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Análise: This is the Police 2 (Switch) é uma reflexão necessária sobre o lado mais tóxico da força policial

Uma infinidade de sistemas coesos vão te pôr no cerne da vida policial, com direito a uma história intensa e empolgante.


This is the Police 2 (Switch) é um jogo intenso, exatamente como a polícia deve ser. Se você, como eu, esperava que a temática policial fosse apenas um chamariz para enfeitar um gênero pouco popular, prepare-se para se surpreender. Combinando um roteiro impactante com uma coragem invejável para abordar problemas delicados da corporação, este jogo é uma das melhores experiências policiais que tive o prazer de jogar. Esqueça o fracasso de Murdered: Soul Suspect (Multi) ou até mesmo o inovador Her Story (PC/iOS): This is the Police 2 é o jogo policial definitivo.

Por que eu estou aqui?

O xerife da decadente Freeburg morreu em combate e há uma nova xerife na cidade: Lilly. Uma mulher numa posição de poder não tinha respeito algum em sua época, especialmente em uma área tipicamente masculina como a policial. Sua personalidade frágil, inexperiência, baixa autoestima e problemas para se impor também não ajudam. Ninguém na delegacia a respeita e há um machismo sistemático que acaba minando todos os seus esforços de gerenciar a delegacia. Ela precisa aprender a se virar para exercer o seu cargo em um ambiente tão hostil, e é bem aí que entra Jack Boyd.

Jack, o protagonista do primeiro jogo, é um ex-chefe de polícia que se tornou um foragido devido a uma série de decisões erradas. Desacreditado e encurralado, ele surge neste jogo como uma sombra do policial imponente que uma vez ele já fora, mas para ajudar Lilly a se estabelecer como uma xerife de respeito ele vai precisar pôr em prática todos os seus anos de experiência. Lilly faz um acordo para manter Jack livre se ele trabalhar como seu braço direito, e é a partir daí que a história do jogo começa.


This is the Police 2 cresce exatamente da dinâmica instável entre esses dois personagens. Os diálogos do jogo são muito bem escritos e ajudam a trazer verdade para cada personagem. O visual simplista com uma quantidade baixa de polígonos conversa muito bem com o tom do game e ajuda a promover o ar cético da história. Os personagens são pouco expressivos como uma reflexão do mundo sem esperanças em que eles vivem.

Sal na ferida

Seja na história principal, seja nos pequenos casos aleatórios que você deverá resolver como policial, este jogo não tem medo de expor o lado mais tóxico da força policial, tocando nas feridas mais recentes e das críticas mais comuns a corporação, como abuso de poder, corrupção e brutalidade policial. Combater o crime leva os policiais muito perto da linha moral entre o certo, o justo e o cruel. É bastante interessante como o próprio jogador é convidado a navegar nessas linhas ao longo do jogo.

Esses momentos surgem da própria natureza do jogo. O objetivo aqui é gerenciar uma força policial que lhe foi imcubida pela própria xerife. Para isso, você precisa ficar atento aos chamados do dia, às necessidades da sua equipe, ao uso de recursos, investigações e afins. Não é incomum encontrar policiais folgados que tentam tirar proveito de um chefe permissivo ou um cidadão riquinho que tenta subornar a polícia para ganhar tratamento prioritário. A balança entre o certo e o errado está nas suas mãos nesses casos e o questionamento moral é constante.
Essas mecânicas são apenas uma parte de tudo que o jogo traz, e conciliar tantas informações diferentes enquanto ainda tenta processar uma história bastante intensa e, por vezes, cansativa pode se provar uma tarefa árdua em um primeiro momento. Jogadores mais acostumados a jogos de estratégia vão se deliciar com sistemas diversos e profundos, mas os demais jogadores podem se sentir sobrecarregados.


Isso acaba sendo resultado de como a Weappy Studio, desenvolvedora do game, decidiu trabalhar a sua sequência. Todas as mecânicas do jogo anterior voltam aqui e ainda temos mecânicas novas para incrementar a complexidade do game. A principal novidade é o elemento tático, que funciona de maneira similar aos jogos de Fire Emblem e XCOM.

Variedade em exaustão

Em alguns momentos do jogo, você terá a oportunidade de controlar diretamente seus policiais em missões de campo. Os personagens são comandados por uma grid e o combate funciona em turnos. O mais legal é que as habilidades do seu policial vão depender diretamente do seu desempenho e das suas escolhas na hora de responder chamadas de crimes na parte mais gerencial do game.

A intertextualidade entre as mecânicas torna a experiência ainda mais convincente e memorável. Responder um chamado de roubo pode te ajudar numa investigação e esta pode te ajudar depois no campo de algum outro jeito. Os sistemas estão ligados de forma bastante intrínseca e isso apenas fortalece a fantasia vendida pelo jogo de se sentir um verdadeiro policial.

O único problema na jogabilidade é o uso bastante disperso desses elementos diferentes na jogabilidade. O jogo acaba focando muito mais em responder diversos chamados e, apesar de genuinamente interessante ao trazer pequenos problemas morais e escolha de policiais com base nos seus talentos, poderia dar espaço para um uso mais amplo do novo sistema de combate tático, por exemplo.

This is the Police 2 é uma ótima experiência para os fãs de histórias policiais. O jogo apresenta uma história bastante intensa que convida a explorar as nuances morais da profissão e complementa com mecânicas que reforçam o peso de suas escolhas. A obra é uma reflexão mais do que bem-vinda no jogo de insegurança e poder que rege alguns sistemas de privilégios na sociedade contemporânea e bastante necessária nos dias de hoje.

Prós

  • Roteiro bem escrito com diálogos intensos;
  • Dublagem imprime uma grande carga emocional aos personagens;
  • Reflexões interessantes sobre relações de poder;
  • Sistemas coesos ajudam a vender a fantasia de ser um policial;
  • Simpáticos gráficos minimalistas;

Contra

  • Excesso de mecânicas deixa o jogo complexo para jogadores mais casuais;
  • Uso exacerbado de certas mecânicas em detrimento de outras gera fadiga.

This is the Police 2 — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Diego Franco Gonçales
Análise produzida com cópia digital cedida pela THQ Nordic
Gabriel Mattos faz joguinhos na UFRJ, quando deveria estar estudando Computação. Estuda computação, quando deveria estar escrevendo. Escreve, quando deveria estar dormindo e não dorme, porque fica sempre no Twitter. Também pode ser encontrado noInstagram.

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