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Análise: All-Star Fruit Racing (Switch) é uma criativa salada de fruta com gosto de nada

Jogo traz diversas novidades e uma grande variedade de modos, mas falha em executar bem as mecânicas essenciais de um jogo de kart.


É frustrante quando um jogo tem todos os ingredientes para ser um tremendo sucesso e ainda assim acaba se tornando simplesmente medíocre. Infelizmente, essa é uma boa descrição de All-Star Fruit Racing (Multi). Mesmo transbordando criatividade, tanto na temática, quanto em suas novas mecânicas, o game erra a mão completamente nos elementos mais básicos de um jogo de corrida. O resultado é um desperdício de potencial, manchado por uma profunda falta de conhecimento do gênero ao qual pertence.

Inovação refrescante

Inevitavelmente, a primeira comparação que todos fazem ao ligar esse jogo é com a renomada franquia Mario Kart. É impossível ignorar todo legado que o jogo trouxe para o gênero e, apesar de a comparação parecer injusta em um primeiro momento, essa acaba se mostrando uma lente bastante eficiente para analisar as forças e fraquezas de All-Star Fruit Racing. Numa jogada arriscada, esse jogo renega muito desse legado. Os resultados variam entre interessantes e catastróficos, mas uma dessas mudanças que melhor funciona é no sistema de power-ups

Em Mario Kart, itens são adquiridos ao coletar blocos espalhados pelo campo. Há um certo balanceamento dependendo de sua colocação, mas essencialmente você consegue itens de maneira randômica. All-Star Fruit Racing abandona a aleatoriedade em prol de um sistema que permite um pensamento mais estratégico. 
Combine escudos, ataques, armadilhas e boosts para estar sempre um passo à frente do seu oponente.


Cada jogador tem quatro tanques de combustíveis que podem ser preenchidos de suco coletando as frutas correspondentes. Cada fruta está relacionada a uma habilidade e ao encher os tanques é possível ativá-las e combiná-las. Com todos os tanques cheios, o jogador tem acesso a todas as habilidades do jogo, permitindo uma versatilidade que jogadores de Mario Kart jamais poderiam imaginar. É quase como estar com o Crazy 8, do Mario Kart 8 Deluxe (Switch), o tempo todo, mas podendo escolher apenas um item. O sistema traz muito mais escolha que sua contraparte, tornando a experiência mais complexa ao dar maior escolha ao jogador.

Corra do seu jeito

O grande foco dos desenvolvedores foi exatamente garantir que os jogadores sentissem essa sensação de escolha nos mais diversos âmbitos do jogo, incluindo a forma de adquirir os itens. Além do estilo supracitado, chamado pelo jogo de Juicer, as outras variações disponíveis funcionam tão bem quanto.

Em Dragster, todos os tanques são preenchidos conforme o tempo passa. Parece uma mudança mínima, mas torna o jogo mais competitivo ao garantir que todos os jogadores estejam bem equipados o tempo todo. Random Juicer substitui as frutas na pista por itens aleatórios. Funciona como Mario Kart, mas sem um balanceamento entre os itens. Esse modo acaba expondo que as habilidades em si não são interessantes fora do contexto estratégico dos outros modos.
Os diversos modo de se jogar estão disponíveis em todos.
Por fim, a eliminação vem como uma alternativa às regras tradicionais. No lugar de uma corrida para completar um circuito, o objetivo aqui é sobreviver. A cada dez segundos, o último colocado é eliminado até sobrar apenas o vencedor. Neste modo, cada erro é brutalmente penalizado e ser acertado por um item pode ser seu fim. Uma mudança bem vinda de ritmo, mas desbalanceada demais para empolgar por muito tempo.

Essas opções de regras e objetivos estão presentes nos diversos modos de corrida, com exceção do Time Attack. A variedade é especialmente bem vinda no modo Carreira, onde você precisa completar diversas corridas em sequência com a mesma personagem. Ter alguma variação impede que esse modo se torne repetitivo, o que é importante já que é a principal maneira de conseguir os desbloqueáveis do jogo. Os prêmios variam dependendo da classificação, então se você pretende desbloquear todos os personagens é melhor mirar no primeiro lugar.
Vença corridas no modo Carreira para personalizar a aparência do seu kart.

Errou feio, errou rude

Quando começamos a analisar as pistas do jogo é que os problemas começam a ficar mais aparentes. O jogo traz uma quantidade considerável de mapas, todos bastante coloridos, cheio de atalhos secretos e formatos interessantes. Apesar disso, há muitas inconsistências entre eles. Enquanto alguns apresentam pequenos trechos problemáticos, como curvas ocultas por uma geometria confusa, outros quebram completamente o ritmo do jogo.

O problema não está no design dos mapas em si, mas nos desenvolvedores que julgaram errado a duração de cada mapa. Os mapas que trazem uma única volta tentam inovar como o elogiado Mount Wario de MK8. Entretanto, eles acabam sendo curtos demais, deixando um gostinho amargo nos mapas mais criativos do jogo. Já os mapas menores que receberam cinco voltas acabam ficando muito longos e repetitivos.
Frozen Castle, uma das pistas mais únicas do jogo, acaba bruscamente.


É nesses mapas repetitivos que fica mais evidente as maiores falhas do jogo: a programação dos carros em si. Em um jogo de corrida, é essencial que exista alguma evolução nas partidas. Isso é alcançado com uma aceleração sutil, carros com pesos diferentes entre outros elementos que tornam as corridas competitivas. Em All-Star Fruit Racing não há nada disso. Combinado com uma inteligência artificial super simplória, o jogo acaba se tornando tedioso na maior parte do tempo.

No momento em que você aperta o botão de acelerar, seu kart já está na velocidade máxima. O único jeito de conseguir alguma aceleração de fato, mesmo que temporariamente, é acertando o tempo dos drifts e passando pelos poucos boost pads espalhados pelas pistas. Os drifts em si são muito bruscos e fechados e não funcionam como esperado. A velocidade máxima também não é lá essas coisas, o que faz com que o jogo pareça funcionar sempre como a velocidade mínima do Mario Kart.


Para agravar ainda mais as falhas do jogo, a inteligência artificial é bastante preguiçosa. Todos os competidores são programados para serem igualmente bons, descartando qualquer balanceamento. Desse modo, não há nenhuma distribuição de corredores pela pista e todos estão constantemente competindo pelo primeiro lugar. Caso você seja acertado por um item a qualquer momento, prepare-se para cair diversas posições. A inteligência artificial rasa tira todo o valor da estratégia trazida pelo novo sistema de itens, sufocando os esforços de tornar o jogo interessante.

No fim, todos os avanços trazidos pelos sistemas únicos do jogo são minados por uma base mal construída. All-Star Fruit Racing é um jogo que traz ótimas ideias, mas falha brutalmente na execução. O resultado é um jogo medíocre que falha em capturar a atenção do jogador por muito tempo. Com o modo online já às moscas, só é interessente comprar esse jogo para jogar com amigos.

Prós

  • Mecânica de power-up revigorante;
  • Mais estratégico e menos dependente da sorte;
  • Pistas cheia de atalhos;
  • Altamente customizável;
  • Vários modos de jogo.

Contras

  • Experiência de corrida medíocre;
  • Gráficos ordinários que confundem em algumas pistas;
  • Todos os karts e personagens tem os mesmos atributos;
  • Modo single-player mal balanceado.
All-Star Fruit Racing - PC / PS4 / Xbox One / Switch / Mobile - Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Diogo Mendes
Análise produzida com cópia digital cedida pela 3DClouds
Gabriel Mattos faz joguinhos na UFRJ, quando deveria estar estudando Computação. Estuda computação, quando deveria estar escrevendo. Escreve, quando deveria estar dormindo e não dorme, porque fica sempre no Twitter. Também pode ser encontrado noInstagram.

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