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Começando a criar games: dê o start em seus projetos

Saiba tudo o que você precisa saber para embarcar no mundo do desenvolvimento de games


O sonho de ser um desenvolvedor de games no Brasil não é mais impossível, como parecia a algumas décadas atrás. Produtoras nacionais têm produzido games até mesmo para consoles de última geração e conquistando o gosto da crítica e do público.


Estes games, por sua vez, estão longe de serem superproduções. 99 Vidas (QUByte Interactive) e Chroma Squad (Behold Studios), por exemplo, utilizam gráficos em Pixel Art para representar seus mundos. Horizon Chase (Aquiris Game Studio), por sua vez, utiliza gráficos em 3D Low Poly. Ambos, estilos visuais que para muitos podem ser antiquados, mas que não impediram de atingir sucesso comercial.

Com estes exemplos, é possível perceber que não é necessário um orçamento absurdo para começar a produzir seus games. É preciso utilizar seus recursos financeiros e intelectuais disponíveis de forma criativa para produzir o melhor game possível, sejam eles uma grande equipe com computadores de última geração, ou você e seus amigos com notebooks desatualizados. Com conhecimento e força de vontade você consegue chegar a qualquer lugar.

Este artigo lhe dará algumas dicas iniciais para que você saiba por onde você pode começar. Estas dicas são baseadas em minha vivência na produtora de jogos em que trabalho, de meus estudos na pós-graduação em Game Design e de livros que li sobre o assunto. Espero que sejam de grande valor para você e que um dia estejamos trabalhando lado-a-lado em um grande game!

Primeiro de tudo: saiba o que é um game


Antes de mais nada, é preciso ter em mente o que é um game e o que o diferencia de outras mídias. Não é raro de se encontrar, até mesmo entre jogadores assíduos, pessoas que limitam a definição de “game” a uma mídia de narrativas interativas. De fato, a narrativa e a interação, são importantíssimas para esta mídia, mas não são estes os elementos que definem se o produto é ou não um game. 

Segundo Scott Rogers, em seu livro Level UP: The Guide to Great Video Game Design, games são atividades que necessitam de um participante ou mais e que possuem regras e condições de vitória. Este conceito é válido para todos os tipos de jogos, sejam eles eletrônicos, de cartas ou de tabuleiro. O que diferenciam os videogames dos demais jogos está no fato destes necessitarem de uma tela de vídeo para serem jogados.

Neste conceito, o jogo pode ou não apresentar uma narrativa. O xadrez, por exemplo, narra uma batalha entre dois reinos. Cada peça representa uma personagem nesta história, sendo controladas pelo jogador de acordo com regras pré-estabelecidas, afim de atingir o objetivo de matar o rei do reino adversário.

A forma como o jogador pode interagir com estas regras para alcançar a vitória é chamada de “jogabilidade” ou “gameplay”. Este elemento é considerado o mais importante para o desenvolvimento de um jogo, pois é ele que diferencia a experiência de jogar ou assistir um filme interativo, por exemplo.

Algumas ferramentas que você pode utilizar


Existem diversas ferramentas que você pode utilizar para começar a desenvolver o seu game. Não existe exatamente uma melhor do que a outra, mas sim, ferramentas que se enquadram melhor aos seus recursos (intelectuais e financeiros) e seus objetivos. Segue abaixo uma pequena lista de ferramentas (que já utilizei) e que podem ser interessantes para você:

Unity
A Unity é uma das ferramentas de desenvolvimento mais utilizadas no mercado e você pode utiliza-la gratuitamente. Atende bem para o desenvolvimento de jogos 2D e 3D para PC e consoles, porém, é necessário ter conhecimentos médios em programação C#.

Construct 2
O Construct 2 é perfeito para iniciantes, porém, é limitado a produção de games em 2D. Sua linguagem é, em sua maior parte, visual, garantindo que jogos de pouca complexidade possam ser desenvolvidos em poucas horas.

Apesar de ser um software pago, é possível fazer muito com sua versão gratuita. Se você não é da área de programação e seu objetivo é fazer um game no estilo de Super Mario World, o Construct 2 é a escolha certa.

Recentemente foi lançada uma terceira versão, totalmente online, porém, ainda é mais fácil encontrar tutoriais para a versão 2.

RPG Maker
O RPG Maker está presente desde os tempos do Windows 95 e, assim como o Construct 2, não necessita de conhecimento em programação. Porém, é uma ferramenta específica para o desenvolvimento de RPGs ao estilo de Dragon Quest e Final Fantasy das gerações do NES e SNES.

A vantagem de desenvolver games em RPG Maker é a sua biblioteca de Assets, que conta com personagens, monstros, sons e tudo o que você precisa para fazer seu jogo. A desvantagem é que, por ter um estilo muito característico, seu jogo sempre estará atrelado a ferramenta.

Você não precisa fazer tudo sozinho


Existem desenvolvedores que se arriscam em fazer todo o trabalho sozinhos, mas esta não precisa ser a sua opção. Trabalhar com uma equipe engajada, em que cada membro se dedica a uma determinada atividade, pode trazer resultados muito mais interessantes. Gosta de desenhar? Que tal focar em desenvolver ao máximo suas habilidades e deixar a programação para um amigo que gosta de programar? Abaixo segue uma lista de funções que você pode exercer em uma equipe de desenvolvimento de jogos:

Game Designer: Se você vive inventando games diferentes em sua cabeça, esta função é para você. A função do Game Designer é projetar o game, descrevendo seu gameplay, planejando como serão os níveis e até mesmo sua narrativa.

Programador: Um dos membros mais importantes da equipe, o programador utiliza códigos para que o jogo se torne realidade. Se seu objetivo é trabalhar com programação de jogos, recomendo o estudo da linguagem C#, utilizada na ferramenta Unity.

Artista 2D: A arte bidimensional ainda é bastante utilizada nos games independentes. Se você gosta de desenhar e sonha em ser um artista para games, é interessante que estude a fundo ilustração digital, animação e design gráfico. Questões de interface, como HUD, menus e logo, com frequência caem nas mãos do artista 2D.

Artista 3D: Gráficos em três dimensões também são utilizados em games independentes no Brasil. Normalmente, são de baixa poligonágem, para que possam ser rodados sem problemas em smartphones e tablets. O artista 3D pode matar sua cede por gráficos mais elaborados em produções estáticas, como imagem de menu, ou fazer trabalhos para produtoras do exterior que trabalham com este tipo de visual em seus games.

Músico: O som representa uma boa parcela da experiência de se jogar um jogo. O músico é responsável por produzir as trilhas sonoras, porém, em pequenas produtoras, assume o papel de sonoplasta e outras funções relativas a parte sonora do game. Existem alguns músicos que disponibilizam seu trabalho gratuitamente para uso na internet. Não há nada de errado em utilizar estes materiais para seus games, desde que respeitadas as instruções disponíveis referente a licença de uso. Porém, lembre-se que músicas disponibilizadas desta forma podem ter sido utilizadas por milhares de outros games.

Faculdade de jogos vale a pena?

Faculdades de desenvolvimento de games ainda podem ser consideradas como novidade no meio acadêmico. Ao mesmo tempo em que muitos estudantes têm se sentido atraídos pela área, muitos outros se questionam se vale a pena o investimento de tempo e dinheiro.

Assim como todo curso universitário, os cursos de desenvolvimento de games dão uma visão geral de suas áreas de trabalho, cabendo ao estudante decidir para qual delas irá se especializar.
Normalmente, os alunos devem fazer trabalhos interdisciplinares em cada período, e cada membro da equipe desempenha o papel de uma área de desenvolvimento, tendo que dedicar um tempo extra para estuda-la a fundo.

Vale a pena? Claro que vale. A faculdade o colocará frente-a-frente com problemas que você possivelmente não enfrentaria, o que só acrescenta riqueza ao seu conhecimento, e o colocará em contato pessoas que possuem objetivos semelhantes aos seus, e podem ajudá-lo com suas habilidades.
Contudo, é recomendável que você entre na faculdade com uma certa preparação. Lendo este artigo, você já teve uma boa base. Experimente as ferramentas citadas, procure cursos ou vídeo-aulas, faça um game simples, se divirta aprendendo.

Ainda estou na escola! O que eu faço?


Se você ainda não concluiu o ensino médio (ou até mesmo o fundamental) não precisa esperar a faculdade para levar os estudos de desenvolvimento a sério. Além de diversos tutoriais na internet, existem escolas de programação voltadas para crianças e adolescentes, procurando ensinar algo que poderia ser chato de forma divertida. 

Tem algum livro para indicar?

Como diria uma professora na biblioteca, os livros são nossos amigos. E, apesar de poucos em nosso idioma, temos alguns amigos que podem ajudar e muito na hora de entender como os games são planejados.

O primeiro que indico a todos que querem trabalhar com games é o Level Up: Um Guia para o Design de Grandes Jogos, de Scott Rogers. De forma descontraída, o autor detalha todos os elementos de um bom Game Design.

A trilogia Regras do Jogo: Fundamentos do Design de Jogos, de Katie Salen e Eric Zimmerman, também segue a linha de Level UP, porém, trazendo um conteúdo mais direcionado para pessoas que almejam fazer jogos de todos os tipos, não somente eletrônicos.

Em inglês, as possibilidades aumentam com A Theory of Fun for Game Design, de Raph Koster, que com muitas ilustrações, traz um excelente texto sobre gameplay, e Game Design: Theory and Practice, de Richard Rouse III, que traz informações semelhantes ao Level UP, porém, com entrevistas e outros conteúdos que podem servir de complemento.

Comece agora!

Agora que você já tem uma base para começar a desenvolver games, pegue seu caderno, notebook, ou o que tiver em mãos e coloque em prática! Se você ama games e está disposto a se esforçar, existe espaço para você no mundo do desenvolvimento de games, não importa a sua idade. Em muitos momentos, tudo vai parecer impossível, mas lembre-se: você consegue!
Revisão: Vinícius Veloso 



Bruno Bonatto escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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