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Análise: Wolfenstein: Youngblood — alta diversão em baixa resolução no Switch

Apesar de requerer muito grind e de sacrificar o visual, o título ainda oferece um bocado de diversão no híbrido da Nintendo.


Wolfenstein: Youngblood é um misto de spin-off e continuação dos eventos vistos anteriormente na série, nos excelentes The New Order e The New Colossus. Apesar de manter intacta a qualidade do tiroteio e o clima maluco de uma sociedade distópica na qual o exército Nazista venceu a segunda grande guerra, o título se aventura com elementos inéditos, como evolução de personagens e co-op. Assim como aconteceu com The New Colossus, Youngblood sacrifica boa parte de seu apelo visual no Switch, mas ainda assim é um feito tremendo vê-lo na telinha do híbrido.

Nazis fora de foco

Antes de mais nada, vamos falar do óbvio: o título da MachineGames está em sua pior forma no Switch. A resolução é baixa, o frame rate não é o ideal — o que, por vezes, faz o jogo engasgar — e o visual, de forma geral, é mais pobre e embaçado em comparação com as versões para os outros consoles e PC.


As limitações atrapalham principalmente nas fases no underground, onde os visuais em baixa resolução, misturados à escuridão labiríntica do local, fazem tudo ficar uma enorme bagunça. Em locações mais iluminadas o estrago é menor, mas fica uma sensação estranha de que tudo está fora de foco.

No entanto, não dá para negar o feito incrível do estúdio Panic Button — responsável pelos ports de The New Colossus e deste aqui. É fantástico ver um jogo exigente e frenético como Wolfenstein rodando de forma totalmente satisfatória no pequeno notável da Nintendo. Não é a melhor versão, é verdade, mas quando jogamos conscientes de que sacrifícios foram necessários, é um belíssimo game portátil — e fica consideravelmente melhor quando no dock, ligado à TV.
Youngblood portátil (esquerda) e no dock (direita)

Sangue novo no front

Além do tiroteio competente, a história sempre foi um grande destaque nos últimos jogos da franquia. Não é o caso deste spin-off. São poucos os momentos com as incríveis cutscenes e os diálogos exagerados entre os personagens. Na maior parte do tempo passamos em seu modo mais operacional: entre missões secundárias, angariando pontos de experiência. Mas quando as cenas cinematográficas aparecem, o nível segue altíssimo.

O título se passa duas décadas depois dos acontecimentos dos anteriores, e as protagonistas da vez são Jessie e Zofia Blaskowicz, filhas do carismático B.J. Blaskowicz. O pai das garotas desapareceu misteriosamente e tudo indica que ele está em algum lugar de Neu Paris, a antiga capital francesa que agora está dominada pelo restabelecido exército nazista. As moças, que foram muito bem treinadas pelos pais, partem em busca de B.J. e acabam trocando favores com a resistência francesa.


A premissa é interessante, é verdade. Mas enquanto BJ, Anya, Grace, e vilões como Irene e o próprio Adolf Hitler, eram absolutamente memoráveis, essa nova geração são puros clichês. É bacana ver várias personagens femininas fortes detonando nazistas, mas é uma pena perceber que elas não trazem nada de profundo para a história além de diálogos óbvios vindos de adolescentes rebeldes.

Embora mais superficial, Youngblood ainda tem algumas cartas na manga em suas missões principais, com momentos marcantes que vão agradar aos fãs dos títulos anteriores. Entretanto, esses momentos são escassos, e logo a história fica em segundo plano e o jogo passa a testar seus limites não mais nas loucuras narrativas, mas nas estruturas de gameplay.

Surrealidade alternativa

As grandes novidades de Youngblood, além do foco no co-op, são seus elementos de RPG e nova estrutura de missões. As irmãs Blazkowicz ganham pontos de XP de várias formas: matando inimigos, coletando colecionáveis, atravessando cenários sem serem detectadas e, claro, completando missões. Ao subirem de nível, recebem aumento no dano das armas, aumento de vida e armadura, além de pontos que podem ser usados para comprar novas habilidades passivas e ativas que deixam os combates bem diversificados.

Como consequência desta novidade, a estrutura de missões também foi ajustada.
Diferentemente do modelo mais linear dos games anteriores, que contavam com missões paralelas mais retas, aqui as fases são baseadas em níveis de dificuldade. Ou seja, baseadas no nível em que sua personagem se encontra. Nas catacumbas de Paris — o Q.G. dos rebeldes e hub da aventura — podemos conversar com os diversos NPCs, angariando novas tarefas principais e secundárias.


Desta forma, Youngblood traz um caráter mais aberto. No lugar dos tradicionais “corredores” dos jogos de tiro, temos diversos cenários abertos (algo como grandes mapas multiplayer), os quais visitamos regularmente com tarefas distintas dependendo da missão. A variedade, no entanto, é limitada. Como as tarefas são muito parecidas e os cenários sempre os mesmos, logo sentimos uma sensação de repetição.

Embora não entreguem os momentos mais emocionantes narrativamente, terminar as missões secundárias é fundamental para angariar mais XP, dinheiro e pontos de habilidades para melhorar as personagens. E essas melhorias se tornam cruciais na hora de enfrentar os caóticos e desafiantes finais das seis fases principais.

Matar, morrer e repetir

Seguindo uma tradição dessa nova encarnação da série Wolfenstein, Youngblood é bastante desafiante. Cair em uma fase contra inimigos com níveis superiores ao seu é quase morte certa – mesmo que neste jogo você tenha três chances (vidas), compartilhadas entre as duas irmãs, para liquidar com as hordas de inimigos.

Por isso, evoluir sua personagem se torna absolutamente necessário para jogar adequadamente qualquer um dos estágios. E mesmo em fases com níveis equivalentes, alguns inimigos são verdadeiras esponjas de balas. Sem completar essas missões paralelas em busca de pontos extras parece que estamos sempre alguns níveis abaixo do aceitável para os desafios, o que pode ser bem frustrante.


Justamente por essa dificuldade altíssima, e por causa dos elementos de RPG, o grind se faz muito presente no título. Eu diria até que é uma dependência complicada. Apesar da jogabilidade excelente e do tiroteio extremamente divertido, algumas tarefas ficam demasiadamente repetitivas com essa estrutura.

Depois de um tempo, alguns elementos bobos começam a incomodar, como ter de passar por todo um mapa para chegar até a entrada dos bueiros que levam para outras fases, por exemplo. Em contrapartida, essa repetição é um treino sem precedentes, e na hora de enfrentar os desafios mais exigentes estamos com a faca nos dentes — fora que os atalhos dos cenários ficam tatuados na memória do jogador, facilitando a travessia e as estratégias de combate.


Justamente por conta dessa dependência alta no grind, o título acaba se esticando bastante: Wolfenstein. Youngblood oferece, tranquilamente, mais de 15 horas de jogo em sua campanha principal, missões secundárias e extras. E tudo isso por um valor bem razoável (custa metade do preço de um título AAA).

Diversão solo ou em dupla

Dito tudo isso, como todo bom exemplar da série Wolfenstein, o tiroteio é extremamente divertido. Estraçalhar nazistas com uma vasta seleção de armas é sempre gratificante. A jogabilidade, como de costume, é rápida e frenética, o que demonstra a competência deste port no Switch. E se você está habituado a jogar Splatoon 2, por exemplo, ainda pode utilizar o sensor de movimentos do console para mirar no modo portátil.


Youngblood pode ser jogado de forma totalmente offline, mas grande parte de seu brilho está no modo co-op — com um amigo da sua lista ou outro jogador escolhido de forma randômica no Nintendo Online. É notável que o gameplay foi projetado com o co-op em mente, e jogar em modo solo, apesar de totalmente possível, não entrega a mesma experiência. Mesmo com uma inteligência artificial competente, não há a estratégia que só uma parceria de carne e osso consegue proporcionar.

Apesar de divertido, esse foco no modo multiplayer e nas possibilidades de evolução das personagens deixou o aspecto stealth do jogo completamente desbalanceado. Wolfenstein sempre teve uma pegada arcade, mas também sempre deixou o jogador decidir a melhor forma de abordar seus desafios, o que aqui perdeu um pouco o impacto. Para mim, que sempre considerei este um dos elementos mais bacanas dos títulos anteriores, foi um pouco decepcionante.


Problemas à parte, o resultado é positivo. Com dezenas de missões principais e secundárias, além dos desafios diários e semanais que garantem mais pontos e moedas para evoluir sua heroína, Youngblood oferece uma aventura parruda — embora repetitiva. E se achar pouco, ainda pode brincar no arcade das catacumbas, em uma versão alterada do clássico dos clássicos, Wolfenstein 3D.

Wolfenswitch

O maior problema de Wolfenstein: Youngblood talvez seja ter se distanciado demais de um dos pontos mais fortes da franquia: sua história absurdamente maluca e cheia de momentos impactantes. Mas essa nova abordagem, embora bastante repetitiva, proporcionou um estilo de jogo sem tantas amarras, quase arcade. No final das contas, mesmo com os sacrifícios visuais em sua versão para o Switch, o título oferece mais do divertidíssimo tiroteio pelo qual a série Wolfenstein é conhecida.

Prós

  • Como de praxe na série, a ação é frenética e da melhor qualidade;
  • Diversidade de armas e habilidades deixa o combate bem diversificado;
  • Bastante conteúdo por um preço razoável;
  • Dividir a diversão com um amigo no modo co-op;
  • Mesmo com as limitações óbvias, o port é muito competente.

Contras

  • Sistema de evolução pode deixar a dificuldade alta demais e muito dependente de grind, além de comprometer o jogo furtivo;
  • Missões secundárias se tornam repetitivas com o tempo;
  • História ficou em segundo plano;
  • Versão para Switch exigiu um tremendo sacrifício na parte gráfica.
Wolfenstein: Youngblood — Switch/PS4/XBO/PC — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: Switch
Análise produzida com cópia digital cedida pela Bethesda

No currículo tem publicidade e jornalismo, mas no coração tem games. É um entusiasta da história dessa indústria infame e um colecionador esporádico. Se quiser conversar sobre a guerra dos consoles e outros assuntos, pode mandar uma mensagem no Twitter para @carloscirne

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