do ultra competente e pouco valorizado Koichi Hayashida, Super Mario Bros. 3 é para a franquia Mario o que Goldfinger é para os filmes do 007 ou o que The Number of The Beast é para Iron Maiden: um arcabouço de como fazer um bom Mario, mas com identidade própria.

Passar no Gamasutra e procurar Super Mario Bros. 3 continua sendo uma das melhores coisas a se fazer na Internet atualmente, e mostra como ele influenciou tantos que hoje desenvolvem nossa diversão. Mas, muito mais que isso, jogar Super Mario Bros. 3 é uma atividade que é, de forma mais amadurecida, claro, incrivelmente prazerosa.

De todos os Super Mario existentes, este continua sendo o meu favorito até hoje, embora os motivos tenham mudado quase que completamente. “Quase”, porque aquelas memórias da infância nunca se perderão.

Super Mario Bros. 2 (NES) Índice Super Mario Bros.: The Lost Levels (NES)

Revisão: Vitor Tibério
Capa: Diego Migueis
Roberto Rezende é engenheiro de computação e brinca de game designer nos tempos vagos. Acha que Mega Man X4 é o melhor jogo já feito e acha Battletoads o jogo mais superestimado da história. No pouco tempo que sobra, faz reflexões no Juiz Cachorro. Está no Facebook, mas fala muito mesmo no Twitter.

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