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Análise: Yume Nikki: Dream Diary (Switch) — uma aventura por mundos bizarros e sombrios

Jogo de aventura reimagina o clássico do RPG Maker em 3D, mas algumas escolhas de design enfraquecem a experiência.

Quando eu era criança, conheci o RPG Maker e lembro de ter ficado maravilhado com o potencial da ferramenta. Não apenas para fazer RPGs, mas sim para vários tipos de jogos diferentes e inusitados. Ao longo dos anos, muitos títulos interessantes foram desenvolvidos graças a ele. Um deles é Yume Nikki, a obra que deu origem a esse jogo.

Muitos anos se passaram, Yume Nikki se tornou um clássico cult e uma parceria entre a Kadokawa Games e a Active Gaming Media deu origem a Yume Nikki: Dream Diary, que foi lançado no PC em 2018 e chegou ao Switch agora no dia 21 de fevereiro. O novo jogo é uma espécie de reimaginação do universo original, que nem funciona exatamente como um remake nem como uma obra totalmente nova. Mesmo assim, é um curioso experimento que teve a supervisão de seu criador original, Kikiyama, e vale a pena conferir.

Sonhos bizarros

Assim como no original, o jogador assume o papel da jovem Madotsuki (cujo nome nunca é revelado no novo título) e precisa explorar os sonhos bizarros dela. Neles estão espalhados uma variedade de itens e poderes que são necessários para se aprofundar nos mundos oníricos. Somente “completando” cada mundo é possível abrir a última porta que está trancada e leva ao final do jogo.

Todo progresso feito nessa jornada é salvo automaticamente, mas ao fechar o jogo, a personagem é transportada para o seu quarto. O jogador então alterna entre os sonhos e um mundo real que se resume ao quarto da garota onde é possível interagir com o seu diário (que possui artes conceituais do jogo), jogar videogame (um minigame de atirar em frutas) ou voltar a dormir.

Esse ambiente restrito e a impossibilidade de sair do quarto expressada firmemente pela protagonista ao interagirmos com a porta já são bastante adequados para termos uma ideia da psiquê da personagem sem a necessidade de palavras. Não utilizar falas inclusive é uma característica do jogo, que apenas utiliza-se das imagens para contar sua história e deixa em aberto para o jogador interpretar seus eventos confusos e potencialmente assustadores.

Parece óbvio que a personagem sofreu algum trauma e está passando por um momento de isolamento social (provavelmente se tornando o que no Japão é conhecido como hikikomori). Também os elementos mais pesados e sombrios dos sonhos, que em alguns momentos apresentam assassinatos, sangue e uma variedade de monstros, parecem corroborar com essa perspectiva. Mas mesmo com essa chave de leitura em mente, tudo é muito fluido e aberto a interpretações.


Já a estrutura de exploração dos ambientes do jogo é apenas aparentemente aberta porque há áreas em que não é possível avançar sem a obtenção de determinados itens que estão em outros locais. Nem sempre é fácil saber se o que está faltando realmente é algo inacessível naquele momento ou algo que demanda apenas procurar com mais cautela no cenário. Curiosamente, esse é o único elemento que pode causar alguma confusão e levar o jogador a ficar perdido porque as fases em si são bastante lineares.

Se por um lado, a escolha de fazer com que as áreas sejam lineares torna a progressão em geral mais intuitiva, por outro é uma pena ver o jogo simplificar a exploração de seus ambientes 3D. Há uma sensação de estar limitado a um ambiente muito restrito dos sonhos, o que causa um pouco de desconforto. Mas isso também não quer dizer que os ambientes são entediantes ou que tenham baixa qualidade. Eles chamam bastante atenção com seus tons soturnos e melancólicos que são bem complementados pela trilha sonora e há um uso adequado de elementos de plataforma e puzzle para o gameplay.


Outro aspecto incômodo é a movimentação da protagonista que é muito lenta, especialmente, nos momentos em que ela é transferida de um mundo para outro e é necessário lidar com um estado de estupor. Aparentemente é uma escolha de design que retrata a falta de ânimo da personagem em lidar com as questões que a vida lhe coloca, mas ainda assim é um tanto inconveniente para o jogador mesmo com esse sentido narrativo.

Uma jornada que poderia ter sido mais polida


Em suma, Yume Nikki: Dream Diary é uma jornada interessante por mundos sombrios que são frutos de uma criatividade impressionante. Interpretá-los e mergulhar mais fundo na sua narrativa aberta é um enorme prazer. No entanto, há uma série de escolhas (como a movimentação lerda da protagonista e a linearidade dos ambientes) que influenciam negativamente a experiência. Pessoalmente, gostei bastante do jogo e o recomendaria, mas acho importante salientar essas ressalvas.

Prós

  • Ambientes ricos em detalhe;
  • Narrativa silenciosa cheia de nuances;
  • Áreas bem construídas com elementos de plataforma e puzzle;
  • Trilha sonora complementa bem o visual.

Contras

  • Protagonista tem uma movimentação lerda;
  • Há poucas possibilidades de exploração devido ao design linear das áreas;
  • Controles invertem as posições dos botões confirma e cancela em relação ao padrão usual da Nintendo e não há opção para alterá-los no menu;
  • No diário existe um texto em japonês sem nenhuma legenda;
  • A opção de textos em português é apenas na versão lusitana da língua.
Yume Nikki: Dream Diary – Switch/PC – Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Vinícius Rutes
Análise produzida com cópia digital cedida pela PLAYISM

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não esteja com um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.

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