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Análise: Nefarious (Switch) — Entre a vilania e a decepção

O game inverte os papéis habituais, colocando o jogador na pele de um vilão que viaja o mundo raptando as princesas de diversos reinos.


Desde criança, eu sempre desenvolvi empatia por diversos tipos de personagens, sejam eles os heróis ou os vilões. Constantemente me perguntava porque o faminto coiote não podia ganhar uma vez do papa-léguas, se era afinal, uma questão de sobrevivência. Aventuras épicas onde os heróis derrotam poderosos vilões são estimulantes e satisfatórias, mas alguns malvados são tão icônicos que acabam amados pelo público de forma geral. Quantos leitores gostam de Star Wars e não são fãs de Darth Vader?



Nos videogames a corrente segue o mesmo fluxo. Há muitos vilões queridos, principalmente quando se fala sobre a Nintendo. Por influência do meu irmão, interessei-me bastante por jogos de estratégia em tempo real, que tiveram sua época de ouro nos computadores e hoje já perderam popularidade. Nesses games encontrava frequentemente a chance de lutar pelo lado dos tiranos, geralmente representados pelo exército de cor vermelha.

Quando Nefarious foi anunciado para o Switch, sua proposta logo me deixou empolgado. Controlar o vilão em fases de plataforma e ser o chefe das boss battles é algo que não se vê todos os dias. Após jogá-lo, descobri que o seu desenvolvimento foi feito por apenas duas pessoas, o que me fez valorizar ainda mais o trabalho. Porém, infelizmente, o jogo também me decepcionou em alguns pontos.

A trama gira em torno das aventuras de Crow, o vilão de Macro City. Durante incontáveis anos, ele travou muitas batalhas com Mack, o herói do reino humano, enquanto tentava raptar a princesa Mayapple. Até que em uma dessas tentativas ele finalmente consegue finalizar o sequestro com sucesso. Brincando de forma criativa com esses clichês, o jogo apresenta uma nova motivação para Crow: raptar outras princesas de reinos diferentes, para então criar a arma definitiva usando como combustível o recém descoberto poder que possuem as representantes da realeza.

Vamos passar por diversas fases, incluindo os reinos dos insetos, dos anões e dos ogros. O grande chamariz do jogo são as batalhas contra chefe invertidas, que apesar de divertidas, e inspiradas em séries clássicas como Sonic, Final Fantasy e Mega Man, em sua maioria não possuem muita profundidade. Mesmo assim são os momentos mais legais do game, por estarmos no controle do maquinário vilanesco de Crow. Há referências a outros jogos também e até a tokusatsu.


As seções de plataforma na maior parte do jogo seguem o padrão a que estamos acostumados, aproveitando é claro, o tema de cada um dos reinos. No início eu procurava entradas escondidas em cada canto das fases, mas depois percebi que exploração não é exatamente o foco dele, e deixei de lado. Porém, ainda existe um ou outro segredo a ser descoberto e até decisões a tomar. O jogo tenta quebrar esses momentos mais comuns variando um pouco a jogabilidade, o que é bem feito e interessante na maioria dos casos, e infeliz em outros.

Sem dar muitos spoilers, existe uma seção em uma fase em que é necessário criarmos nossas próprias plataformas, que se quebram após alguns segundos. Há uma parte em que montamos em um animal que lembra muito as fases desse estilo em Sunset Riders (Arcade/Snes). Juntamente com algumas boss battles, esses momentos me deixaram muito feliz e animado enquanto jogava Nefarious.


Por outro lado, existe uma fase de exploração marítima, que apesar de belíssima, é demorada e pouco criativa. Acredito que os desenvolvedores pensaram em criar um momento de tranquilidade em meio ao caos, o que faz sentido narrativamente, mas acabou deixando a jogatina cansativa. Também há uma outra parte no jogo que é muito importante para o desenrolar do ótimo enredo, mas só evidencia um problema da história do game: ela se arrasta por longos textos, nem sempre importantes — eles podem ser ignorados ou passados rapidamente. Depois de passar esses dois momentos, eu só queria terminar o jogo logo, e ir fazer outra coisa qualquer da minha vida.

É mais um game que abandona o sistema de vidas. Há moedas que podem ser adquiridas de diversas formas nas fases, mas quando morremos, ficam em uma caixa voadora no local, e precisamos voltar para recuperá-las. Para derrotar mais facilmente seus inimigos, o vilão pode trocar seu dinheiro em upgrades, em sua luva e bombas, além de aumentar o número de corações e de granadas disponíveis. Se tratando da luva, basicamente o dano ou a distância de acerto é aumentado. Já as melhorias para a bomba não ajudam tanto, já que impedem o personagem de usar o recurso de saltar mais alto.


É possível atacar com socos ou jogando as granadas. Mas, enquanto os inimigos terrestres não trazem muito desafio, caindo facilmente das plataformas, e podendo ser acertados de longe com as bombas, alguns inimigos aéreos são extremamente irritantes, acompanhando nosso movimento e praticamente nos obrigando a acertá-los com os projéteis. A pouca variação de tipos de ataques e movimento dos adversários é outro fator que desanima no game, mesmo que em cada mundo existam seres diferentes, pouco se vê de novidades na forma em que somos ameaçados.

Na maior parte do tempo, pelo desafio ser de moderado a tranquilo, a impressão que passa é a de que o jogo funciona bem como platformer. No entanto, uma das últimas fases, que possui uma sessão de saltos mais longa e apressada, evidencia alguns problemas na precisão dos pulos. Com um pouco de paciência entretanto é possível realizar a sequência sem grandes problemas.


O game quebra clichês estabelecidos na indústria de forma muito interessante, mas a maioria dos personagens, infelizmente, é pouco memorável. Um mundo rico foi criado para contar essa história e cada reino possui suas diferenças e características distintas. Entretanto, poucos personagens foram realmente bem aproveitados e tiveram detalhes notáveis nos longos textos. E nem todos que foram melhor apresentados são realmente carismáticos, como Crow, Mayapple, e a assistente Becky, por exemplo. A maioria dos subordinados do vilão só tem um único diálogo e não servem pra mais nada.

Os diferenciados ambientes são muito bonitos e bem detalhados. Já foi citado o aquático e o de montaria, que possuem uma estética diferente do resto do game. Um é minimalista, e outro usa um estilo de coloração diferenciado. Até a nave de Crow possui muitos detalhes importantes, seja na decoração ou nos detalhes luminosos ou de ventilação. Houve uma dedicação perceptível também na animação, preocupando-se com o dobrar de joelhos do vilão quando aterrissa no chão depois de um salto. Infelizmente alguns inimigos não receberam a mesma atenção, mas de forma geral, o game é esteticamente muito capaz.


Ele começa com voice acting, mas assim que começamos a controlar o personagem, os diálogos passam a ser sons metalizados acompanhados de caixas de texto. Pelos menos há tons diferentes para os diversos personagens. Já o grande ponto alto do jogo está em sua brilhante trilha sonora. Cada música foi minuciosamente composta para representar o lugar ou situação que está ligada. Algumas são cantadas e cômicas, e outras são apenas belas canções que fazem muito sentido quando reparamos o lugar onde elas tocam.

Há ainda alguns itens coletáveis, sendo quatro em cada fase. Sempre três coroas, e um disco de vinil, que representa a trilha sonora daquele lugar e que pode ser colocada para tocar na jukebox presente na nave de Crow. Pode ser um incentivo ao fator replay pegar as coroas, mas mesmo assim, o game não é muito longo e pode ser fechado com algumas horas.


Resumindo, Nefarious é um jogo com uma proposta excelente, bem fora da curva e recomendado principalmente para fãs de plataforma cansados de clichês. Possui um gameplay decente, mas não muito desafiador, com algumas partes diferentes para tentar dar um descanso ao jogador dos longos e, por vezes, desnecessários textos que fazem desenrolar a narrativa, o que infelizmente nem sempre funciona bem. Os gráficos são muito bonitos e a trilha sonora é impecável. Apesar de contar com momentos bem divertidos e uma boa história, o jogo não executa a sua proposta com maestria, desperdiçando seu potencial.

Prós:

  • Proposta fora do comum e interessante;
  • Gráficos bonitos e detalhados;
  • Trilha sonora memorável;
  • História interessante;
  • Boss battles invertidas, afinal, jogamos com o vilão.

Contras:

  • A forma como a história é contada, com diálogos muito extensos;
  • Pouca variação de tipos de inimigos;
  • Momentos que deveriam ser tranquilos acabam demorados e cansativos demais;
  • Pouco aproveitamento do universo e personagens criados;
  • Upgrades que, ou não causam muita diferença, ou impedem o uso de um recurso importante;
  • Jogo curto, sem grande incentivo ao fator replay.
Nefarious — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: André Carvalho
Análise produzida com cópia digital cedida pela Digerati
Lucian Helan é formado em Redes de Computadores, mas gosta mesmo é de pilotar uns Karts por aí, atirar plasma com seu mega buster, correr em loops a toda velocidade e derrotar crocodilos ladrões de bananas. Seus sonhos incluem, pilotar uma X-Wing, andar no recreio com o Peter Parker e conseguir um tempo para se dedicar ao seu Instagram.

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