Crônica

Eu, Zelda e um Switch

"Há muito tempo atrás, no incrível reino de Hyrule...".



Na crônica a seguir eu conto como foi meu primeiro encontro com a franquia Zelda, a forma como ela me afetou positivamente e, finalmente, o meu reencontro por meio do fantástico Zelda: Breath of the Wild.
"Há muito tempo atrás, no incrível reino de Hyrule, rodeado por montanhas e florestas, havia uma lenda que dizia acerca de um poder onipotente e onisciente que habitava uma ilha secreta [...] Um misterioso feiticeiro conhecido como Agahmim veio à Hyrule para libertar o poder selado. Ele venceu o benévolo rei de Hyrule e aprisionou a princesa Zelda"

"Me ajude... por favor, me ajude. Eu sou uma prisioneira em uma caverna no castelo. Meu nome é Zelda"
Eu passava pela sala quando vi meu primo iniciando o jogo pela primeira vez. Ele tinha comprado o game algumas horas antes e chegou tão empolgado que nem notou que eu estava ali para visitá-lo. Eu, uma criança curiosa, fui ver que jogo era esse. Quando coloquei os olhos na tela, vi a apresentação acima, sobre o que é Hyrule e o que aconteceu com um mundo que vivia em paz.



- Que jogo é esse? - perguntei.
- A lenda de Zelda - respondeu meu primo sem dar muita atenção.
- Você joga com ela? É essa de verde do cabelo rosa e comprido?
- Claro que não - resmungou - Ela tá presa num castelo e eu preciso salvá-la. Esse aí é o herói.
- Ah, é mesmo.

Sentei ali no chão mesmo e comecei a acompanhar a jornada. A chuva, as trovoadas do início do jogo e a música deram uma atmosfera de tensão e muito suspense. Eu roía as unhas e quando meu primo, sem arma alguma, tentava fugir dos guardas, eu soltava um "cuidado!". Em resposta, ele dizia "eu sei, eu sei", mas o conhecendo posso dizer que estava visivelmente tenso.

"Gente, eu trouxe lanche", disse a minha tia que havia acabado de chegar. Me recordo da fala, mas não faço ideia do que respondi. A verdade é que eu estava completamente envolvido naquela aventura. Zelda era diferente dos jogos que eu tinha jogado. O game era como os livros ou filmes porque, na minha cabeça, só um livro ou filme teria algo para contar, isto é, uma história.

Eu voltei lá diversas vezes para ver meu primo jogar e a logística era sempre a mesma: eu me sentava ao chão, bem embaixo da TV e ele, ao lado, com o controle na mão e vivenciado toda aquela aventura. Eu era o espectador e ele o grande herói e protagonista. Zelda tornou-se um sonho porque aquilo ali na tela representava todo um universo onde se podia acompanhar uma história envolvente, adquirir novas armas, enfrentar criaturas imensamente superiores ao tamanho do herói e outras coisas impossíveis.

Na época eu não pude ter um Zelda porque eu não tinha um Nintendo. Os anos se passaram e, no lugar do Nintendo, veio o Playstation e conheci outras obras incríveis. Depois, veio um PS2 e mais uma leva de jogos interessantes, mas eu posso dizer que Zelda havia me marcado e nós nos reencontraríamos em breve.

A aquisição do Switch foi um momento único e a emoção de ter o novo console da Nintendo se mistura com a de poder jogar Zelda: Breath of the Wild, o último game da série. A decisão de comprar o Switch veio no momento e, ali com o vendedor, eu fui escolher os jogos. Quando bati o olho em Zelda veio toda essa nostalgia de espectador privilegiado assistindo meu primo. Não pensei duas vezes e essa foi minha primeira compra.
"Abra seus olhos, acorde Link"
Os dizeres de Zelda parece que foram direcionados à mim. "Acorda, cara! Você está jogando Zelda!" e, naquele momento, minha mãe passa na sala.




- Que jogo é esse - ela perguntou.
- A lenda de Zelda. É sobre uma princesa - respondi sem dar muita atenção e de forma bem resumida.
- Ela é essa do cabelo loiro e comprido?
- Claro que não - resmunguei - Esse aí é o herói. Ele se chama Link e ele que vai ajuda a princesa. Eu jogo com ele.
- Ah... - sentou ao meu lado e ficou me assistindo jogar.

"Cuidado, você vai morrer!", disse minha mãe desesperada. Ela parecia quando assistia uma novela, completamente envolvida. "Que jogo lindo, parece até que é de verdade" foi um dos comentários que ela fez e para mim soou como "é lindo e é de verdade e eu estou jogando". Quando minha mãe saiu da sala eu ainda estava no começo observando a planície, agindo como mero espectador, exatamente do jeito que eu tinha acostumado.

Aos poucos, fui entendendo que eu era o herói e devia me mover, mexer, fazer coisas. E foi aí que as coisas ficaram mais interessantes ainda. Eu descobri que poderia escalar desde uma simples árvore ao meu lado até uma enorme montanha. Eu precisava coletar itens para combater os inimigos e me diverti muito com as batalhas. No entanto, em um momento, meu machado se quebra e nessa hora percebi que os itens não duram para sempre. Foi este e vários outros detalhes que me deixaram mais empolgado ainda com BoTW.

Há uma barra que demonstra o ruído que Link faz. Isso faz com que, por exemplo, os inimigos percebam sua aproximação. Além disso, o mundo é enorme e pede para ser explorado, afinal, como os itens não duram para sempre eu precisava ir a lugares que eu sequer sabia que estavam ali só para adquirir uma roupa, uma comida ou qualquer outra coisa que me tornasse mais resistente e pronto para os desafios.

Eu preciso dizer que as minhas primeiras horas pouco se avançou nos objetivos do game, pois experimentei todas as sensações possíveis ali. Cacei, comi, descansei, escalei montanhas e árvores, usei meus itens até eles se quebrarem, lutei com os inimigos, abri baús e vi o cenário com uma trilha linda e empolgante. Nessas horas, Link já tinha acordado há um bom tempo, mas eu demorei um pouco.

Zelda: Breath of the Wild trouxe toda aquela sensação que eu tive quando encontrei o game pela primeira vez. É preciso dizer que o game para Switch me fez sair do romantismo e entrar no realismo. E digo isso no sentido de, inicialmente, idealizar algo que não pude ter para, após muitos anos, vivenciar aquilo. É preciso abrir um parênteses nessa metáfora, porque embora o realismo seja uma realidade sem fascínio e idealizações, no meu caso, posso dizer que eu vivia o início do realismo, aquele que ficou entre o fim do romantismo. Em resumo, a fase daquele Machado de Assis que a gente praticamente não conhece porque ela é pulada para ir logo ao que interessa.

É bem verdade que como fã e consumidor de jogos os conceitos de "mundo aberto", "itens que se quebram", "sobrevivência" etc não são nenhuma novidade. A grande questão é que o novo Zelda faz tudo isso sem perder o antigo Zelda. É como rever um filme antigo de fantasia, com as tecnologias atuais, sem perder a essência.
"Você esteve adormecido por 100 anos"
Essa é a frase que Zelda diz a Link quando eu usei pela primeira vez o Sheikah para erguer a torre. Eu diria que eu também estive adormecido quando assisti meu primo jogar pela primeira vez. Agora, nas palavras da princesa, eu (Link) sou "a luz - que deve fazer Hyrule brilhar novamente". Desafio aceito, princesa Zelda!


é goiano e já foi astro do rock (no Guitar Hero), líder de uma grande civilização (no Age of Empires) e bem casado (no The Sims). Ele diz que está escrevendo um livro de ficção científica numa tentativa de fazer novos amigos assim. Você pode tentar convencê-lo de desistir dessa ideia absurda no Twitter ou Facebook dele.

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