Especial: Hanafuda e o nascimento da Big N

Não muito tempo atrás, nessa nossa mesma galáxia, um empreendedor japonês chamado Fusajiro Yamauchi fundou a Nintendo (com o nome de Ninte... (por Unknown em 06/10/2012, via Nintendo Blast)

Pronto para dar as cartas?

Não muito tempo atrás, nessa nossa mesma galáxia, um empreendedor japonês chamado Fusajiro Yamauchi fundou a Nintendo (com o nome de Nintendo Koppai) no Japão em 1889. E a sua recém formada, mas singela, indústria de jogos tinha como propósito a produção em massa de um popular jogo de cartas do país, o Hanafuda. Bem, quase todos os curiosos de plantão e muitos outros já conhecem essa história, porém desconhecem o mais importante: afinal de contas, o que era o Hanafuda e como se jogava tal jogo?

A arte de jogar cartas

Há muito tempo atrás, no Japão...

A origem do Hanafuda que, literalmente significa “cartas de flores” no japonês, remonta as épocas mais antigas do Japão. Jogos de cartas refinados já eram jogados no país há vários séculos, porém apenas por nobres. No entanto, tal cenário mudou dramaticamente quando em 1549 um missionário de nome Francis Xavier desembarcou no país. Sua tripulação trazia um jogo de cartas europeu composto por 48 cartas diferentes e logo, o jogo tornou-se popular entre as classes mais baixas da sociedade. Infelizmente, logo depois o Japão cortaria relações com o mundo exterior e qualquer tipo de jogo de cartas passaria a ser terminantemente proibido.

Durante os anos seguintes e o xogunato Tokugawa, o jogo permanecia proibido. Mesmo assim, reuniões secretas para jogá-lo aconteciam a todo o momento e, para evitar a repressão e perseguição do governo, os jogadores buscaram modificar e criar novos baralhos, diferentes dos modelos ocidentais já conhecidos. Dragões, armaduras, heróis e os mais diversos tipos de artes foram reproduzidos nas cartas para desenvolver vários tipos de baralhos. E assim, novamente o jogo retomou sua popularidade, somente para ser reprimido pelo governo novamente quando da proibição de qualquer tipo de jogo com cartões. Esse jogo de gato-e-rato entre jogadores e governo persistiu por vários anos ainda.

Tóquio, a antiga cidade de Edo  Um baralho unificado e muito bonito

Porém, uma hora o governo acabou se cansando. Mesmo com tanta repressão, os jogos de cartas ainda continuavam populares no país e já não se podia proibir o uso de um certo tipo de cartão apenas suspeitando-se que ele poderia ser usado para fins de jogo. Sendo assim, o governo relaxou suas leis e decidiu unificar os diferentes tipos de jogos de cartas que circulavam pelo país em um único jogo que combinasse a arte japonesa e o estilo ocidental das cartas. Nascia o Hanafuda: um baralho de cartas cheio de imagens e sem números onde o principal objetivo do jogo é combinar essas imagens.

O esquema do jogo funciona da seguinte maneira: existem 12 conjuntos de cartas, cada um representando um mês do ano. Cada conjunto é designado por uma flor, contendo quatro cartas cada. Usualmente, cada naipe (conjunto de cartas) contém duas cartas normais e duas cartas especiais. A pontuação que às vezes é utilizada pode-se tornar desnecessária ou se tornar arbitrária, uma vez que as diversas maneiras populares de se jogar o jogo atribuem pontos diferentes a certas combinações de cartas. Para visualizar esse sistema de pontuação melhor, vejamos o exemplo das quatro cartas a seguir: duas normais (1 ponto), mais um Ribbon Poesia (5 pontos) e uma carta especial Bush-toutinegra em uma árvore (10 pontos).

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Dessa forma, existem várias combinações diferentes que formam pontuações diferentes. Então, é normal que o Hanafuda seja um jogo longo com várias regras, onde a principal delas é acumular mais pontos que o adversário partindo de um conjunto de cartas embaralhadas. Com uma “mão” de oito cartas, tudo é organizado em um sistema de rodadas, onde ao final de cada uma os jogadores somam individualmente seus pontos.

Uma carta na manga e outra no futuro

Apesar da Nintendo ser uma empresa majoritariamente focada na produção e distribuição de jogos eletrônicos, ela não se esqueceu de suas origens e o baralho do Hanafuda ainda continua presente entre as vendas da empresa. Bem, as cartas já não são mais feitas à mão, mas edições especiais do baralho foram lançadas, como a do Mario lançada para o Club Nintendo e a versão digital, intitulada Koi-koi, lançada para o Nintendo DS em 2006.

It's a-me... Mario... In the cards!  Versão digital para um jogo clássico

É bom ver como uma grande companhia não se esquece de suas origens e de como um simples, mas popular jogo de cartas, abriu as portas para uma produção artesanal se tornar uma das maiores indústrias de jogos dos tempos modernos. Além disso, a história da Big N compartilha grandes semelhanças com a jornada atribulada do Hanafuda ao longo dos anos. Da mesma forma que o jogo de cartas teve que ser adaptado e reinventado diversas vezes para escapar da repressão do governo, assim também a Nintendo fez ao garantir sempre inovação a cada projeto de console lançado. Desde o NES até o Wii U, a empresa esteve sempre na vanguarda das ideias e tecnologias, escapando do lugar-comum e tornando-se tão popular quanto o Hanafuda é entre os japoneses.

Uma curiosidade é que o Hanafuda não é jogado apenas no Japão. No Havaí e na Coréia do Sul o jogo também é bastante popular, mas recebe outros tipos de nomes. Mesmo assim, o estilo do jogo permanece o mesmo nesses locais: combinar imagens e acumular pontos para ganhar. E sabendo que o jogo tem tanta história, tanta popularidade em vários países, dá vontade de jogar apenas por diversão ou para relembrar o surgimento da Big N, há mais de 123 anos atrás.

A eterna tradição de jogar

O Hanafuda se tornou o jogo de cartas mais popular do Japão e continua sendo jogado avidamente ainda hoje. Da bruta repressão contra jogos de cartas, a arte e criatividade prosperam para superar as adversidades e criar um jogo belo e prático. Pode-se dizer que sua história se assemelha um pouco a da Big N: apesar de críticas e tropeços, a empresa que nasceu de um simples jogo de cartas prospera com inovação e ideias que revolucionam a maneira de se jogar da mesma forma que um baralho ocidental, trazido pela tripulação de um navio explorador, mudou drasticamente a maneira de se divertir com algo tão simples, séculos atrás.

Revisão: Jaime Ninice


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