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Análise: Trine 2: Complete Story (Switch) é um conto encantador sobre princesas e goblins

O “Artefato das Almas” convoca novamente os heróis para defender o reino de uma ameaça iminente, nesta simpática aventura que combina plataforma e puzzle.


Dando continuidade às publicações da série Trine no Nintendo Switch, a Fronzenbyte lançou no dia 18 de fevereiro o segundo capítulo das aventuras de Amadeus, o mago, Pontius, o cavaleiro e Zoya, a ladra: Trine 2: Complete Story. Lançado originalmente em 2011, o game surpreende por sua incrível direção de arte, que destaca seus gráficos até mesmo em comparação a jogos atuais, além dos puzzles inteligentes e desafiadores combinados a mecânicas de física realista. É nada mais que a evolução natural de uma franquia que já havia mostrado seu valor em Trine: Enchanted Edition — portanto, compará-los é inevitável.

Um novo capítulo

No primeiro título, nossos heróis buscaram se libertar do feitiço do Trine, que forçou suas almas a coexistirem em um único corpo — o que até então era visto como uma simples coincidência. Em sua trajetória eles acabaram salvando o reino de um exército de mortos vivos, e após receberem o devido reconhecimento, voltaram as suas vidas comuns. Quando surge uma nova ameaça ao reino, os três escolhidos são novamente reunidos pelo “Artefato das Almas”, que os recruta e leva para uma misteriosa floresta povoada por criaturas gigantes e perigosos goblins.


Se o primeiro capítulo, que lembrando, se passa em um ambiente característico de um conto de fadas, focava na queda do reino pela corrupção e no auto-salvamento dos heróis, que apenas buscavam a separação de suas almas — o que já era uma forma diferente de se contar uma estória de fantasia dessas —, a segunda parte os coloca em uma posição em que eles nem ao menos possuem uma real noção de onde estão se metendo até a segunda metade da aventura, sendo deixados completamente em segundo plano no contexto narrativo. Resumindo, a trama não é centrada nos personagens jogáveis.

Carregados por aí pelo Trine por puro altruísmo — exceto no caso de Zoya, que ao contrário dos outros começa em busca de tesouros e depois se interessa em resolver alguns mistérios —, a real motivação da jornada demora a ficar clara para o jogador. Além dos diálogos e cutscenes, poemas encontrados podem adiantar algumas informações, mas os textos inicialmente citam apenas o amor de duas irmãs, para mais a frente ajudar a esclarecer as coisas. Caso você seja um jogador que não se preocupa em coletar itens escondidos, só saberá no final do que realmente se trata a história.


Sem limites para o que é belo

O visual de Trine 2 consegue ser ainda mais impressionante que seu antecessor, considerando-se apenas as duas versões refeitas para o Switch. Por se passar em mais áreas externas, os desenvolvedores puderam exibir um trabalho incrível nas luzes e cenários de fundo. Isso fica ainda mais evidente graças à expansão Goblin Menace, que adiciona seis fases novas à campanha principal. Essa aventura extra leva os heróis para ambientes comuns em jogos de plataforma, mas variados em relação ao que já foi visto em Trine até o momento — florestas, castelos, etc.; Entre elas, podemos citar uma área desértica e uma ártica, mas vamos evitar spoilers, já que há surpresas interessantes.

A trilha sonora orquestrada continua maravilhosa, dando o tom épico que uma história “medieval” precisa ter. O narrador retorna para tecer comentários sobre os heróis e fazer a história seguir seu rumo, com as introduções de cada parte da jornada aparecendo em um livro. Toda a dublagem é impecável, e como não temos o nosso idioma disponível, habilitar legendas em inglês — ou espanhol, se preferir — é uma possibilidade para quem não estiver com os ouvidos apurados ao idioma, mas entender bem ele escrito. As cutscenes agora são animadas e o mais interessante é que em certas partes em que uma pessoa observa os heróis por um espelho em uma animação em primeiro plano, ainda é possível continuar movimentando-os no fundo. Uma interação simples que costuma passar despercebida, mas surpreendeu-me positivamente.


Uma evolução natural

Algumas das mecânicas foram simplificadas ou retiradas, e os heróis ganharam novas habilidades, mas a base permanece a mesma. Amadeus pode conjurar e mover objetos, para criar plataformas ou resolver os quebra-cabeças. Zoya utiliza seu arco para atacar inimigos e seu arpão (ou gancho, no inglês grabber) para se balançar em uma corda e alcançar lugares distantes. Pontius está armado de espada e escudo, e dessa vez, também o seu martelo desde o início. Ao coletar frascos e esferas de experiência, é possível expandir essas habilidades. Porém, agora os pontos são compartilhados entre os três heróis. Felizmente, caso tenha se arrependido de uma escolha, é possível reorganizá-los, retirando uma opção e ativando outra a qualquer momento.

Apesar de o mago ter recebido novas funções que o ajudem a se defender de inimigos, ele ainda é bastante inútil em batalhas. Já a ladra ficou melhor ainda com flechas explosivas e de gelo, além de habilidades de camuflagem. O cavaleiro agora pode arremessar seu martelo para causar dano a distância e usar seu escudo como planador, melhorando ainda mais sua movimentação. Zoya e Pontius tornaram-se ainda mais importantes na resolução de puzzles. Aliás, os problemas enfrentados estão mais elaborados, saindo um pouco da zona de conforto de “ precisar chegar em algum lugar” e trazendo propostas mais interessantes, como ligações elétricas para fazer estruturas funcionarem e a utilização de um espelho para desviar poderosos feixes de luz que costumam fritar os personagens ao encostar neles.


Outra característica removida em relação ao antecessor foi a de itens que traziam habilidades adicionais aos heróis. Há até um diálogo em que Amadeus pergunta o que aconteceu com o amuleto que permitia a Zoya nadar sem se preocupar com a falta de ar, e ela apenas desconversa dando a entender que o perdeu (ou será que vendeu?). Por conta das novas habilidades e uma curva de dificuldade mais eficaz, não dá pra sentir falta dessa mecânica, e agora os únicos coletáveis além dos necessários para evoluir são os poemas já citados e algumas artworks — desenhos de paisagens, criaturas e personagens.

Ainda assim, o game não perdeu um de seus focos, que é a exploração. Entradas secretas podem estar escondidas em qualquer lugar, portanto, conseguir muitos orbes para ter acesso a todas as habilidades requer muito esforço e atenção aos detalhes. O level design também melhorou bastante, com seções de plataforma mais interessantes e variadas, com muitos saltos que exigem precisão extra, locais difíceis de se alcançar, perigos como ácido, lava incandescente e quedas mortais até cogumelos trampolins. Vale lembrar também que a resolução dos quebra-cabeças é totalmente livre, sendo que a grande maioria deles podem ser solucionados de diversas maneiras diferentes.


Saem esqueletos, entram os goblins

Se havia um grande problema em relação aos inimigos do título anterior, eles foram parcialmente resolvidos. Certamente os verdinhos ardilosos proporcionam um perigo mais efetivo, principalmente quando atacam em bando por ambos os lados, mas não há uma enorme variação entre eles e suas formas de nos ameaçar — há basicamente um tipo de goblin para cada esqueleto do primeiro jogo, com alguns poucos adicionais. As aranhas também retornam, além de algumas outras poucas criaturas novas. Essa sensação é diminuída pela expansão, pois há novos inimigos e armadilhas, incluindo dragões.

As batalhas contra chefes também melhoraram bastante. Enquanto no antecessor bastava um exercício repetitivo de bater de qualquer jeito, morrer, voltar e continuar batendo até derrotá-los — a vida deles não volta quando morremos e isso permanece aqui —, agora já é possível ter uma batalha real. Pontius não é mais o único personagem realmente efetivo contra a maioria deles, graças às novas habilidades de Zoya. Ainda existem chefes em que um ou outro pode ser melhor utilizado, mas todos são possíveis de derrotar com qualquer um dos dois. E vejam só, até mesmo Amadeus consegue causar dano em alguns deles. Porém, nem tudo são flores: a experiência ainda é repetitiva, pois alguns subchefes são iguais ou possuem mecânicas muito parecidas. Felizmente as duas batalhas finais do jogo — campanha principal e expansão — são épicas e muito divertidas.


Nem tudo mudou

Controlar os personagens ainda não é a tarefa mais confortável do mundo. Enquanto eu senti que utilizar o arpão de Zoya está mais fácil, a leitura dos movimentos para criar objetos com Amadeus me parece um pouco piorada — ainda bem que ele agora só usa dois formatos, ao invés de três. Repito algo já citado na análise do game anterior, que a opção de remapear os botões à vontade ajudaria bastante, bem como a possibilidade de usar o touch screen do Switch no modo portátil. Aliás, essa escolha é contraditória, visto que a versão do Wii U possuía controles por toque na tela.

Trine é uma série muito melhor aproveitada cooperativamente, mas infelizmente eu não tive companhia para testá-lo, por isso não pude trazer impressões sobre esse formato de interação. Para àqueles que tiverem a oportunidade, ele pode ser jogado em até três pessoas dividindo a mesma tela, com vários consoles no mesmo local ou pela internet, fazendo o uso do Nintendo Switch Online com diversas opções para criação de salas ou se juntar a um jogo rápido. As possibilidades incluem: cada jogador controlando um herói ou podendo alternar livremente entre os guerreiros. Está rodando perfeitamente nos dois modos e com suporte as variadas opções de controles. Há também outros níveis de dificuldade, mas essa resenha foi escrita com base na experiência padrão proposta pelos desenvolvedores.


O verdadeiro encanto

Trine 2: Complete Story sem dúvidas me encantou muito mais que seu antecessor. Ele trouxe uma forma diferente de exploração da narrativa sobre a princesa que está em outro castelo, uma jornada realmente completa e complexa — no bom sentido, sem se tornar frustrante. Mesmo com cenários ainda mais belos e acertos necessários no sistema de gameplay, é ainda assim uma evolução um pouco tímida quando se olha apenas para a campanha principal — e que ainda conta com controles desconfortáveis. Entretanto, toda a variação e novas ideias presentes no conteúdo extra criam o “sabor de quero mais” tão importante, que impulsiona a minha curiosidade para ver logo o que vem pela frente no terceiro game, e como esse legado será utilizado no quarto jogo, atualmente em desenvolvimento.

Prós:

  • Gráficos belíssimos e trilha sonora envolvente;
  • Ótima variação de localidades, contando com cenários intrigantes;
  • Melhora nos sistemas de gameplay, como combate, puzzle e evolução dos personagens;
  • Boa curva de aprendizado e dificuldade;
  • Foco na jogatina cooperativa, seja local ou online, mas funciona perfeitamente solo;
  • Incentivo a exploração e resolução livre dos quebra-cabeças;
  • Batalhas épicas contra chefes finais.

Contras:

  • Controles desconfortáveis, sem possibilidade de remapeamento ou uso do touch screen;
  • Narrativa desconexa dos personagens principais, que saem pelo mundo sem uma boa motivação;
  • Sub-chefes repetitivos;
  • Sem muito incentivo ao fator replay.
Trine 2: Complete Story — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Switch
Análise produzida com cópia digital cedida pela Frozenbyte

é formado em Redes de Computadores, mas gosta mesmo é de pilotar uns Karts por aí, atirar plasma com seu mega buster, correr em loops a toda velocidade e derrotar crocodilos ladrões de bananas. Seus sonhos incluem, pilotar uma X-Wing, andar no recreio com o Peter Parker e conseguir um tempo para se dedicar ao seu Instagram.

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