Blast from the Past

Speed Racer: The Videogame (Wii): o F-Zero que o Wii nunca teve

Muita psicodelia e textos em português marcam esse jogo de corrida baseado na adaptação live action do clássico da década de 60.


Ao falarmos “jogo de filme”, com certeza é possível prever um frio na espinha de muitos jogadores já acostumados com uma maioria de adaptações ruins ou, no máximo, medíocres, no intuito apenas de acompanhar o lançamento de um longa-metragem e arrecadar alguns trocados daqueles que acabaram se iludindo com a promessa da reprodução de universos cinematográficos na forma de uma experiência imersiva e individual.


Pois bem, Speed Racer, o live-action lançado em 2008 baseado do anime da Tatsunoko da década de 60, também passou por esse processo de crossmedia.  O título em questão foi lançado também para PlayStation 2 e Nintendo DS, o que tornaria mais pertinente a presença desse texto no GameBlast. No entanto a versão de Wii acaba chamando a atenção pelo simples fato de não haver um F-Zero no console, fazendo com que ela acabe por ocupar esse vácuo ao reproduzir as principais características da propriedade intelectual da Nintendo protagonizada pelo icônico Captain Falcon.

Lembra-se do gameplay de F-Zero, não é? É um jogo de corrida frenético com pistas largas e uma quantidade considerável de carros disputando uma única partida, com o diferencial de, além de cada veículo ter seus atributos, existir uma barra de energia que pode ir caindo caso haja alguma colisão, seja com outros veículos ou com qualquer objeto fora da pista. O bruto de Speed Racer segue exatamente essa ideia, mas com um pouco mais de desenvolvimento, atrelada aos testados e aprovados controles de Mario Kart Wii.



Seguindo as ideias do filme como fonte, uma mecânica específica de combate, denominada car-fu, foi implementada no título. Dessa maneira, com movimentos dos Wii Remote — utilizado na horizontal, como em Mario Kart — combinados com os quatro botões do direcional digital, era possível atacar os oponentes ao jogar seu veículo sobre os deles, prensá-lo contra a parede ou até mesmo fazê-los capotar ao impulsioná-los com um toque em sua traseira. Obviamente, o jogador também é suscetível a tais técnicas da mesma maneira.

Uma outra adição de gameplay é a presença do modo zona. Ao executar o car-fu com perfeição, uma barra de turbo vai sendo adicionada e pode ser utilizada ao pressionar o botão B, no entanto até quatro delas podem ser acumuladas. Caso o jogador opte por isso, ao ativar as quatro delas em sequência, o carro entra no chamado modo zona, em que o visual do jogo entra numa espécie de túnel psicodélico (lembra um pouco a sequência star gate de 2001, Uma Odisseia no Espaço) em que o carro ativa sua velocidade máxima por alguns segundos e torna-se quase invencível. Os turbos acumulados também podem ser utilizados para recuperar a barra de vida.

Cada performance bem-sucedida de car-fu rende pontos. A cada mil delas, um novo ponto é adicionado como bônus ao fim da corrida e somado à pontuação regular obtida por conta da própria colocação. Ao todo, são dezoito campeonatos, cada um com seu número de corridas, divididos em três categorias principais e mais nove em uma quarta categoria oculta com mais nove campeonatos. As corridas se dividem em cinco pistas inspiradas nas do filme, mas, para evitar que o jogo se torne repetitivo, uma série de variações de cada uma foram implementadas, praticamente multiplicando as possibilidades.



Além desse modo campanha principal, o jogo oferece um modo para corridas individuais e um time attack, no qual é possível correr contra os fantasmas de recordes registrados. Há também um multiplayer que funciona muito bem em tela dividida. Para quando bater o tédio, uma série de códigos podem ser introduzidos, e eles têm a função de bagunçar o jogo, como alterando a gravidade, deixar os oponentes mais agressivos ou até mesmo trocar todos os carros por caminhões-monstro, dentre vários outros.

Sim, Speed Racer é extremamente simplista em relação a conteúdo, que aqui se estende mais apenas na variedade de pilotos, cada um com suas características de jogo. São 20 disponíveis, incluindo alguns pilotos com participação pequena no filme, como o Fantasma Cinzento e Sonic Boom Boom Renaldi. Há também uma brasileira, Mariana Zanja, patrocinada pela Petrobrás — não, não é uma brincadeira. Por conta disso, provavelmente, o jogo está disponível em português, algo incomum para a sua época, ainda.



Basicamente, Speed Racer é isso. É um produto absolutamente simples baseado em um filme. Entretanto, sua qualidade nos permite fazer duas de constatações. A primeira delas é que, sim, é possível um game baseado em uma outra obra ter sua qualidade individual, desde que os desenvolvedores aparentemente saibam o que estão fazendo. Aqui, nota-se que houve um objetivo claro de tentar simular o que faz F-Zero ser o que é e atentaram-se a isso, em vez de seguirem pelo caminho de jogo de ação genérico como várias outras adaptações.

A segunda é que um jogo não precisa oferecer uma vastidão sem fim de conteúdo para ser bom. Speed Racer mostra que, desde que a jogabilidade seja sólida o suficiente para oferecer um fator replay infinito, extras colecionáveis tornam-se apenas um detalhe. Talvez a única ausência sentida seja a falta de um modo on-line, mas isso aos olhos atuais, visto que o Wii nunca foi exemplo nesse quesito e naquela época esse tipo de gameplay ainda estava se consolidando.

Revisão: Luigi Santana
João Pedro Boaventura é jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Não perde a chance de usar conceitos acadêmicos para discutir sobre videogame. Se você realmente gosta das groselhas que ele escreve, pode ler mais um pouco de suas asneiras em seu blog particular.

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