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Análise: Super Mario Party (Switch) é a festa que esperávamos há tempos

Depois de alguns deslizes, o mais novo capítulo da série consegue resgatar elementos clássicos e oferecer uma das mais divertidas experiências multiplayer do Switch.



Os recentes capítulos de Mario Party trouxeram novidades que desagradaram boa parte dos fãs. O ápice do descontentamento veio com a mecânica dos “carrinhos” que marcou o décimo título da série principal, lançado para Wii U em 2015. Ter os competidores andando juntos pelo tabuleiro descaracterizou o gameplay. Mesmo o modo Bowser ou a coletânea de 75 minigames não foram capazes de salvar o jogo de pesados comentários negativos, vindos tanto da crítica especializada quanto do público.


Tentando oxigenar um dos spin-offs mais queridos do público, a Big N olhou para o passado e fez uma espécie de reboot com o lançamento de um novo game para o Switch, sendo que seu próprio nome aponta para esse reinício. Saí o número 11 que indicaria a sequência e entra a palavra Super em seu lugar. Outra maneira de se reconectar com as origens da franquia surge logo ao iniciamos a jogatina, em uma cena que mostra os ilustres personagens do Reino do Cogumelo discutindo quem é o Super Star — recriação da introdução do clássico do Nintendo 64.

Foi esperando me reencontrar com as raízes da série que comecei minha experiência com Super Mario Party. Porém, tive uma grata surpresa ao perceber que o game vai muito além de tentar resgatar os elementos que deram certo em algum momento da história. O modo tradicional que mistura tabuleiros e minigames continua sendo o principal atrativo, mas agora somos presenteados com diversas outras atividades que nos fazem querer permanecer nessa festa por intermináveis horas.
A abertura do primeiro Mario Party e sua nova versão recriada no game do Switch

Rolem os dados

Claro que meu primeiro contato com o game teve que ser com o modo tradicional e logo de cara o Switch já demonstrou sua primeira vantagem. Em todos os momentos usamos um único Joy-Con, por isso, qualquer pessoa que tenha o console híbrido conseguirá chamar um amigo para a jogatina sem a necessidade de investir em um novo controle. A grande decisão que precisa ser tomada ainda no início é a escolha do nosso personagem, pois a lista é bastante grande e traz até algumas figuras um tanto quanto aleatórias, como o Hammer Bro. ou o Goomba.

O alto número de personagens contrasta diretamente com a quantidade de tabuleiros disponíveis. Temos três de início com um quarto sendo liberado posteriormente. Apesar de cada um dos estágios ter mecânicas e desafios únicos, ainda assim fica a sensação de que faltou maior variedade. Como se trata de um reboot, poderia ter sido boa ideia reimaginar cenários antigos — da mesma maneira que Mario Kart 8 fez com diversas pistas já conhecidas.

De início, também fiquei incomodado com o reduzido tamanho de todos os tabuleiros, se comparado com os de outros jogos da série. O Whomp's Domino Ruins, por exemplo, tem 57 casas, enquanto o DK's Jungle Adventure, do primeiro Mario Party, possui 86. No entanto, a impressão negativa foi passando conforme a jogatina transcorria, já que os cenários enxutos permitem viradas com maior facilidade, garantindo assim partidas emocionantes até o final. Mais de uma vez vi o quarto colocado assumir a liderança nos três últimos turnos.
O Whomp's Domino Ruins pode ser considerado o tabuleiro inicial do game

Muitas das reviravoltas têm como explicação o uso dos itens, que podem ser encontrados com certa facilidade em todos os estágios. Estão à disposição desde aqueles que ajudam na movimentação, como o cogumelo dourado que adiciona +5 ao resultado dos dados, até os que atrapalham os rivais, como o Coinado que rouba moedas dos oponentes. Isso sem contar aqueles extremamente desbalanceados, mas que deixam as partidas bem mais imprevisíveis, com destaque para o cano dourado que leva diretamente ao ponto onde a estrela está.

Além dos itens, cada personagem tem à disposição um dado único e especial. Geralmente, eles trazem números repetidos ou bônus de moedas e são indicados para situações em que determinada quantidade de casas precisa ser percorrida para evitar os obstáculos dos mapas. Para ajudar nos deslocamentos, a mecânica de aliados está de volta e podemos encontrar um amigo caindo sobre um espaço específico do tabuleiro ou usando o item Ally Phone. Com um parceiro ao lado, os resultados dos nossos dados são somados ao dele e podemos atravessar o mapa mais rápido. Outro benefício é que eles nos dão vantagens em alguns dos minigames.
O dado da Rosalina permite ganhar duas moedas ou andar 2, 3, 4 ou 8 casas

Cadê o x1?

Super Mario Party traz de volta diferentes mecânicas que fizeram sucesso no passado, com a principal sendo o retorno ao gameplay de cada competidor andando sozinho e como bem entender no tabuleiro. Nesse resgate, algumas situações acabaram ficando de fora e a mais sentida, sem dúvida, foram os icônicos duelos de um contra um que estrearam em Mario Party 2. O Joy-Con conta com recursos excelentes para recriar os duelos de faroeste ou lutas de espadas que existiam no segundo capítulo da série.
Igual aos velhos tempos

Outra funcionalidade do passado que foi “resgatada” é a presença de conteúdos ocultos que devem ser desbloqueados. Na atual era dos DLCs, é cada vez mais incomum um game que presenteia seu desempenho com conteúdos adicionais. Em Super Mario Party, são quatro personagens, um tabuleiro e um modo de jogo que vão sendo liberados conforme certos objetivos são alcançados.

Gastando o Joy-Con

Os pequeninos Joy-Con trazem uma enorme gama de possibilidades que, até o momento, tinham sido melhor exploradas por 1-2-Switch. Super Mario Party chega para retirar esse título do jogo que foi lançado juntamente com o console híbrido, apresentando minigames que exploram de maneira criativa os diferenciais dos controles. Temos desafios que aproveitam o sensor de movimentos, tarefas que fazem o Joy-Con ser usado na vertical e outras que exploram unicamente o HD Rumble.

O minigame “Rattle and Hmmm” foi um dos que mais me impressionou ao demonstrar a capacidade do controle. Nele, são apresentados três inimigos da franquia Super Mario e a movimentação de cada um gera diferentes tipos de vibrações no Joy-Con. Na sequência, Toad repete uma das tremidinhas e temos que responder quem é a criatura responsável por aquele padrão. E, por incrível que pareça, é tranquilo de distinguir as vibrações devido ao elevado nível de precisão do HD Rumble. No movimento da Wiggle, por exemplo, é possível sentir com exatidão as patinhas da centopeia passando de um lado ao outro do Joy-Con.
Em “Rattle and Hmmm” cada inimigo provoca uma vibração no Joy-Con
A lista de minigames traz divertidos desafios que se destacam pela originalidade e por conseguirem testar as habilidades, reflexos e concentração dos jogadores. Em um total de 80, são poucos os que têm a sorte como fator preponderante para a vitória. Como já existe  o imponderável resultado dos dados na jogatina, foi uma boa escolha reduzir a quantidade de minigames que dependem unicamente do acaso.  Afinal, é bem frustrante andar apenas uma casa, e logo na sequência, perder as moedas devido ao azar.

Mario Just Dance

O que seria de uma festa sem música boa? Depois do modo principal, o Sound Stage, que traz uma série de desafios rítmicos, foi o que mais se destacou e causou risadas durante minha experiência com Super Mario Party. Ele traz três minigames aleatórios em que os jogadores são desafiados a cumprir tarefas que misturam controles de movimento com sons, ao melhor estilo Just Dance. Até mesmo espetar frutas com longas espadas ou jogar baseball se transformam em atividades melódicas, com os movimentos da arma e do taco sendo marcados pela batida das músicas.

Para se transformar na grande estrela do Sound Stage é preciso ter ouvidos afiados e boa coordenação de movimentos, pois perceber o momento exato de balançar o Joy-Con rende maior quantidade de pontos. Por ser um modo que faz os competidores sacudirem bastante o corpo, o game demonstra muita preocupação com a segurança dos jogadores. Há sempre avisos para que todos amarrem o Joy-Con nos pulsos e também surgem alertas se alguém realizar movimentos bruscos que podem machucar quem está ao lado.
Siga os passos de dança de Waluigi em "Time to Shine"

O lado negativo desses informes é que o minigame não é interrompido. Geralmente, os alertas apareceram no baseball, bloqueando totalmente a visão das bolinhas e atrapalhando demais a jogatina. Apesar de ser um aviso importante, poderia ser dado de maneira mais discreta e não ocupando praticamente toda a tela.

Navegando pelo rio abaixo

Mario Party é conhecido como destruidor de amizades. Quem nunca ficou nervoso quando algum competidor roubou suas moedas ou estrelas? Para resolver as desavenças, o game do Switch traz o modo cooperativo River Survival, em que todos os participantes são colocados em um bote e devem chegar ao final do rio antes que o tempo se esgote. Além de combinar a velocidade e padrão das remadas, os jogadores devem ainda participar de minigames em que o resultado final define a quantidade de segundos extras que será adicionada ao relógio.

Navegar rio abaixo traz um conceito diferente para Mario Party, mas que depende bastante do multiplayer para ser divertido. É verdade que, no geral, a franquia é voltada para as jogatinas em conjunto, porém também conseguimos nos entreter em partidas tradicionais contra a CPU. No entanto, no River Survival a inteligência artificial retira boa parte do que seria interessante sendo extremamente precisa em todos os momentos. No single player, até podemos deixar o Joy-Con de lado em certos minigames que o computador fará todo o trabalho.
River Survival é bem mais divertido quando aproveitado no multiplayer

Por outro lado, se for possível convidar outros três amigos para se reunirem a você no River Survival, o modo se transforma em uma experiência totalmente nova e desafiadora. Se um dos integrantes do time destoar dos demais membros, é preciso que a equipe se una ainda mais para superar as dificuldades, criando um espírito de cooperação entre todos. Dos modos de Super Mario Party, sem dúvidas, esse é o que mais necessita de outras pessoas para ser aproveitado da melhor maneira possível.

Switch + Switch

No trailer de Super Mario Party na E3 2018, possibilidade que ganhou destaque foi a de unir dois consoles para alterar mapas ou resolver quebra-cabeças. Na verdade, existe um modo de jogo voltado exclusivamente para essa mecânica, o Toad’s Rec Room. Porém, para ser aproveitado na plenitude, é necessário que cada Switch tenha seu próprio jogo. Infelizmente, não há o download play — como acontece no 3DS, em que certos títulos permitem o multyplayer compartilhado em dois portáteis com uma única cópia do game instalada.

Como prêmio de consolação, praticamente todos os minigames desse modo podem ser usados sem outro Switch. O único que pede obrigatoriamente o par de consoles é o "Banana, Split", em que os videogames precisam ser posicionados de maneira que formem a imagem da fruta na tela. No entanto, com um único Switch em mãos, o Toad’s Rec Room acaba se transformando em algo completamente sem brilho e dispensável.
Obrigatoriedade de duas cópias do game estraga o Toad’s Rec Room 

Acha que acabou?

O game apresenta ainda o Partner Party, em que os competidores são divididos em duas duplas para competir nos quatro tabuleiros do modo principal. Além da cooperação, a grande diferença é que os resultados dos dados dos parceiros são somados e a movimentação acontece de maneira semelhante aos RPGs táticos, com cada quadrado do cenário contando como uma casa. Com o objetivo de coletar estrelas, cada membro da equipe pode ir para o lado que bem entender sem depender da vontade do parceiro.

A principal conquista do Partner Party é conseguir proporcionar uma experiência completamente diferente do modo principal utilizando os mesmos tabuleiros. A movimentação livre em substituição ao caminho linear de casinhas torna a jogatina única e frequentemente coloca os competidores em situações de escolhas. Em algumas situações, pode valer mais a pena recrutar um aliado para o time, que melhorará bastante o resultado dos dados, ao invés de partir em direção à estrela. Com esse plano de fundo, o jogo de equipe e a elaboração de estratégias acabam sendo fundamentais.
No Partner Party você não pode fazer um caminho diferente do seu companheiro


Outro modo que traz novidades é a coletânea de minigames. Além de podermos escolher nossos favoritos para jogá-los quantas vezes quisermos, existe uma pequena competição em que 12 deles são sorteados aleatoriamente para os competidores. Um painel multicolorido funciona como placar para indicar os vencedores de cada disputa e vence quem tiver a maior quantidade de quadrados com sua cor no final.

Após conhecermos todos os minigames presentes no jogo, ganhamos acesso ao Challenge Road. Nesse modo single player o objetivo é vencer cada um dos 80 minigames disponíveis em Super Mario Party.
No Challenge Road é preciso cumprir certos desafios nos minigames

Mario Party Online

Você já se perguntou os motivos que explicam a ausência de serviços online em Mario Party? Sempre pensei que funcionalidades via rede poderiam aumentar ainda mais as vendas e um jogo que tem o multiplayer como seu ponto forte. Porém, o game do Switch veio responder essa dúvida. Pela primeira vez, temos sim a competição por meio da internet, mas ela se restringe somente a uma série de cinco minigames. Ou seja, esqueça convidar os amigos que moram longe para uma disputa nos tabuleiros.

Achei que seria outro desperdício da Nintendo essa funcionalidade bem incompleta, porém, bastam algumas partidas no Online Mariothon para perceber que a escolha foi acertada. Mesmo nessa pequena série de cinco minigames que demoram menos de 10 minutos para acabar é normal algum dos participantes sair da sala e ter seu personagem controlado pela CPU a partir do abandono, retirando todo o sentido de um multiplayer online. Agora, imagine um modo completo que pode chegar a uma hora de duração? Seriam raras as partidas que chegariam ao seu final.

Para tapar o buraco, o Online Mariothon funciona bem e consegue proporcionar o “gostinho” de um Mario Party mesmo quando estamos sozinhos diante do Switch. Uma complementação interessante seria a possibilidade de jogar o River Survival via internet, por se tratar de um modo relativamente rápido e que se torna muito mais interessante no multiplayer.
Temos que torcer para os rivais não abandonarem a partida

Festejando em qualquer lugar

Tanto com o console acoplado no Dock quanto em seu modo portátil, o jogo funciona bem e não apresenta travamentos ou quedas na quantidade de quadros por segundo. Até mesmo quando há quatro pessoas no multiplayer, o desempenho consegue se manter constante mesmo com o console híbrido longe da TV.

Como nos anos 1990

Os fãs que aguardavam um Mario Party digno da fama conquistada pelos primeiros capítulos da franquia encontrarão no novo game muitos motivos para comemorar. O jogo entrega a experiência clássica da série e mesmo pequenos problemas, como a quantidade e tamanho reduzido dos tabuleiros, não atrapalham a experiência devido à massiva oferta de conteúdo. Mesmo todas se baseando em minigames, as diferentes opções de jogo proporcionam enorme variedade e alongam bastante a vida útil do título. É perfeitamente possível curtir uma sessão no Sound Stage logo após passar uma hora no modo principal, isso sem cair na mesmice.

Com excelente aproveitamento das funcionalidades do Joy-Con, o título justifica com facilidade o ‘Super’ de seu nome, sendo capaz de transmitir a magia que marcou a série ao longo dos anos. Eu sou capaz de apontar poucos jogos que sempre conseguem fazer até mesmo quem não gosta de videogames sorrir e se divertir com o controle nas mãos e, agora, Super Mario Party é o mais novo integrante dessa lista.
Que baita comemoração

Prós

  • Massiva quantidade de conteúdo que vai além do modo principal;
  • Opções online limitadas, porém funcionais;
  • Retorno às origens da série resgatando boa parte dos elementos de sucesso;
  • Modo portátil funciona bem mesmo com quatro jogadores;
  • Existência de conteúdo desbloqueável.

Contras

  • Apenas quatro tabuleiros;
  • Algumas mecânicas icônicas ficaram de fora, como os duelos de MP2;
  • Toad’s Rec Room exige que ambos os consoles tenham uma cópia do jogo;
  • CPU bastante desbalanceada no modo River Survival.
Super Mario Party — Switch — Nota: 8.5
Revisão: João Paulo Benevides
Super Mario Party está disponível na Loja Nintendo
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nintendo
Vinicius Veloso é jornalista e obcecado por games (não necessariamente nessa ordem). Seu vício começou com uma primeira dose de Super Mario World e, desde então, não consegue mais ficar muito tempo sem se aventurar em um bom jogo. Está no Facebook ou Twitter.

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