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Análise: Atelier Ryza: Ever Darkness & the Secret Hideout (Switch) traz novos ares à franquia

Título estreante do novo arco da franquia Atelier é um sucesso de vendas, e isso é resultado de uma renovação muito bem-vinda à série.




Um dos maiores prazeres meus desse ano foi conhecer a série Atelier. Tudo começou quando eu conheci Nelke & the Legendary Alchemists: Ateliers of the New World (Switch) Spin-off da longeva série japonesa, o game é mais focado na mecânica de desenvolvimento de cidades, muito interessante e divertido.


Alguns meses atrás, conhecemos o título Atelier Lulua: The Scion of Arland (Switch), jogo esse que fechou o arco de Arland. Esse título trouxe diversas atualizações para a série que, posteriormente, serviram de base para as novidades que pudemos testemunhar nesse novo título da série que iremos analisar aqui.

E agora chegamos a Atelier Ryza, game que inaugura a nova região que, curiosamente, não tem uma descrição como os outros títulos da franquia. Geralmente os arcos se focavam nas regiões como Arland, Dusk, Granmad. Dessa vez, o foco maior está em como a desenvolvedora está ambiciosa com as novidades implementadas no game.

Memórias de verão


Todos os games da série são regidos por um tema base. Em Atelier Ryza, o tema são as memórias de verão, algo que se aproxima do “romance ou história de formação”. Esse tema é um local comum em muitos animes, pois é, para muitos japoneses, o momento que funciona como rito de passagem antes de um jovem adentrar na vida adulta.

Tudo começa com Reisalin Stout, ou Ryza, uma filha de fazendeiros da ilha Kurken, que é descrita como uma menina-moleca que ganhou a fama de ser muito irresponsável e brincalhona. No grupo dela temos Lent, um garoto forte, porém mal-falado pelo vilarejo, por ter um pai alcoólatra e violento, sem contar que eles foram abandonados pela mãe do menino quando ele era apenas um bebê. Além dos dois, termos Tao, o menino mirrado que sempre carrega um livro de runas indecifráveis.

O trio parada dura tem uma péssima fama no vilarejo, muito graças à Ryza, que leva os meninos a brincarem despreocupadamente, enquanto todos seguem suas vidas da melhor forma possível. Porém, tudo muda quando Ryza se fixa na ideia de viver uma grande aventura enquanto ainda há tempo, antes que ela envelheça.


Para tanto, ela decide ir até uma prainha atrás de sua casa, onde há um barco sem dono, que serve para levá-los até o continente, local de início da aventura. Às voltas pela floresta das fadas, Ryza e seus amigos acabam entrando em apuros ao tentar ajudar uma moça indefesa, chamada Klaudia, acabando por serem salvos por uma dupla de estrangeiros, chamados Empel e Lila.

Empel é um intelectual e alquimista, responsável por produzir uma bomba que destruiu o monstro que os atacava em um só golpe, enquanto Lila é uma guerreira bastante despreocupada. Ambos viajam constantemente para pesquisarem ruínas de antigas civilizações e, por um golpe do destino, acabaram na ilha de Ryza.

Nasce uma alquimista

Após se surpreender com os resultados inesperados da alquimia, Ryza decide aprender essa estranha técnica, que mais parece mágica. Entrar em contato com alquimia faz o mundo de Ryza mudar completamente. Isso porque as pessoas do vilarejo começam a notar que as ações dela estavam ficando cada vez mais estranhas.

Lights and Shadows

O jogo é ambientado em uma cidade pacata, com ares interioranos. Os moradores olham o grupo de Ryza com receio, pois são avessos a qualquer “modernidade” que possa surgir para eles. Mas a jornada de Ryza mostra que, não somente a alquimia é uma grande arte, que pode solucionar diversos problemas das pessoas, mas uma grande carreira.

E é assim que passamos a jogar de uma reles menina, à uma aprendiz de alquimista. O jogo, de início, nos deixa recolher materiais e explorar os espaços, mas sem nenhum uso para eles. Após passarmos pelas primeiras aulas de alquimia de Ryza poderemos testar as primeiras receitas e pôr em uso os ingredientes que podem ser encontrados por aí.

Para aqueles que não estão familiarizados com a série, a alquimia é uma técnica capaz de produzir praticamente tudo, desde comida até armamento, e cabe ao jogador, junto à Ryza, explorar os vastos cenários do jogo para encontrar ingredientes afim de produzir os mais diversos itens.


Explorar e caçar materiais também se tornou muito prazeroso e aprofundado, não somente pelos cenários extensos, mas a variedade de itens que podem ser encontrados dependendo da sua disponibilidade de ferramentas. Por exemplo: uma árvore, se usar o cetro de Ryza, apenas lascas de madeira serão coletados. Usando a foice, frutos e ervas, enquanto o machado tira madeira.

Quase um reboot da série

Um dos pontos positivos é que o game traz uma boa história para os jogadores que não estão familiarizados com a série, pois a descoberta da alquimia ocorre junto dos personagens, assim a mecânica é explicada de forma bem didática, juntamente com toda a complexidade presente nela.

Se comparado com Atelier Lulua, esse título possui uma mecânica bem mais acessível: ao invés de apenas tentar a sorte colocando os itens disponíveis, o “infográfico” ilustrando as reações em cadeia da receita torna a jogabilidade bem mais acessível e compreensível.


Esse novo método faz você entender melhor as exigências que cada receita necessita, como o nível e qualidade de cada item recolhido, assim como a necessidade dos valores elementais demandados. No jogo há quatro tipos de valores: fogo, terra, elétrico e água.

Os valores servem para desencadear as reações no desenvolvimento da receita. Se o jogador não possuir um item da qualidade e/ou valor elemental necessário, não será possível seguir com a receita. Caso seja preciso adicionar mais de um item para a cadeia mínima de síntese, o jogo irá forçar que o item seja sintetizado ali mesmo, pois identificará a falta de itens com qualidade mais elevada para seguir.

Num geral, achei o processo de síntese bem mais didático do que no último título da série, mas sem perder a complexidade que essa mecânica exige, tornando-se acessível para quem tá chegando, sem perder toda a profundidade que agrada os fãs de longa data.

Item Synthesis

Uma coisa que eu cheguei a comentar no título anterior era a falta de criações “acidentais” de novas receitas. Esse processo também é bem didático e até mesmo instigante, pois o jogador começa a se interessar em desbloquear novos rumos da alquimia, o que torna o processo de síntese mais gamificado e recompensador.

Batalhar para sintetizar

Como todo RPG que se preze, Atelier tem sua leva de batalhas para ninguém pôr defeito. Enquanto a história é levada num tom leve e sempre bem-humorado, como é de praxe da série, (até mesmo quando aborda temas mais pesados, como o pai alcoólatra e abusivo de Lent, ou o bullying que ele e Tao sofrem nas mãos dos meninos do vilarejo), as batalhas servem como contraponto de ação dentro da jogatina.


E, assim como foi a mecânica de síntese, o modo de batalhar do jogo foi totalmente remodelado, estando agora ainda mais dinâmico e intenso. Ao invés de seguir o método pausado das batalhas de turnos, o jogo possui um método de batalha dinâmico, no qual as ações dos personagens são automáticas se o jogador não movimentá-los quando seus turnos chegam.

Apesar de dar mais intensidade às lutas, é bem mais fácil se sentir perdido enquanto joga esse modo. Foi preciso muitas partidas para que eu pudesse entender como que a movimentação do jogo funciona.

São sempre três personagens em batalha, sendo dois de ataque e um de suporte. Os papéis dos personagens dependerão de como eles são equipados, e os itens agora possuem níveis para os tipos de batalha: ofensivo, defensivo e de suporte.

Os itens de batalha podem ser tanto comprados como criados no atelier de Ryza. É possível criar desde armas à vestimentas e acessórios que poderão deixar os seus guerreiros cada vez mais tunados. Os personagens também possuem side-quests que, ao passo que são concluídas, vão desbloqueando novos ataques e habilidades.


Além dos itens equipáveis, agora todos os personagens podem usar itens em batalha, habilidade exclusiva da categoria dos alquimistas até então. Os personagens possuem o Core Crystal, um equipamento mágico que consegue replicar um mesmo item quatro vezes, o que faz do item que antes era descartável, reutilizável.

Mas ainda assim possui suas limitações: quando o jogador zera o limite de uso, é preciso retornar à base para recuperar o poder do cristal. De qualquer forma, agora é possível que todos os personagens usem itens e que eles durem mais, em compensação, temos um limite inicial de três itens por personagem, o que pode desanimar os jogadores que preferiam ter um estoque mais extenso.

Se organizar em batalha é um trabalho um tanto complexo, para os jogadores de RPG talvez não seja nenhuma novidade, mas enquanto o modo de síntese se tornou mais acessível, o modo de batalha pode afastar os jogadores menos acostumados com batalhas mais dinâmicas e fãs do estilo de jogatina mais pausado.

Um novo Atelier, mais vistoso

De longe, Atelier Ryza é uma aposta ambiciosa da Gust, tanto que seu lançamento no Japão foi de 150 mil cópias vendidas apenas na primeira semana. Mas o que fez desse título um sucesso de vendas, sendo que estamos falando de uma série de nicho, com lançamentos constantes?


Bem, o jogo de Ryza traz, pela primeira vez, uma personagem menos infantilizada do que as anteriores. Era comum as protagonistas de Atelier estarem sempre vestidas em vestidinhos em tons pastéis que mais pareciam camisolas, um conjunto pouco provável para quem vai sair por aí recolhendo ervas e matando monstros.

Ryza está de shorts e camiseta, roupa perfeita para uma aventura. Além disso, é visível que houve um cuidado maior em produzir a ambientação do jogo, os cenários são grandiosos, as cores têm uma maior saturação, além de uma trilha sonora que chega a ser indispensável durante a jogatina. Geralmente eu jogo ouvindo podcasts ou vídeos no YouTube, jogando esse título eu nunca liguei outra coisa a não ser o próprio áudio do jogo.

O cuidado não se limita somente nos cenários e em torná-los sempre vivos com personagens e monstros, mas as animações tiveram um trabalho mais intenso em sua criação. Agora temos cenas menos engessadas e poucas animações-base usadas para quase todas as cenas, algo que presenciamos em Atelier Lulua.


As cenas possuem takes quase que cinematográficos, as animações mostram um cuidado maior em criar cada um dos momentos, mesmo mantendo algumas inconsistências, como uma movimentação um pouco dura em algumas vezes, além dos personagens girarem de uma forma mecânica. Mas, de resto, bem melhor do que já foi visto em outros jogos da franquia.

Saibam que jogar o título em modo portátil é bem prazeroso e, ouso dizer, é até melhor do que jogar na televisão. E olha que eu sou daqueles que só tira o Switch do dock apenas em situações muito raras.

Além disso, a história é sempre divertida e nos faz sentir como se estivéssemos em um anime interativo, sempre trazendo reviravoltas interessantes, tudo regado a uma boa trilha sonora e uma extensa literatura que a série acumula e expande há mais de vinte anos. E fique atento, pois ainda serão lançadas várias DLCs paralelas, com as histórias adicionais dos outros personagens jogáveis da franquia.


As novidades aplicadas à jogatina foram bem-vindas: remodelar as mecânicas de batalha e síntese trouxe um novo fôlego à série, o que pode fazer do título uma boa porta de entrada para jogadores que nunca desbravaram o fofo e divertido universo da série Atelier. Dê uma chance, acredito que não se arrependerá.

Prós

  • História extensa e cativante, com cutscenes bem animadas para a série;
  • Modo de síntese remodelado, mais acessível e intuitivo;
  • Batalhas intensas e dinâmicas;
  • Cenários belos e trilha sonora impecável.

Contras

  • Mecânica de batalha pode ser muito complexo para alguns jogadores;
  • Algumas explicações das mecânicas podem ficar pouco claras;
  • Sem localização para o português.
Atelier Ryza: Ever Darkness & the Secret Hideout - Switch/PS4/PC - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch

Revisão: Ícaro Sousa
Análise realizada com cópia digital cedida pela Koei Tecmo

Estudande de Letras que gostaria de aprender todas as línguas existentes, mal sabendo lidar com as duas que já fala. Descobriu seu amor pela Nintendo ao conhecer Super Mario 64 e desde então nunca mais largou os cogumelos, karts e rúpias que encontrou em seu caminho.

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