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Análise: Surgeon Simulator CPR (Switch) leva a mesa de cirurgia ao híbrido da Nintendo

Jogo da Bossa Studios chega ao Switch com recursos exclusivos e gameplay divertido, porém, os controles ruins tornam sua dificuldade excessivamente alta e frustrante.



Quando encontramos um jogo do tipo “simulador”, geralmente imaginamos algo que coloque o jogador em experiências bem próximas da realidade. No caso de Surgeon Simulator, o que temos é totalmente o oposto disso: com seus controles extremamente desajeitados, o título transforma o que supostamente seriam cirurgias delicadas em atividades caóticas, onde reinam situações absurdas, estranhas e cheias de humor.


Inicialmente concebido durante o evento Global Game Jam em 2013, no prazo de 48 horas do evento, o título teve sua primeira versão comercial para PC ainda em 2013, fazendo bastante sucesso com desastrosos e engraçados gameplays postados no YouTube. Em 2014, foram lançadas novas versões para Playstation 4 e dispositivos móveis. Finalmente, em 2018, é a vez do Nintendo Switch receber a sua edição - aqui, o jogo é chamado Surgeon Simulator CPR (coop ready), trazendo novos recursos para multiplayer e suporte a controles por movimento. E o resultado disso, obviamente, não poderia ser menos engraçado. E nem menos frustrante.


O pior cirurgião de todos os tempos

O ponto de partida para compreender a experiência oferecida por Surgeon Simulator CPR é que ele não foi feito para ser levado a sério. Essa compreensão é importante não só ao encarar os principais desafios colocados diante do jogador, que envolvem realizar procedimentos cirúrgicos de maneiras pouco convencionais. É que, além de tudo isso, o jogo foi desenvolvido para ser difícil e bagunçado de propósito - desde a não existência de um tutorial até os controles desajeitados e nem um pouco precisos.



O jogador assume o controle do cirurgião Nigel Burke - ou melhor, o controle de suas mãos, que são as únicas partes do personagem que aparecem. Antes de partir para uma cirurgia, dá para praticar um pouco da movimentação na mesa do consultório. As instruções mais simples sobre os controles aparecem em um monitor: o botão ZL/ZR desce a mão, enquanto o botão L/R pega um objeto. O analógico esquerdo movimenta a mão pelo cenário, enquanto o direito a rotaciona.

Acontece que os controles não são nem um pouco precisos e tarefas simples, como pegar uma caneta ou atender o telefone, são muito difíceis. O toque mais suave no analógico é suficiente para fazer a mão do personagem se mover demais, e pegar o objeto desejado em meio a outros pode ser um verdadeiro martírio. Tudo isso gera uma dificuldade realmente desafiadora, já que essa desabilidade também se faz presente durante as cirurgias.



Uma novidade de Surgeon Simulator CPR é o suporte a controles por movimentos, porém, não demorou muito tempo até eu resolver desativá-los. O jogo não utiliza muito bem os sensores dos Joy-Con, e como resultado, fiquei o tempo todo tentando me entender com uma mão que girava loucamente. Os movimentos feitos não são interpretados corretamente, ao ponto do jogo se tornar praticamente injogável desta forma. Portanto, jogar através dos controles tradicionais é a melhor opção.

Por padrão, Nigel é destro - ou seja, usa a mão direita para suas ações. É possível mudar as configurações para que ele seja canhoto, usando a mão esquerda. Caso você decida dividir as operações cirúrgicas com um amigo, o personagem poderá usar as duas mãos - cada jogador ficará responsável por controlar uma delas através de um Joy-Con, dobrando o nível de confusão e desespero do gameplay.


Eu acho que ele vai sobreviver

Você está na mesa de cirurgia e o jogo te oferece a primeira missão: realizar um transplante de coração. O paciente já está deitado, com o tórax aberto e os órgãos expostos. Diversos instrumentos estão espalhados ao redor - inclusive, coisas que nem deveriam estar por ali, como garrafas vazias e um serrote. A situação é realmente bizarra, e o fato do médico realizar a cirurgia sem usar luvas é o menor dos absurdos.



O jogo não dá nenhuma pista de como prosseguir, então cabe ao jogador decidir o que fazer. Na prática, é preciso achar alguma forma de chegar até o órgão que deve ser transplantado, e isso é feito simplesmente arrancando fora tudo o que estiver no caminho, descobrindo quais ferramentas são mais úteis para cada parte do processo. Não há todos os órgãos que uma pessoa normalmente teria - para chegar até o coração, por exemplo, é preciso passar pela caixa torácica, pulmões, fígado e estômago. Depois de tirar esses órgãos, joguei o coração velho do paciente no chão, peguei o novo e joguei no lugar do anterior. Cirurgia completa.

No canto superior direito, o jogo mostra quanto sangue  o paciente ainda tem, além da taxa de perda sanguínea. O jogador deve tentar não machucá-lo demais (considerando que arrancar os ossos e jogar os órgãos fora são coisas normais), caso contrário, a perda de sangue vai aumentar aos poucos. O paciente morre se o sangue acabar, te garantindo um game over na cirurgia, e acredite… você vai matar o coitado várias vezes até conseguir completar o serviço.



O transplante de coração é apenas o começo. Conforme o jogador conclui com sucesso as cirurgias, novos tipos de procedimentos são desbloqueados: os transplante de rins, cérebro, olhos e dentes. O objetivo continua sendo o mesmo - não importa como, encontrar um jeito de substituir os órgãos defeituosos pelos novos, abrindo caminho ao quebrar ossos, cortando órgãos e jogando fora o que não precisa com os controles desajeitados, evitando que o paciente morra.

Uma vez terminadas as cirurgias, você terá a chance de repeti-las em outros cenários que podem subir ainda mais a dificuldade. Enquanto o primeiro cenário é dentro da sala de cirurgia, o segundo te desafia a operar o paciente em uma maca em movimento. Se você tiver a paciência de desbloquear o próximo cenário, prepare-se para uma cirurgia dentro de uma ambulância em movimento, com instrumentos e órgãos saltando por todos os lados. O último cenário e o mais desafiador é em uma estação espacial, com todos os órgãos e objetos espalhados em gravidade zero.


Uma linha tênue entre engraçado e frustrante

Nos primeiros instantes do gameplay de Surgeon Simulator CPR, a dificuldade em manusear os objetos e executar a operação no paciente resulta em boas risadas. Porém, não demora muito para o jogo se tornar um tanto frustrante, já que concluir uma cirurgia com sucesso exigirá um bom número de tentativas. Em outras palavras, depois de um tempo, os controles desajeitados se tornam cansativos. Essa sensação piora mais com as operações nos cenários de maior dificuldade, como na ambulância em movimento. Aqui, a dificuldade beira o impossível.



O grande problema é que, mesmo que sejam propositais, os controles ruins e as situações bizarras do jogo acabam por esgotar o jogador por impossibilitá-lo de cumprir o seu objetivo e avançar para o próximo desafio. Afinal, a questão não é necessariamente dominar uma mecânica difícil, mas é tentar se virar com controles feitos para levar o jogador ao erro. A dor de cabeça por passar horas nas tentativas de executar algo simples pode tirar todo o interesse pelo jogo, o que não é um ponto nem um pouco positivo.

O sentimento de frustração é agravado pelo fato de que é necessário ter sucesso nas cirurgias para desbloquear os conteúdos do jogo - as demais cirurgias e os outros cenários e, no fim das contas, não é um conteúdo tão vasto assim. Até existe uma lista de conquistas no jogo para tentar prender o jogador por mais tempo, mas realizá-las é uma tarefa extremamente árdua  com os controles ruins.



Esse problema é amenizado um pouco ao jogar acompanhado de amigos, desafiando-os a tentar salvar o pobre paciente e vendo-os falhar miseravelmente. Além disso, o jogo suporta partidas cooperativas através dos Joy-Con, onde dois jogadores podem dividir os controles das mãos. O único ponto negativo é que essa jogabilidade força o uso de controles por movimento e eles são um verdadeiro desastre.

Uma cirurgia mal feita

Surgeon Simulator CPR é um título curioso e engraçado, mas infelizmente essa impressão só se sustenta até um certo ponto. Arrancar órgãos e transplantá-los  no paciente pode ser realmente uma tarefa divertida, e os controles ruins garantem boas risadas por alguns instantes. O problema é que é justamente isso que acaba barrando o progresso do jogador, transformando o jogo em sessões de tortura.



Por fim, embora esse detalhe não o estrague completamente, o jogo não é facilmente indicável. Mesmo com os recursos exclusivos da versão para Switch, como os péssimos controles por movimento e suporte a jogatinas multiplayer, não são razões o suficiente para tê-lo no híbrido da Nintendo. Se você não está interessado em um jogo que poderá fazê-lo ter vontade de arremessar seus Joy-Con pela janela, pode ser mais interessante investir em outro título.

Prós

  • Bastante humor;
  • Apresenta várias formas para cumprir os desafios;
  • Sistema de conquistas.

Contras

  • Dificuldade excessiva;
  • Controles terríveis;
  • Péssimo uso dos sensores de movimento;
  • Recursos exclusivos da versão Switch pouco relevantes;
  • Multiplayer obriga o uso dos sensores de movimento.


Surgeon Simulator CPR - PC/ Switch/ PS4/ Mobile - Nota: 5.5
Versão utilizada para análise: Switch

Análise com cópia digital cedida pela Bossa Studios
Revisão: Vinicius Fernandes

Marcelo Vieira é formado em Análise de Sistemas na UCAM e trabalha com infraestrutura Linux. Sua educação gamer inclui clássicos como Sonic, Super Mario e Resident Evil e é apaixonado pela Nintendo, mas encontra ótimas experiências em outras plataformas. Pode ser encontrado no meio de alguma Turf War, no Facebook e no Instagram.

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