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Análise: Heroes Trials (Switch) é uma brevíssima experiência que tropeça na simplicidade excessiva

Aventura que pode ser finalizada em menos de uma hora e meia tem seu ritmo e fator exploração prejudicados pela constante corrida contra o relógio.




Sem longos tutoriais, dispensando diálogos intermináveis e com poucas frases para apresentar as motivações dos protagonistas. Esse é o começo de Heroes Trials, projeto do estúdio Shinyuden e distribuído pela Ratalaika Games. Os primeiros minutos do jogo são parecidos aos momentos iniciais de clássicos do passado, em que detalhes do enredo e demais informações vinham em manuais que acompanhavam os cartuchos e o que mais importava ao colocar a fita no videogame era o gameplay.


As inspirações em sucessos de outras épocas não param por aí, bastam apenas alguns passos para perceber que diferentes elementos de The Legend of Zelda: A Link to the Past e outros RPG de ação estão presentes. A fórmula básica para progredir na aventura é aquela já conhecida: explore uma dungeon, encontre certo item que vai te ajudar a entrar no próximo labirinto e continue assim até concluir sua missão.

Entretanto, seguir a mesma receita está longe de ser o principal problema do game, afinal, ele trás boas ideias e conceitos interessantes. O gosto amargo vem da falta de polimento, parece que o jogo foi feito com pressa e sem o capricho necessário para finalizá-lo da melhor maneira. Fiquei com a sensação que estava experimentando uma demo de um título maior que virá no futuro — algo que se realmente fosse verdade, me interessaria sim em continuar a experiência.
Abrindo os portões para uma nova aventura

Novos heróis

A narrativa de Heroes Trials começa com a morte dos antigos defensores de Délhua. Para decidir quem passará a ocupar o posto, o soberano da região cria diversas tarefas e a dupla que concluí-las com o melhor desempenho receberá o título de heróis. Nossos protagonistas são os irmãos Zoel e Elia, que acordam atrasados no dia do grande teste e largam atrás dos demais concorrentes.

Essa desvantagem é a justificativa para uma das piores mecânicas do jogo. A todo o momento, além das criaturas e quebra-cabeças, será preciso enfrentar o relógio. O jogador tem constantemente um limite de tempo para ir completando pequenas tarefas. Por exemplo, a missão inicial é chegar até o cemitério em cinco minutos. Lá, estará a primeira dungeon, que precisa ser concluída em menos de seis minutos. E assim continua por todo o game. 
O relógio permanece sempre no canto superior direito da tela

A pressão exercida pelo relógio praticamente elimina todo o fator exploração. Ao encontrar uma área nova, não temos tempo para conhecê-la porque o tempo continua diminuindo. Nem mesmo durante os diálogos com os NPCs há uma pausa na passagem dos minutos, por isso, é mais do que bem-vindo evitar conversas que teriam potencial de enriquecer o desenrolar da história. Caso o relógio seja zerado, é game over e o jogador tem que voltar para o último ponto de salvamento por onde passou.

No geral, os tempos disponíveis para concluir as missões são mais do que suficientes. Na primeira, há cinco minutos para chegar ao cemitério e o caminho pode ser feito em menos de um. Isso porque Heroes Trials é bastante linear e simples, dificilmente o jogador irá se perder, mesmo quando estiver dentro de alguma dungeon. Além disso, do lado de fora dos labirintos, um mapa na tela sempre indica o trajeto a ser seguido.

Dois é melhor do que um

A qualquer momento, é possível alternar entre Zoel e Elia. Os irmãos têm características únicas que afetam diretamente o gameplay. Enquanto Zoel usa sua espada para poderosos golpes corpo a corpo, Elia ataca a distância usando magia, mas tirando menos vida dos inimigos. Na maior parte da jornada, é possível avançar com qualquer um e o jogador acaba escolhendo aquele que melhor se adéqua ao seu estilo. Porém, certos obstáculos só podem ser superados com as habilidades de determinado protagonista.
Elia é capaz de atacar com diferentes tipos de magias

O game consegue aproveitar essa variedade de maneira bastante criativa e interessante. Em uma das missões, o RPG de ação se “transforma” em um shoot 'm up quando é preciso usar as magias de Elia para avançar em um labirinto ao melhor estilo “jogo de navinha”. Outro exemplo é um dos chefões que exige que Zoel utilize seu kit completo de habilidades (espada, escudo e bomba).

Polimento que faz falta

Heroes Trials se propõe a ser uma experiência despretensiosa e rápida, mas acaba derrapando justamente na simplicidade exagerada. São diversos os aspectos que demonstram a falta de polimento no desenvolvimento, começando pela física dos personagens que é um tanto quanto estranha e parece que eles andam flutuando ou patinando no gelo. Não que os protagonistas escorreguem enquanto caminham, mas é como se os seus pés não estivessem tocando o solo.

O controle dos personagens traz particularidades que são questionáveis. Quando Zoel usa o escudo, ele fica imóvel — é impossível se proteger e andar simultaneamente. O guerreiro também não é capaz de focar nos inimigos ou fixar a mira em determinado ponto — algo que sua irmã faz para facilitar no disparo das magias —, assim, atirar uma bomba no local correto se transforma em uma situação bem desafiante, ainda mais em batalhas contra chefes.
Tudo muito simples

Apesar de apresentarem boa variedade, com cavernas, florestas, vulcão e neve, os cenários carecem de detalhes. As texturas são bastante básicas e dentro de cada mapa tudo parece meio repetido. Além disso, o mundo inteiro é muito parado, falta movimento que deixariam as paisagens vivas e agradáveis. Ao contrário do restante do game, a última dungeon é a que tem o visual mais interessante e bem trabalhado, depois de explorá-la fica a sensação que o restante do jogo poderia ter recebido o mesmo tratamento.

A caixa de colisão também apresentou problemas, principalmente, em uma das batalhas finais. O inimigo tem um ataque que joga fumaça em direção ao seu personagem, porém, antes dele disparar ou quando eu estava fora do ângulo da magia, tomava dano do mesmo jeito. A falta de otimização ainda fica evidente no excesso de loading, as telas de carregamento aparecem em uma frequência acima do aceitável, às vezes, depois de passarmos por duas ou três salas dentro das dungeons.

O aspecto técnico de maior destaque em Heroes Trials é a sua parte sonora. As músicas me fizeram lembrar dos clássicos dos 16-bits, claro que com uma qualidade sonora bem superior. Cada uma das faixas se encaixa perfeitamente com a situação mostrada na tela e atravessar os labirintos lineares se transforma em uma tarefa mais divertida acompanhada da boa trilha.
Esqueletos são uns dos poucos detalhes do primeiro cenário

A jornada do herói

Todo o game apresenta uma dificuldade constante e acessível, nem muito complicada, mas também nada tranquilo. Grande parte dos inimigos ataca de perto, logo, não é preciso entender padrões ou bolar estratégias. Na maior parte do tempo, usar as magias de Elia a distância serve para limpar salas infestadas de monstros.

Já os chefes são bem poucos e não estão presentes em todas as dungeons. Na verdade, a minoria dos calabouços tem uma criatura gigantesca para ser derrotada em seu final. Os que existem são criativo e rendem boas batalhas, principalmente, na última torre. O grande destaque fica por conta dos subchefes que precedem o confronto derradeiro, sem dúvida, são os momentos mais memoráveis de todo o game.

Depois de terminar a aventura, não existem muitos motivos para uma segunda experiência. O game não traz colecionáveis ou missões extras, sendo que o único incentivo para o replay é completar todas as missões com a quantidade máxima de estrelas — conforme o seu desempenho e tempo gasto, o jogador recebe um ranking ao concluir cada uma das tarefas.
Um dos poucos chefões do game

Decisões equivocadas

Apesar de todos os problemas técnicos, Heroes Trials consegue sim divertir. O principal problema é que a experiência é demasiadamente curta. Potencializado pelo fato de um relógio apressar a jogatina, o game pode facilmente ser finalizado em menos de uma hora e meia — inclusive, esse é um dos troféus/conquistas disponíveis nas plataformas que contam com o sistema. Trocar a exploração por uma constante corrida contra o tempo em um jogo que se assemelha à The Legend of Zelda foi decisão um tanto quanto equivocada.

Prós

  • Dois protagonistas com habilidades únicas variam bem o gameplay;
  • Dificuldade constante e na medida certa;
  • Trilha sonora marca muito bem o desenrolar da aventura.

Contras

  • Correr constantemente contra o tempo elimina o fator exploração;
  • Excesso de telas de carregamento;
  • Cenários demasiadamente simples;
  • Dungeons e mapas muito lineares;
  • Poucos chefões;
  • Curto demais e sem fator replay.
Heroes Trials — Switch/PC/PS4/PS Vita/XBO — Nota: 5.0
Versão utilizada para análise: Switch
Análise produzida com cópia digital cedida pela Ratalaika Games

É jornalista e obcecado por games (não necessariamente nessa ordem). Seu vício começou com uma primeira dose de Super Mario World e, desde então, não consegue mais ficar muito tempo sem se aventurar em um bom jogo. Diretor de Redação do Nintendo Blast.

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