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Análise: Asphalt 9: Legends (Switch) é um excelente título de corrida que derrapa nas microtransações

Título de corrida da Gameloft, originalmente lançado para dispositivos móveis, impressiona em sua conversão para o console da Nintendo, mas tropeça no modelo intrusivo de monetização.

Uma das melhores qualidades do Nintendo Switch é, sem dúvidas, a sua versatilidade. Apesar de não ser o primeiro dispositivo híbrido dedicado a jogos eletrônicos - essa honra provavelmente pertence ao desconhecido Sega Nomad - não é injusto dizer que o console mais recente da Big N (exceção feita à revisão lite, logicamente) foi o primeiro a popularizar junto aos jogadores a possibilidade de jogar seus títulos favoritos da forma que se apresentar mais conveniente à situação.


Com essta versatilidade, acumulam-se diversos benefícios: de um lado, as equipes de desenvolvimento first-party da gigante japonesa não mais precisam se dividir entre a produção de títulos para portáteis e consoles de mesa (algo que, infelizmente, mostrou-se especialmente complicado na era do Nintendo 3DS e do Wii U); de outro, os jogadores ganham acesso a uma biblioteca extremamente diversa, que contempla desde clássicos modernos originalmente desenhados para dispositivos móveis, como Severed (Switch), até obras-primas primariamente associadas à consoles de mesa, tais quais Overwatch (Switch) e The Witcher 3: Wild Hunt (Switch).

É justamente ao primeiro âmbito desse largo espectro que pertence Asphalt 9: Legends. Originalmente lançado em 2018 para iOS e Android, o nono e mais novo título da série Asphalt chegou recentemente também ao Switch mantendo sua forma free-to-play. Mas será que o saldo final da conversão foi positivo? Aperte os cintos, acelere e confira conosco, caro(a) leitor(a).

3, 2, 1...

A série Asphalt não é estranha aos consoles da Nintendo. De fato, o primeiro título da franquia, Asphalt: Urban GT, já marcava presença como um dos títulos de lançamento do saudoso Nintendo DS em 2004. Desde então, houveram versões subsequentes, como Asphalt 3D (3DS), antes da desenvolvedora Gameloft mudar suas prioridades para o então crescente - e lucrativo - mercado mobile.



Nas pistas, Asphalt pode ser definido como um jogo de corrida arcade, simbolizando um meio termo entre títulos de corrida descompromissados e fantasiosos, como Mario Kart e F-Zero, e simcades mais realistas, como Forza Motorsport e Gran Turismo. Na prática, isso quer dizer que frequentemente você estará pilotando um Porsche ou Dodge e fazendo uso de manobras em 360º ou impulsos supersônicos para destruir os carros de outros jogadores temporariamente. Tudo isso como recurso para tentar chegar em primeiro.

Embora despretensiosa, a proposta funciona, e em Asphalt 9: Legends não é diferente. É muito divertido destruir os carros alheios e pegar rampas de impulso durante as corridas, que acabam por se tornar um espetáculo à parte. Não é incomum estar acelerando por uma rota e ao decorrer dela encontrar Lamborghinis voando ou se digladiando em busca de uma posição melhor na chegada. Ponto positivo para a Gameloft, que conseguiu acrescentar à jogabilidade aquele gostinho de “mais uma partida”, tão importante em jogos do gênero. É realmente uma pena que esse sentimento também evidencie um dos grandes problemas do jogo - falaremos dele muito em breve.

Opções, opções...

Ao iniciar o jogo, uma das primeiras características que chamam atenção é a quantidade de opções no menu principal, embora muitas delas - inclusive as opções de corrida rápida e tela dividida - só fiquem disponíveis após certo progresso no modo carreira. A bem da verdade, não é necessário muito esforço para desbloquear todos os modos - em questão de uma hora a maioria dos jogadores provavelmente já terá acesso a quase todas as opções - mas ainda assim é relativamente frustrante ver que uma novidade tão evidenciada como o suporte à tela dividida, exclusividade do Switch, não está disponível para os jogadores desde o início. Fica a impressão negativa que a desenvolvedora quis forçar a comunidade primeiro a passar certo tempo com o jogo.



No entanto, falando propriamente sobre o modo carreira, esse merece elogios. Há bastante conteúdo para ser explorado dentre os diversos capítulos, cada qual contendo por sua vez diversas temporadas temáticas - há uma para novatos na classe C, outra para fabricantes de carro, e por aí vai. Além disso, cada corrida possui seu próprio rol de objetivos, simbolizados por bandeiras. Ao cumpri-los pela primeira vez, avança-se na temporada e recebe-se recompensas únicas e fixas, como diagramas de carros ou de peças de melhoria.

Espere aí, diagramas? Sim. Para se obter um carro em Asphalt 9: Legends, é preciso primeiro juntar a quantidade necessária de diagramas do mesmo. Aqui é onde as microtransações podem começar a se tornar intrusivas. Um carro da classe D como um Lotus Elise Sprint 220 necessita somente de 10 diagramas para ser construído, mas pense em um Lamborghini Asterion, classe B, e você precisará de 40 diagramas, obtidos somente ao completar objetivos diários ou ao abrir os pacotes de expansão, disponíveis na loja e adquiridos com fichas compradas com dinheiro real.



Pelo menos, é até possível conseguir uma coleção de carros razoável sem gastar dinheiro, desde que o jogador dedique o tempo necessário para tal. É possível obter diagramas para quinze carros somente no modo carreira, sem citar o pacote gratuito na loja (renovável a cada quatro horas), e os eventos diários e semanais, que concedem diagramas específicos mediante o cumprimento de certas condições. Esses podem, em grande parte, ser repetidos mediante o uso de “tickets” especiais. Ainda assim, quando é possível gastar 100 dólares em uma única microtransação - e esta é apontada como o “melhor valor” pelo jogo -, é possível perceber que há algo errado.

Paciência é uma virtude... ou não?

Como dito no início, Asphalt 9: Legends consegue trazer o bem-vindo gostinho de “só mais uma partida” à sua jogabilidade, mas isso também evidencia um de seus maiores problemas: o uso de wait mechanics, comum à jogos para dispositivos móveis, mas não menos obtuso por isso.

Funciona assim: cada carro que você possui pode ser usado por seis partidas, antes de precisar ser “reabastecido” por falta de combustível. Esse processo varia desde 15 minutos para carros de classe D até seis horas (!) para carros de classe S. Como você provavelmente já deduziu, o processo todo pode ser acelerado mediante o uso das fichas compradas com dinheiro real. Lembra dos “tickets” especiais usados para eventos? Esses também são reabastecidos com o tempo, e também podem - adivinhe - ser preenchidos mais rapidamente com o uso das mesmas.



Essa mecânica nada mais é do que uma maneira de limitar artificialmente o tempo de jogo e forçar o consumidor a gastar dinheiro para acelerar seu progresso. É verdade que é possível evitá-la usando carros diferentes enquanto outros abastecem (ou mesmo reabastecer os veículos antes de sair do jogo, prática comum deste redator que vos escreve), mas, como dito, ela não deixa de ser obtusa e desnecessária ao ponto de incomodar, principalmente em se tratando de carros de classe mais alta e já adquiridos pelo jogador.

Felizmente, tais limitações não se aplicam aos modos offline de corrida rápida e tela dividida. É possível usar qualquer carro já adquirido sem restrições, tornando os mesmos muito recomendados. Mas para todos os outros, incluindo o carreira e o divertido multiplayer online e suas temporadas semanais, prepare-se para um exercício de paciência.

O preço do passeio

É difícil, portanto, fechar os olhos para o fato de que Asphalt 9: Legends, infelizmente, é agressivo até demais em suas microtransações e na missão de tirar dinheiro dos usuários. Uma pena, pois considerando todos os outros aspectos, aqui está um título de excelente qualidade e, o mais importante, divertido. Sua apresentação gráfica é excelente, não há problemas de performance no Switch, a trilha sonora é empolgante, e há conteúdo de sobra para se entreter tanto offline quanto online.



Caso fosse lançado como um título completo, Asphalt 9: Legends sem dúvidas seria um dos melhores títulos de corrida disponíveis para o console da Nintendo e uma recomendação fácil. Ao zerar o custo de entrada e preservar seu estado free-to-play, ainda é recomendado - especialmente para fãs do gênero - e é certamente um título que irei manter em meu Switch, mas suas mecânicas obtusas não devem ser ignoradas.

Prós

  • Jogabilidade divertida que remete aos melhores títulos de arcade;
  • Conversão impecável em termos técnicos;
  • Suporte a single joy-con e multiplayer local para até quatro jogadores;
  • Carros licenciados agregam valor ao título;
  • Touchdrive permite que jogadores mais novos ou menos habilidosos se divirtam.

Contras

  • Uso de mecânicas de espera limita artificialmente o tempo de jogo;
  • Microtransações agressivas;
  • Não há cross-play ou cross-save com outras plataformas;
  • Modos offline e tela dividida precisam ser habilitados pelo jogador.
  Asphalt 9: Legends - Switch/Mobile/PC - Nota: 7.5 
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Vinícius Rutes
  Análise produzida com cópia digital adquirida pelo próprio redator 

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.

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