Blast from the Past

Tatsunoko Vs. Capcom é um clássico amigável que representa uma ousada Capcom de anos atrás

O título lançado originalmente em 2008 para o Wii pouco se importa para a complexidade, mas tem valor pela diversão que proporciona.


Tatsunoko Vs. Capcom (Wii) é um título certamente interessante. Primeiramente pela ousadia em trazer uma leva de convidados completamente nova à meta-série de crossovers da Capcom. A segunda é pelo fato de o jogo ser lançado para o Wii (e Arcades) em vez dos queridos Xbox 360 e PlayStation 3, os aparelhos em alta definição da época que eram constantemente encarados como os mais hardcore, em vez da máquina alegadamente causal que era o console branco da Nintendo. Por fim, em terceiro lugar, é pela questão da localização, que promoveu algumas diferenças significativas entre as versões orientais e ocidentais do jogo.

Tendo tudo isso em vista, vamos em etapas para entender o que torna o título tão marcante para o Wii e como ele realmente merece ser lembrado dentro do legado não só dos jogos de luta, mas também da história da série Capcom Vs. (que data desde o longínquo X-Men Vs. Street Fighter), dos jogos de luta em perspectiva 2D e até mesmo da própria Capcom.


Crias do Cavalo-Marinho contra as do Computador em Cápsula

Embora a Capcom seja universalmente conhecida entre os jogadores, a Tatsunoko Production acaba por exigir mais explicações a respeito de sua existência. Estúdio de animação fundado em 1962, por Tatsuo Yoshida, Kenji Yoshida e Ippei Kuri, seu nome, dependendo da forma como são lidos os algarismos que o compõem, acaba por ser um trocadilho por significar tanto “filho de Tatsuo” (Tatsu no Ko) quanto “Dragão do Mar”, o que deu origem à mascote em forma de cavalo-marinho.

Em seus mais de cinquenta anos de existência, o estúdio produziu diversas propriedades intelectuais, sendo que muitas delas alçaram voos além do campo da animação. Representadas no game, podemos ver os personagens Casshan (da série homônima); Yatterman e Doronjo com o resto da Dorombo Gang (ambos da série Time Bokan); Ken the Eagle e Jun the Swan (de Gatchaman, conhecido por essas bandas como Batalha dos Planetas); Tekkaman (Tekkaman: The Space Knight); Gold Lightan (Golden Warrior Gold Lightan); Karas (da série homônima); Polimar (Hurricane Polymar); e Ippatsuman (Gyakuten! Ippatsuman).



É notável que muitas séries podem soar desconhecidas ao ouvido brasileiro (à exceção de Gatchaman, que recebeu um lançamento oficial por aqui sob outro título) ou até mesmo ocidental como um todo, visto que ficaram restritas basicamente ao Japão. Ironicamente, uma das franquias mais populares da Tatsunoko em terras estrangeiras, Match GoGoGo, internacionalmente conhecida como Speed Racer, acabou ficando de fora do título.

Para o lado da Capcom, nomes bem mais conhecidos integram o elenco, com Ryu, Chun-Li e Alex (de Street Fighter); Mega Man Volnutt e Roll (de Mega Man); Batsu (Rival Schools); Soki (Onimusha); Morrigan Aensland (Darkstalkers); PTX-40A (Lost Planet), Viewtiful Joe (da série homônima); e Saki Omokane (de um obscuro jogo de Arcade híbrido de quiz e dating simulator chamado Quiz Nanairo Dreams: Nijiiro-chō no Kiseki).


Frenéticas batalhas 2 vs. 2

Sob um ponto de vista inicial, o gameplay de Tatsunoko Vs. Capcom é bem simples, considerando que os ataques básicos se resumem a apenas três botões, com golpes variando de acordo com a direção induzida pela alavanca analógica ou direcional digital, dependendo do modo de controle (pode ser só o Wii Remote, com o Nunchuck acoplado, Classic Controller ou controle de Gamecube).

Para incrementar um pouco a variedade, alguns elementos mais elaborados foram introduzidos ao título, como é o caso do Baroque e o Mega Crash. O Baroque é responsável por colocar o lutador em um modo de combo estendido capaz de causar mais dano ao custo de um naco da barra de vida, enquanto o Mega Crash assume um papel mais defensivo ao quebrar automaticamente o combo do oponente com uma onda explosiva que o joga para longe, ao custo de parte da barra de especial.



Tatsunoko Vs. Capcom também tinha como característica as batalhas em dupla, uma herança da série Vs. que aqui prevalece. Contudo, é interessante chamar atenção para o Gold Lightan e o PTX-40A. O peculiar isqueiro gigante e a Vital Suit de Lost Planet têm um tamanho avantajado que ocupa dois slots de lutador em vez de um, fazendo com que o jogador que os escolhesse tivesse que enfrentar suas batalhas com um único personagem.

Apesar de tais mecânicas, o jogo continua interessante por ser amigável a um jogador sem muita experiência com jogos de luta por não exigir uma precisão tão aguda quanto a de seus irmãos mais graúdos — Marvel Vs. Capcom 3 (Multi) estava para ser lançado apenas alguns meses depois, em 2011, enquanto Street Fighter IV (Multi) já tinha alguma estrada e naquela altura tinha acabado de receber sua Arcade Version.


Versão Japonesa X Versão Ocidental

Por muito tempo, foi dada como improvável a localização para o oeste de tal título, considerando que praticamente todo o roster da Tatsunoko era à época obscuro para a nossa inteligência coletiva. Demorou dois anos, mas ela finalmente veio no final de 2010. Enquanto a versão japonesa original de Wii tinha o subtítulo Cross Generation of Heroes, no ocidente, o jogo foi lançado em sua forma definitiva (igual às versões Ultra/Super/Ultimate de outros jogos da empresa, como Street Fighter e Marvel Vs. Capcom) com uma alcunha bem mais desinteressante: Tatsunoko Vs. Capcom: Ultimate All-Stars. Tal nome não foi a única mudança nesse processo, visto que era necessário trabalhar a imagem do título para deixá-lo mais palatável em mercado ocidental.


       
Além de rebalancear o gameplay e eliminar certos eventuais problemas de desequilíbrio entre os personagens, novos personagens foram introduzidos ao título. Enquanto Hakushon Daimao — personagem cômico do fim da década de sessenta presente em Cross Generation of Heroes que no Brasil era conhecido como Gênio Maluco — foi limado por questões de licenciamento, novos personagens foram introduzidos no lugar: para o lado da Tatsunoko, há a inclusão de Yatterman-2 (Time Bokan), Tekkaman Blade (da série homônima), e Joe the Condor (Gatchaman). Da Capcom, entram em cena Frank West (Dead Rising) e Zero (Mega Man Zero).
         
É notável que Ultimate All-Stars recebeu um modo on-line enquanto uma série de mini-games da versão original, cada um estrelado por um lutador diferente e que utilizava o gimmick do sensor de movimento do aparelho que se tornou febre em sua geração, foi removida de sua atualização e substituída por um shooter sem-graça baseado em Lost Planet. Considerando que tal novidade apresentava constantes problemas de lag e conexão, além do fato de o jogador do Wii na época não ter sido tão apegado a tal característica, talvez fosse melhor ter continuado com os joguinhos extras, mesmo que a remoção e inclusão de ambos os modos não tenha qualquer relação entre si. Pode ser também que eles tenham sido removidos pela simples questão de não estarem com vontade de criar mais deles para os novos personagens que foram introduzidos. Vai saber.

Dentre outras alterações menores estão os temas de personagem, agora atrelados aos estágios, uma mudança visual da tela de seleção de personagens e o vídeo de introdução do jogo, que passou de uma animação com todos os personagens para um powerpoint de luxo que utiliza apenas excertos da abertura original, apresentando os lutadores com imagens quase estáticas. Ah, sim, o tema da Roll, Kaze Yo Tsutaete, uma canção com vocais que deu primeiramente as caras em Mega Man: Battle & Chase, recebeu pela primeira vez uma adaptação com letras em inglês sob o nome Where the Wind Blows — que, diga-se de passagem, ficou bem agradável, mas só podia ser ouvida em seu respectivo estágio, visto que não há uma galeria de mídia, ao contrário da versão japonesa original de 2008.


Um clássico moderno que merece ser revisitado

Tatsunoko Vs. Capcom não é um ode ao suado jogador hardcore de dedos calejados de tanto efetuar combos infinitos. É um título amigável e companheiro daqueles que gostam e se divertem com jogos de luta, que não têm o mesmo interesse instintivo de competição da primeira categoria. Apesar de poder gerar alguma controvérsia entre o público fiel, isso é algo benéfico para o mercado, que vai atrair novos nomes que, uma hora, podem acabar criando curiosidade por títulos de gameplay mais complexo e elaborado.

Jogos assim podem não ser tão incomuns na esfera gamer, mas é importante ressaltar que é necessário que eles sejam bem-feitos, como é o caso aqui. Além disso, isso representa outra questão, esta sim em falta no meio: ousadia. Além de produzir algo que vai além do público fiel e óbvio, a Capcom merece ser congratulada pela coragem em trazer o título a um mercado que desconhece praticamente metade de todo o elenco de personagens. Ainda, por conseguir se segurar e mantê-lo exclusivo ao Wii.

Tudo bem, Capcom, já se passaram dez anos desde o lançamento original de Cross Generation of Heroes. Por mais que a licença já tenha expirado, seria possível readquiri-la e ganharmos uma sequência ou até mesmo remasterização dele agora depois de tanto tempo, em vez de mais uma versão de certos jogos que já estamos cansados de jogar e você continua impondo-os por nossas goelas?
João Pedro Boaventura é jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Não perde a chance de usar conceitos acadêmicos para discutir sobre videogame. Se você realmente gosta das groselhas que ele escreve, pode ler mais um pouco de suas asneiras em seu blog particular.

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