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Análise: We. The Revolution (Switch) - o juízo de uma revolução

Assuma o papel de um juiz parisiense durante a revolução francesa, julgando e executando de acordo com as regras do novo jogo.


A saga Assassin’s Creed é muito elogiada por abordar vários momentos, lugares e personagens históricos, tanto por potenciais artísticos, de imersão e até mesmo pedagógicos. Obviamente, há uma grande (e inevitável) ficção, mas, ainda assim, a aproximação de jogos com objetos históricos é muito interessante. We. The Revolution explora essas possibilidades ao colocar na mão do jogador as tarefas jurídicas, executivas, diplomáticas e sociais de um juiz dos primeiros anos da revolução francesa.

Julgue!

Em questões formais, o jogo está entre um foco total em gerenciamento estratégico e narratividade. Outros jogos já tentaram essa mistura, e sempre há um risco nesse balanceamento, pois nunca é claro o que é o mais importante. Aplicando para We. The Revolution, encontramos vários estágios, minigames e mecânicas que se intercalam ao longo dos dias, no ciclo diurno e noturno.

Mesmo assim, o foco temático do jogo é o trabalho do jogador como juiz de crimes e “crimes” que acontecem nesse contexto revolucionário. Porém, refletindo momentos turbulentos contemporâneos, aqui o juiz deve considerar muito além dos fatos e provas apresentadas. Claro, ainda há questionamentos a se ter, provas, documentos e as coisas normais desse “gênero legislativo”, na moda de Ace Attorney, porém, deve-se considerar a opinião do júri, a influência da sua decisão nas facções do jogo e outras coisas únicas de alguns casos.


Comparando, novamente, com alguns jogos que apresentam mecânicas parecidas, We. The Revolution executa com maestria essa questão, mesmo que apareçam, eventualmente, algumas coisas bizarras quanto à ética determinada pelos desenvolvedores. Mas acho que é inevitável ter isso de vez em quando.

Os casos são bem diversos, naturalmente ficando mais complexos com o decorrer do jogo. Isso serve para diversificar e construir os personagens importantes do enredo, que normalmente se relacionam frequentemente com os casos. Como eu disse, aqui o jogador irá considerar muito mais do que as provas e a sua intuição e sem sombra de dúvidas terá que perdoar ou condenar pessoas que mereciam outro julgamento. Caso contrário, você é guilhotinado.


Execute!

Entre escolher como vai passar o tempo com a família, escolhas de diálogo com personagens importantes, os seus discursos, etc., chega uma hora em que o jogador fica exausto com a quantidade de coisas que está gerenciando ao mesmo tempo. Normalmente, o dia é passado no tribunal, e a noite nas ruas de Paris, manobrando por várias interações para ganhar mais controle e poder, querendo sempre usurpar a posição do altíssimo Robespierre.

Essa exaustão pode ser visto como algo positivo ou negativo. De fato, é inegável que dilui a experiência narrativa (que, por acaso, é fantástica) em um nível de casualidade, mas adiciona complexidades interessantes que acabam por contribuir muito com o enredo e a leitura do jogador.

Um exemplo disso? Pois bem, em todos os casos em que uma pessoa for sentenciada à morte (naturalmente, pela guilhotina), é o jogador que deve puxar a corda. Isso inicia uma cutscene extremamente efetiva na sua intenção: violência, choque, terror e morte. Fazer isso com um estuprador pode até provocar uma outra interpretação, de vingança merecida, mas e quanto ao pobre pai de família que foi sentenciado à morte não por um crime cometido, mas sim por um interesse de outro personagem? We. The Revolution faz você sentir o peso dessa escolha.

Já aproveito para dar outro enorme elogio ao seu estilo de arte. Essas cutscenes que, felizmente, são bem comuns ao longo do jogo, num formato meio quadrinhesco, sempre encantam pelo seu impacto narrativo e sua estética visual. Me falta um bacharel na área para destacar todas as suas influências (que certamente existem), mas qualquer pessoa pode olhar para isso e destacar que é um estilo de arte raramente usado (e, portanto, ousado), mas que cai muito bem.

Adicionalmente, ainda sobre essas outras atividades noturnas, há um movimento muito claro do impacto externo (acontecimentos de Paris) para o interno (tribunal), porém, raramente se verifica o contrário. Acaba acontecendo indiretamente em alguns pontos, quando a coisa se aperta e o jogador precisa fazer uma escolha drástica, porém, seria legal ver mais movimento nesse outro sentido.

Revolucione!

Concluindo essa análise, julgo necessário destacar os seus elementos experimentais. Desde o estilo de arte até a grande mistura de jogabilidade, We. The Revolution arrisca muito nessa tentativa de explorar a ambientação da Paris revolucionária. Certamente, ao decorrer de cada jogatina, para cada jogador irão surgir problemas específicos, pois esse formato deixa a sua progressão aberta demais e, novamente, não tem o seu foco bem definido.

Porém, tenho certeza que esse título tenha despertado o interesse de várias pessoas e, para elas, recomendo-o inteiramente. Os limiares entre história e ficção sempre são irregulares, e a arte, ao invés de tentar separar essas coisas, deve explorar esses potenciais assim como We. The Revolution.

Prós:

  • Imersão histórica e artística na revolução francesa;
  • Narrativa bem desenvolvida com as ações do jogador;
  • Questionamentos éticos bem aplicados;
  • Diversidade de jogabilidade;
  • Estética visual inovadora, única e fantástica.

Contras:

  • Alguns dos sistemas e minigames não se encaixam bem;
  • Interface mal adaptada ao Switch.
We. The Revolution - Switch/PC/PS4/XBO - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch
Análise produzida com cópia digital cedida pela Klabater

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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