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Análise: The Messenger (Switch) inova e vai muito além de homenagear os side-scrollers do passado

Viajar por eras de bits e chiptunes é apenas a ponta do iceberg neste jogo surpreendentemente profundo de ação e plataforma 2D.


Os dois ninjas correm entre a vegetação alta e verdejante. Eles saltam antes do encontro inevitável, rasgando o ar com suas espadas até se chocarem, fazendo um som agudo e metálico. O tempo para e uma melodia inesquecível começa a tocar. Foi dessa forma dramática que uma história memorável teve início no saudoso NES. Quando criança, eram essas cenas cinematográficas — para a época, pelo menos —, contadas com meia dúzia de cores e alguns poucos pixels, que faziam a experiência de Ninja Gaiden parecer um feitiço para mim.


Se a comparação é inevitável, dá para dizer que The Messenger — estreia da produtora canadense Sabotage Studios — é a evolução natural da lendária série da Tecmo. Algo parecido com o que ocorreu com Castlevania em Symphony of the Night: é maior, melhor, mais ambicioso e com uma narrativa mais envolvente que a de seus antecessores. E neste aqui, também, tudo começa com algumas cenas cinematográficas, contadas em poucas cores e pixels.

Sobre profecias, pergaminhos e humor

Quando iniciei The Messenger pela primeira vez, foi como uma viagem no tempo. O título é uma ode aos primeiros Ninja Gaiden, mas exala confiança e personalidade própria. Daquele mesmo jeito dramático, somos apresentados à história dos ninjas exilados que lutam por sua sobrevivência contra uma profetizada invasão do exército demoníaco vindo do Leste. Para frustrar a tal profecia e salvar os últimos remanescentes da raça humana, um ninja é escolhido para ser o mensageiro, encarregado de levar um importante pergaminho até os monges no topo da montanha.

Uma aventura fantástica inicia, mas é apenas a ponta desse iceberg. Durante a jornada, fui surpreendido dezenas de vezes por reviravoltas, referências, diálogos engraçados e quebras da quarta parede. A quantidade de capricho e amor dedicado ao game é evidente em cada pixel que aparece na tela, e essa história contada de forma tão peculiar é um sopro de originalidade que este mercado saturado de indies influenciados por clássicos do passado estava precisando.

Outro ponto que chama a atenção logo de cara é o humor. Constantemente vemos jogos tentando ser engraçados sem sucesso. The Messenger é genuinamente cômico: brinca com os clichês da indústria, com os cacoetes de todo gamer, com si mesmo, faz referência a outros jogos, etc. Tudo sem exageros, cuidadosamente curado pelos roteiristas e contando com uma impressionante localização para o português pelas mãos da Devolver Digital. É sério, não deixe de esgotar as opções de diálogos e interações, tem muita coisa bacana escondida nas entrelinhas.

Um side-scroller tradicional

Como no bom e velho Ninja Gaiden, The Messenger começa como um side-scroller de ação simples. São dez estágios tradicionais que representam o caminho do nosso herói em sua missão até o topo da montanha. Todavia, desde o início é possível notar que alguns elementos parecem não fazer parte daqueles cenários, o que de fato causa certa estranheza. Mas como o gameplay é ágil, a vontade é sempre de seguir adiante, liquidando inimigos e chefes até chegar ao “final”.


Todas as mecânicas clássicas do estilo marcam presença: movimentos rápidos, saltos acrobáticos, golpes com espada, além de projéteis em quantidade limitada para dano à distância. Existe, também, um segundo pulo — chamado de “Passoleve” no jogo —, que só fica disponível após um ataque bem-sucedido. É uma maneira bastante interessante de adicionar uma camada extra de estratégia nos lances de plataforma e combate, exigindo habilidade e precisão do jogador.


Ao eliminar inimigos ou quebrar pontos determinados no ambiente, cristais são coletados e servem para comprar novas habilidades e upgrades para o mensageiro. No início, lidar com todas estas ações disponíveis pode ser um pouco intimidante, mas na parte final da aventura — quando eu já estava confortável com os comandos —, me vi fazendo combos impressionantes para atravessar os desafios malucos de plataforma. Coisa de ninja mesmo!

Um side-scroller nada tradicional

Se a jornada toda fosse apenas os dez estágios iniciais de pura ação e plataforma, o título já mereceria muito destaque por seu ritmo frenético, controles fluídos e níveis muito bem desenhados e com dificuldade balanceada. Mas não para por aí! Só depois de sua primeira metamorfose é que percebemos que The Messenger não é uma mera cópia, mas sim uma evolução do gênero que o influencia.

Após uma batalha contra um dos chefes mais casca-grossa de toda a trajetória, a estrutura do game começa a se contorcer e se transformar, florescendo de maneira impressionante como uma experiência aberta de exploração estilo “Metroidvania”. E neste momento uma das sacadas mais bacanas do título também dá as caras: o conceito de viagem no tempo. E por tempo, entenda 8-bits (passado) e 16-bits (futuro). É uma doidera visual, sonora e de level design sem precedentes!

Portais aparecem espalhados pelas fases, possibilitando trocas instantâneas de um estilo para outro. No entanto, o conceito extrapola a simples troca de pele como vimos, por exemplo, em Wonder Boy: The Dragon’s Trap. Além das evidentes mudanças estéticas, diversas áreas antes inacessíveis transformam-se em puzzles a serem solucionados através do vai-e-vem pelos portais.

Lembra daqueles elementos estranhos meio perdidos pelos cenários? Todos eles fazem parte da estrutura brilhante de The Messenger em sua segunda metade. Absolutamente tudo tem um propósito: a disposição das plataformas, os objetos interativos, até mesmo os inimigos são meticulosamente posicionados para servirem não somente como obstáculos, mas também como ferramentas para a exploração dos vastos mapas.

E como todo o resto do game, o nível de esmero colocado na direção de arte destes dois tempos distintos é admirável. Além da animação fluída dos belos sprites de personagens, os cenários são um show à parte a cada mudança de visual. Tudo se encaixa, até as músicas se adaptam ao “tempo” do jogo. Enquanto em 8-bits é puro chiptunes de NES, em 16-bits percebemos uma qualidade que varia entre a excelência sonora do Super Nintendo e alguns momentos cheios do charme mais metalizado do Mega Drive. É lindo de ver e ouvir!

Não mate o mensageiro

Quando o mundo — e o conceito de tempo — se abriram, The Messenger passou a brincar ainda mais com as minhas expectativas como jogador. Senti-me como uma bola de Pinball, sendo rebatido para todo lado tentando entender este universo recheado de quebra-cabeças, enigmas e dicas ocultas que escondem uma misteriosa e envolvente mitologia. Tudo orquestrado de um jeito ridiculamente divertido e desafiador.


Mas quando digo desafiador, não pense em Ninja Gaiden de jeito nenhum. Aquela dificuldade brutal não tem lugar aqui. Sim, perdi dezenas de vidas em The Messenger, mas em praticamente todas as vezes tive a consciência de que a culpa era totalmente minha, e não do jogo. O desafio é muito bem balanceado, e somado a uma jogabilidade precisa, a vontade de apertar logo o botão e tentar de novo é instantânea.

Mesmo com chefes que exigem treino para aprender seus padrões, e trechos de plataforma que parecem impossíveis à primeira vista, morrer aqui não é uma punição terrível como perder vidas era nos videogames de antigamente. Até porque, o castigo é leve e até divertido: toda vez que nosso herói cai, um pequeno demônio fanfarrão o leva até o último checkpoint. Depois, ele toma nota em seu caderninho e segue o recém acordado mensageiro até que ele pague sua dívida em cristais. É genial!


A única característica não tão agradável em toda a experiência foi a navegação um tanto confusa dos mapas. The Messenger é longo e tem muito conteúdo, mas infelizmente conta com poucos pontos de viagem rápida. Em alguns momentos, faltou-me convicção de onde devia ir, e as idas e vindas pelos estágios até descobrir meu destino — sem poder contar com uma navegação mais clara e ágil — gerou uma certa frustração. Mas, sinceramente? O game é tão gostoso de jogar, que este pequeno problema se torna praticamente irrelevante.

Olhando para o passado, correndo para o futuro

The Messenger é um tributo àquela magia de outrora, mas também é muito mais do que isso. Mesmo que a fonte de inspiração seja evidente, o título consegue agregar tantas ideias frescas que acaba por se tornar uma obra superior em quase todos os aspectos. É contagiante ver a coragem e confiança do estúdio Sabotage em seu primeiro lançamento, arriscando-se a ponto de afrontar diversos paradigmas e convenções do gênero.

Meu tempo com o mensageiro foi, sem dúvidas, uma das melhores experiências em jogos 2D que tive na vida. Uma mistura deliciosa de nostalgia, adrenalina, desafio e momentos surpreendentes. E depois do final grandioso e emocionante, não vejo a hora de voltar para esse universo em uma futura expansão ou continuação. Se você também é fã de jogos de ação e plataforma, The Messenger é simplesmente obrigatório!

Prós

  • Jogabilidade precisa, rápida e fluida, que incentiva o jogador a arriscar;
  • Conceito de viagem no tempo é um espetáculo visual e sonoro, além de proporcionar quebra-cabeças interessantes;
  • Level design simplesmente brilhante, culminando em chefes exigentes e criativos;
  • Humor na medida certa;
  • História e mitologia muito mais rica do que aparenta a princípio, com um final grandioso;
  • O jogo exala personalidade e confiança para desafiar paradigmas do estilo e surpreender o jogador a todo instante.

Contras

  • Navegação dos mapas pode ser um pouco confusa e conta com poucos pontos de viagem rápida.
The Messenger — Switch/PC — Nota: 9.5
Versão utilizada para análise: Switch
 Revisão: Ana Krishna Peixoto
Análise produzida com cópia digital cedida pela Devolver Digital
Carlos Eduardo Cirne escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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