Nintendo e filosofia: Pokémon e a liberdade como condenação

A liberdade não é apenas a capacidade de fazer escolhas, e Pokémon trata exatamente disso.


Pokémon é uma criação de Satoshi Tajiri, o desenvolvedor do primeiro jogo da série e fundador da Game Freak. Apesar da marca estender-se pelas mais diversas mídias, foi principalmente por causa dos jogos que ela se tornou um dos símbolos mais expressivos da cultura pop. Ao ter contato com o game em um primeiro momento é provável que a maior parte das pessoas não consiga encontrar profundidade nos temas e nas questões abordadas. Contudo, Pokémon não é apenas sobre capturar monstros e batalhar em busca do sucesso. Algumas questões importantes são discutidas no decorrer das aventuras e a principal delas é justamente a questão da liberdade, assunto que foi extensamente debatido por correntes filosóficas como o existencialismo.

Somos realmente livres?

Da mesma maneira que ocorreu nos outros textos dessa série de conexões entre jogos publicados nos consoles da Nintendo e a filosofia (você pode conferir isso nos textos sobre Super Mario Bros e Megaman), a ideia aqui não é demonstrar apropriação de conceitos filosóficos por meio dos desenvolvedores. A proposta é argumentar na linha de que, na cultura globalizada, determinados conceitos acabam sendo abordados de maneira tangencial por produtos distintos, passando pelo cinema, pela literatura e, claro, também pelos videogames. E é justamente por isso que é possível perceber a perspectiva existencialista em Pokémon. Entretanto, antes, é preciso apresentar essa corrente filosófica.

O existencialismo é uma decorrência do trabalho do filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905 - 1980). Na perspectiva do seu criador, a teoria tem como ponto de partida a afirmação de que a existência precede a essência, ou seja, primeiro existimos, constituímo-nos como seres humanos, e só então adquirimos uma essência. O que nos define, portanto, é o fato de que somos livres para sermos nós mesmos, e só através de nossas escolhas conscientes é que nossa vida adquire sentido. Importante mencionar que essa forma de entender a realidade não exclui a espiritualidade. Tanto que o próprio Sartre considerava como pai do existencialismo o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813 - 1855), que era cristão, e via na fé e na angústia a dimensão essencial da percepção do indivíduo como centro de sua própria existência.




De acordo com o existencialismo, a liberdade e a angústia são os pontos centrais para entendermos nosso papel no mundo. No entanto, ser livre não é simplesmente fazer o que se quer, e nem agir a despeito dos outros. Mais do que isso, para Sartre estamos condenados a ser livres. Esta é, de fato, uma afirmação estranha, já que não costumamos associar a sensação de agir livremente com algo negativo. Mas o que o filósofo procura com essa proposição é situar o ser humano como alguém que não tem outra opção a não ser ser a liberdade. E é exatamente essa contradição que nos define: conscientemente queremos fazer nossas próprias escolhas, mas inconscientemente preferimos fugir dessa responsabilidade. Contudo, não podemos abdicar de maneira absoluta dessa circunstância, daí a noção de condenação.

E o que Pokémon tem a ver com isso? Bem, parte da análise que proponho aqui pode se aplicar (e talvez até de modo mais pertinente) a outros RPGs. Ainda assim, acredito que existe algo que os jogos da Game Freak fazem muito bem: deixar o jogador livre para experienciar suas escolhas.

Temos que pegar

Apesar de não ser explícito, existe algo de curioso na forma com as crianças são representadas em Pokémon: todas elas querem ser treinadores de sucesso. Sim, existem outras profissões, mas raramente você vai ver uma criança que se importe com elas. Talvez isso tenha relação com a bolha em que vive o personagem que você controla, ou então (e essa é a tese que defendo aqui) isso é parte da mensagem que o game tenta passar.

O mundo de Pokémon é fortemente determinado por circunstâncias que procuram colocar o dilema da liberdade humana. Se você observar bem, tudo funciona de maneira muito precisa, quase perfeita, mas não o tempo todo. Para começar, nos jogos existe todo tipo de dilema ético: familiar, social, e inclusive alguns que se referem aos Pokémon como criaturas abusadas pelos seres humanos. Também existem crimes, e muitos destes são realizados com auxílio dos monstros — o que não nos leva a discutir se a responsabilidade da ação deveria ser compartilhada com a existência desses seres que não possuem moralidade própria.

Outro fato interessante é a ausência quase completa de figuras centralizadoras do poder. Tente lembrar quantas vezes em Pokémon (nos jogos ou em outros produtos) você viu uma menção a prefeitos, governadores, presidentes ou algo parecido. É raro. E isso ajuda a reforçar o clima de que cada indivíduo ali está só, agindo por ele e por aqueles que são seus aliados. Quando buscamos fugir da liberdade, e da condenação que ela representa, tentamos sempre encontrar alguém a quem culpar. Quando crianças, culpamos os pais, depois a escola. Mais velhos, colocamos a culpa nos governos, na globalização, no capitalismo, em entidades sobrenaturais; enfim, precisamos encontrar algo ou alguém que torne as nossas decisões mais aceitáveis simplesmente pelo fato de que não são só nossas.

Uma coisa que me impressionou desde que eu tive contato com essa série pela primeira vez (jogando Blue no Gameboy do meu irmão), foi como esse jogo é sobre partir sozinho em uma aventura sem perspectiva. As ações são suas, os caminhos e os erros também, não há mais ninguém para culpar. Não é o seu rival ou os Pokémon ou qualquer outra pessoa que vai impedir você de chegar onde você quer. Ali, naquele mundo, você depende só de você e das suas escolhas.

Outra frase famosa de Sartre é aquela em que ele diz que “não somos aquilo que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós”. Parece complicado, mas essa é exatamente a premissa do desafio que move o jogador em Pokémon: não importa o que fazem com você, o quanto te derrotam, ou o quão difícil é a jornada. O que conta é como você vai reagir. Ser livre é isso, aceitar que a maior dificuldade que temos é aprender a lidar com a própria liberdade. Se você joga Pokémon, diga com sinceridade: você também não se sente assim?

Revisão: Jhonatan Rodrigues

Pesquisador nas áreas de estética e cibercultura com Mestrado em Cultura e Sociedade (UFMA) e Doutorado em Comunicação (UnB). Além de escrever sobre jogos, produz o Podcast Ficções e tem um blog sobre literatura, filosofia e cotidiano.

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