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Análise: Hotline Miami Collection (Switch) é uma jornada psicodélica e obrigatória

Entre alucinações e crimes hediondos, prepare-se para uma jogabilidade intensa, cruel e recompensadora.


As possibilidades de construção de sentido através da imersão e interatividade dos games são infinitas, porém, por causa disso, raramente há uma forte conexão entre a jogabilidade base de um jogo e a sua história. Quando isso aconteceu tão bem em Hotline Miami, um jogo brutal, psicodélico e divertido, ninguém podia prever que Hotline Miami 2: Wrong Number concluiria a série tão bem, fazendo com que os títulos se tornassem clássicos imediatos.


Agora, quando os dois jogos chegam ao Switch em Hotline Miami Collection, custando R$ 47,49 na Loja Nintendo, é impossível resistir ao impulso de praticar centenas de assassinatos ao som de uma excelente e vibrante trilha sonora, seja novamente ou pela primeira vez.

Como Hotline Miami 2 pode ser entendido como uma extensão direta do primeiro jogo, sem grandes mudanças na jogabilidade, acho impossível fazer essa análise separadamente.

*Beep*

Hotline Miami se apresenta como um shooter top-down com várias sequências rápidas e curtas em que o jogador deve assassinar todos os inimigos em cada nível para prosseguir. E, sinceramente, além de ser uma descrição justa e completa da premissa, caso o jogo fosse analisado apenas nesse aspecto ele já seria um grande sucesso.

Tendo a possibilidade de usar várias armas para cumprir o serviço, além de diferentes máscaras (cada uma com um efeito passivo, como por exemplo, socos letais) e personagens para customizar a sua abordagem, a jogabilidade é extremamente divertida e engajadora, mesmo que ocasionalmente frustrante (o que pode ser amplificado pelo uso de um controle e não do mouse e teclado).

Dividido em andares, cada nível apresenta alguns inimigos que devem ser aniquilados brutalmente e, quando você vacilar, basta um tiro para que o seu progresso naquele andar seja perdido. A morte é frequente e é uma mecânica fundamental do jogo, pois há um certo aspecto de puzzle na maneira com que o jogador lida com a sua tarefa: aí já aparece uma fortíssima relação entre o que se faz e o que se conta em Hotline Miami.

De qualquer forma, toda morte ensina algo sobre o desafio atual e, mesmo nas raras ocasiões em que você perca “muito progresso”, é sempre divertido apertar um botão e imediatamente fazer tudo de novo. Essa regra se mantém principalmente no primeiro jogo, porque Hotline Miami 2 apresenta níveis (e andares) mais largos onde morrer implica em um maior prejuízo para o jogador.

Ao longo das horas passadas em cada jogo, a progressão de dificuldade é vista, mas nunca parece injusta. A única limitação é mecânica e, literalmente, está nas mãos do jogador, com a sua mira, movimentação e planejamento que devem ser executados com uma alta precisão para completar esse desafio. É uma tarefa árdua, ainda mais para aqueles que (como eu) não se dão muito bem com disparos precisos sem o apoio do mouse.

Uma história psicodélica

Como dito anteriormente, para mim a história é indissociável da jogabilidade e do estilo visual que, em conjunto, criam uma ambientação incrível na Miami criminosa dos anos 80-90. As cores vibrantes, principalmente as do fundo animado, parecem estar em sincronia com as melodias eletrônicas e intensas: essa combinação condiciona um estado catártico constante, provavelmente induzido por cocaína (ou talvez só um videogame).

As primeiras fases de Hotline Miami dão a impressão de que o jogo é totalmente desnorteado e sem sentido e, ao fazer isso, convida o jogador a criar as suas próprias hipóteses sobre o que (realmente) está acontecendo. A falta de linearidade cronológica corrobora com isso tudo, mas o interessante é que existe sim uma história concreta, mesmo que ambígua em alguns momentos.

O protagonista acorda, atende o telefone, ouve que deve ir a algum endereço específico para cuidar de algum problema, entra no seu carro, chega lá, resolve o problema, volta ao carro, entra numa loja, encontra um cara conhecido, pega algo de graça, volta para sua casa e dorme. Esse ciclo se repete algumas vezes até que o jogador comece a juntar os pedaços desse quebra-cabeça psicodélico.

O segundo jogo desenvolve imensamente a narrativa da saga, dando um início, meio e fim, porém, para evitar qualquer tipo de spoiler (pois considero tudo significativo), não abordarei os acontecimentos do enredo. Mesmo assim, ressalto que entendo a escolha estilística de querer desenvolver uma “história mais tradicional”, mas, particularmente, eu teria preferido se fosse tudo uma reflexão metalinguística sobre jogos, violência, drogas e loucura.

Vinda ao Switch

Além do já mencionado ótimo preço para um título desse calibre, a portabilidade em um jogo que permite rodadas intensas e curtas de diversão é extremamente vantajosa. Na minha experiência, não encontrei quedas de performance significativas, mas alguns jogadores reportaram bugs sérios, como inimigos spawnando em lugares errados e crashes repentinos. Porém, não há nada que não se resolva com um patch.

Sabendo que a saga Hotline Miami está concluída, acredito que seja um sacrilégio deixar de experienciar esse frenesi de jogabilidade e história, ainda mais no Switch. Boas horas podem ser investidas nos dois jogos, mesmo descontando o fator replay, que é realmente incentivado e frequente.

Prós:

  • Ótima imersão interativa, narrativa, visual e sonora;
  • Jogabilidade recompensadora e intensa;
  • Uma das melhores trilhas sonoras de qualquer jogo.

Contras:

  • Dificuldade pode ser intensificada demais com o uso de controle;
  • Atualmente bugs e crashes podem atrapalhar a experiência.
Hotline Miami Collection — Switch/PC/PS4 — Nota: 10
Versão utilizada para análise: Switch
Hotline Miami Collection está disponível na Loja Nintendo
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nintendo e Devolver Digital

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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