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Análise: Mega Man Legacy Collection (Switch) prova que o robozinho azul ainda tem muito combustível

Apesar de originalmente ter sido lançada há três anos, coletânea chega ao Switch com potencial de agradar veteranos e conquistar novos fãs para a franquia.

No início de dezembro de 2017, acompanhei atento a apresentação que a Capcom realizou para comemorar os 30 anos de Mega Man. Apesar do sucesso e relevância do personagem nas últimas três décadas, há um bom tempo ele estava na geladeira, e se existia alguma chance de termos o bombardeiro azul de volta, tinha de ser naquela fatídica noite. Confesso que fiquei desapontado quando Legacy Collection foi anunciado para o Switch, afinal queria uma novidade — que estava muito bem guardada para o final do show.


Mesmo com o console híbrido atravessando momento excelente, será que valia a pena relançar a coletânea de 2015 que reunia seis games das décadas de 1980 e 1990? A dúvida permaneceu até semana passada, quando a invenção do Dr. Light invadiu a tela do Switch e provou que tem muito combustível para queimar. Mega Man Legacy Collection visa atingir dois públicos: os nostálgicos, que jogaram os originais no NES, e os novatos, que ainda não vivenciaram as primeiras aventuras do robozinho. Por coincidência, me encaixo em ambos.

Meu primeiro contato com a franquia foi durante a série X, do Super Nintendo, e somente depois conheci as origens no saudoso NES. No “Nintendinho” cheguei a jogar somente os dois primeiros capítulos da saga, sem nunca ter finalizado nenhum. Com o Legacy Collection, recebi a segunda chance de derrotar o aterrorizante Yellow Devil e, finalmente, encerrar aquela jornada que havia começado em minha infância. Tendo o Joy-Con em mãos, me senti transportado ao passado enquanto fazia a sequência Cut Man — Guts Man — Bomb Man...
A clássica tela de seleção de fases


Já a partir de Mega Man III, tudo foi uma deliciosa novidade. Conforme experimentava as “novas” missões do robô azul, fui percebendo a evolução da série. Como cada elemento inédito ajudou a moldar a franquia. Através desses dois sentimentos, de nostalgia e surpresa, fui capaz de aproveitar todos os benefícios que Legacy Collection tem a oferecer, mesmo já estando disponível há três anos em outras plataformas. Talvez, esse seja o verdadeiro poder de Mega Man, o de continuar surpreendendo por gerações.

Uma chave de fenda ajusta tudo

A grande prova de que a coletânea foi elaborada para atingir os mais variados públicos é o vasto leque de alternativas. Para os mais velhos, existem os já conhecidos filtros de imagem — que deixam a tela com aspecto antigo, como se estivéssemos usando um televisor de tubo — e até a opção de ligar os slowdowns. É fato que o hardware do NES não era capaz de rodar os jogos da série Mega Man no 100%, por isso, as quedas de processamento eram visíveis. Inclusive, alguns obstáculos foram inseridos nas fases levando em consideração a ocorrência das “travadas”.

Em Legacy Collection, a qualquer momento o jogador pode acessar o menu e deixar o desempenho da CPU no original. Com isso, até mesmo as quedas de desempenho serão idênticas ao que ocorria no passado — mais nostálgico, impossível. No entanto, também é possível deixar a CPU como turbo, o que torna a jogatina totalmente fluída, sem nenhum problema relacionado aos slowdowns. Essa opção acaba deixando algumas fases e chefes bem mais fáceis.
Deslizando sem travar

Outra ferramenta útil para os novatos é a de retroceder. Não é novidade que o nível de dificuldade de Mega Man é bastante elevado, algo comum para os jogos da época. A decepção de morrer diversas vezes seguidas (aliada à tristeza de ser obrigado a passar a mesma fase de novo e de novo a cada game over) é bastante frustrante para quem não está acostumado com essa mecânica. A solução oferecida pela Capcom é o botão de voltar, que permite “regressar no tempo” a qualquer momento e tentar novamente aquele movimento que deu errado.

Facilidade que os consoles atuais apresentam e que também não existia no passado é a possibilidade de salvar o progresso para continuar a jogatina mais tarde. Essa é uma opção que faz toda a diferença, principalmente, no primeiro título da série — que ainda não contava com passwords e precisava ser vencido de uma única vez. Também é uma funcionalidade que encaixa perfeitamente com o modo portátil do Switch, afinal, torna-se possível pausar as jogatinas que começaram dentro do carro, por exemplo, para continuá-las na próxima viagem.

Particularmente, não usei o recurso de salvamento e nem o botão retroceder, pois queria a experiência mais próxima da original. No entanto, reconheço a importância que ambas as ferramentas têm para a conquista de novos públicos, principalmente, daqueles que não têm nenhuma familiaridade com os terrores de dificuldade que existiam no passado.
Sem dúvidas, uma das batalhas mais traumáticas da história

Era preciso repetir?

Apesar de minha vontade ser a de me sentir jogando no NES novamente, alguns pequenos defeitos da geração 8-bits poderiam ter ficado de fora da coletânea. O que mais me incomodou foram os flickers — quando os sprites começam a piscar por existirem muitos elementos com movimento na tela. Não é algo que chega a comprometer, porém causa certa chateação até mesmo para aqueles que conviviam com a situação nos primórdios dos videogames caseiros.

Há também pequenos problemas com a trilha sonora, com falhas pontuais em determinados momentos. Novamente não é uma questão que interfere diretamente na experiência, mas que poderia ter recebido um polimento mais caprichado. É fato que essas falhas também estavam presentes nas versões anteriores da coletânea e que o relançamento para o Switch não seria justificativa plausível para que mudanças fossem feitas. No entanto, são detalhes que ofuscam parte do brilhantismo do pacote.
Muitos inimigos na tela = flickers

Mega fórmula

As mecânicas de Mega Man são bastante conhecidas: fases de plataforma que exigem destreza e precisão até se chegar ao chefão. Derrotar o boss significa absorver os seus poderes, conquistando assim armas que serão a fraqueza de algum outro inimigo. Característica também marcante da série é a falta de linearidade, ou seja, poder explorar os diferentes estágios na ordem desejada. Cada um dos seis episódios da coletânea podem render horas de desafios ou serem fechados em pouco tempo, dependendo da habilidade do jogador.

Entretanto, em Legacy Collection até mesmo os veteranos terão muito a fazer depois de capturar o Dr. Wily por seis vezes consecutivas. O game traz como bônus um remix de desafios envolvendo todos os títulos da coletânea. A enorme quantidade de missões e o nível elevado de dificuldades fazem desse extra um campo de diversão à parte, que até poderia ser considerado um jogo separado devido à quantidade de conteúdo. Para aqueles com espírito de competição, é possível comparar online seus resultados com os de outros jogadores.
A lista de desafios é bem extensa

Outro interessante item especial existente no pacote é a coleção de conteúdos referentes ao passado da série. É possível viajar para as origens da franquia através das capas dos jogos lançadas em diferentes regiões, artes conceituais, manuais, descrição de personagens, entre outros. No meio de tanto material, consegui encontrar até a controversa capa norte-americana do primeiro game — considerada até os dias de hoje como uma das mais bizarras de toda a história dos videogames.

Como se já não fossem novidades suficientes, outro conteúdo que chama a atenção é o player de música contendo todas as faixas dos seis títulos. Mesmo nos cartuchos de 8-bits, Mega Man é dono de uma das trilhas sonoras mais marcantes da história e poder ouvir as canções originais a qualquer momento é algo bastante interessante. Essa é outra opção que acaba sendo diferente no Switch em relação às demais plataformas caseiras, afinal, agora é possível carregar as músicas de Mega Man para todos os lugares.
Exemplo de arte conceitual que faz parte dos extras

Engrenagens em funcionamento

Essa pode não ser a coletânea mais completa que a franquia Mega Man recebeu, na verdade, até existem outras com mais conteúdo. No entanto, a estreia do bombardeiro azul no Switch foi uma excelente surpresa. Jamais teria imaginado que poderia me divertir tanto com uma coletânea de jogos que têm mais de 20 anos, ainda mais sendo de uma franquia tão conhecida e comentada atualmente. É possível afirmar que Mega Man Legacy Collection é uma interessante porta de entrada para franquia (apesar de Mega Man Legacy Collection 2 ser mais recomendado para os 100% novatos), ao mesmo tempo que funciona como um museu que mantém preservado todo o legado da série.

Com Mega Man 11 batendo a porta, essa é uma maneira mais do que recomendada de ir se preparando para a próxima, e inédita, aventura do nosso querido robô azul.

Prós

  • Possibilidade de reviver o início da franquia e ver sua evolução na era 8-bits;
  • Novidades como o salvamento a qualquer momento e botão rebobinar;
  • Fator replay gigante com a presença de uma enorme quantidade de desafios extras;
  • Imenso material extra que preserva a memória da franquia.

Contras

  • Problemas de flickers;
  • Falhas na composição sonora em alguns momentos.
Mega Man Legacy Collection — Switch / 3DS / PS4 / PC / XBO — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Diogo Mendes
Análise produzida com cópia digital cedida pela Capcom
Vinicius Veloso é jornalista e obcecado por games (não necessariamente nessa ordem). Seu vício começou com uma primeira dose de Super Mario World e, desde então, não consegue mais ficar muito tempo sem se aventurar em um bom jogo. Está no Facebook ou Twitter.

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