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Análise: Pine (Switch) desperdiça boas ideias com um desempenho técnico desastroso

Entre os inúmeros problemas que afetam a versão para Switch do game, um dos bugs mais graves impede a conclusão da campanha principal.



Após assistir ao trailer de Pine, fica praticamente impossível deixar de relacioná-lo com The Legend of Zelda: Breath of the Wild. A temática do herói solitário que usa seu arsenal variado de equipamentos para desbravar um mundo aberto repleto de vida e com visual cel shading aproxima ambos os games. No entanto, as comparações se encerram por aí, já que o projeto indie do estúdio Kongregate tenta trilhar caminho bem diferente daquele visto no AAA da Nintendo.


Enquanto Link precisa explorar a decadente Hyrule com o objetivo de selar um mal centenário, Tuhy — o protagonista de Pine — deve percorrer a agitada ilha de Albamar e encontrar um novo local para sua vila chamar de casa. Em um mundo habitado por diferentes criaturas, a frágil raça humana sobrevive e prospera no topo de um monte. A altura e difícil acesso bloqueiam qualquer tipo de contato entre nossos semelhantes e os perigosos seres que dominam todo o entorno.

A aparente paz termina quando alguns terremotos começam a provocar deslizamentos na montanha, que arrastam casas e ceifam vidas. Os líderes da aldeia insistem que o problema foi pontual e basta os sobreviventes reconstruírem suas moradias para seguir em frente. Porém, Tuhy acredita que outros tremores voltarão a acontecer e a terra não é mais estável. Por conta própria e contrariando a vontade dos chefes da tribo, resolve descer rumo ao desconhecido em busca de uma região segura para os humanos.

Uma complexa rede de relacionamentos

Quando começa sua viagem por Albamar, Tuhy percebe que a ilha tem animais selvagens e outros com características antropomórficas, ou seja, apresentam comportamento humano. Essas criaturas também se organizam em aldeias e mantêm uma complexa rede de relações com seus vizinhos, por exemplo, a tribo dos pavões pode fazer comércio com a dos alces e estar em guerra contra os crocodilos.

Toda a teia diplomática é constantemente modificada durante o game — alterações motivadas principalmente pela ação do jogador —, sendo essa a mecânica central de Pine. Conforme avança na jornada, o protagonista consegue se aliar a um povo, fazer com que uma cidade entre em conflito com outra, saquear comerciantes para que suas respectivas aldeias fiquem sem suprimentos, entre inúmeras outras possibilidades. Até mesmo métodos de sabotagem são permitidos, como alimentar uma tribo com comida envenenada antes de uma batalha para que os soldados sejam abatidos mais facilmente.
Alguns itens especiais melhoram seu relacionamento com os chefes das aldeias


As escolhas do jogador afetarão profundamente no cotidiano de Albamar. Ao se aliar a determinado povo, automaticamente, Tuhy será visto como oponente pelas tribos que mantêm relações hostis com seus novos amigos. Isso interfere diretamente no nível de dificuldade do game, afinal, ao explorar a ilha nos deparamos frequentemente com diferentes criaturas e quanto maior for sua lista de inimigos, consequentemente também aumenta o número de animais que irão te atacar caso te encontrem.

Para conquistar a confiança das tribos, é necessário explorar o mundo coletando suprimentos. Cada povo tem necessidades específicas e devem ser presenteados com os materiais certos, somente assim aceitarão um humano andando entre suas casas. Além de caçar animais selvagens para conseguir comida ou procurar entre as árvores matérias-primas para construção de armas ou estruturas, Tuhy ainda tem acesso a um sistema de crafting que o permite criar dezenas de novas possibilidades.
Faça amigos por meio de doações

Coletânea de problemas

Pine realmente apresenta conceitos interessantes e com potencial de render dezenas de horas de diversão, se não fossem os incontáveis bugs que o tornam praticamente injogável. Ele foi originalmente desenvolvido para PC — após coletar recursos em campanha do Kickstarter — e a versão para Switch é um port que sofreu downgrade pesado. Ao iniciar o game, tive a boa surpresa de uma ótima localização em português do Brasil, porém a animação logo se transformou em frustração com o primeiro load demorando cerca de cinco minutos.

Sempre que retornava ao jogo após um período com o Switch desligado ou meu personagem morria, eu já pegava o celular para conferir as redes sociais, pois sabia que teria de esperar muito tempo na tela de carregamento — frequentemente mais do que três minutos. Por muitas vezes, optei por evitar confrontos, não por medo de perder o progresso ou algum material específico que havia coletado, mas sim querendo evitar ter que passar mais uma vez pela chateação dos cansativos loads.
Aquela cidade está flutuando ou estão só faltando alguns polígonos mesmo?


Em Albamar, o principal entretenimento foi tentar prever qual bizarrice viria em seguida. A campeã acabou sendo quando Tuhy ficou preso dentro de pedras que apareceram do nada e justamente ao redor dele — me forçando a reiniciar o jogo. Isso ocorreu graças ao péssimo trabalho de draw distance que faz os objetos do cenário spawnarem a praticamente um metro de onde o seu personagem está. É comum ir andando e vendo as árvores e todo o restante do mapa surgindo logo à frente.

Por falar na vegetação, ela foi bastante devastada no Switch. Enquanto na versão de PC nosso herói atravessa florestas repletas de árvores, no console híbrido da Big N parece que um inverno rigoroso derrubou boa parte delas e levou as folhagens das que ficaram em pé. A pobreza visual se revela ainda pior com a baixíssima qualidade e simplicidade das texturas, tornando os gráficos semelhantes aos dos games da época do Nintendo 64.
Mesma localização na versão PC (esquerda) e Switch (direita)

Há ainda graves problemas de iluminação, ao cair da noite fica praticamente impossível ver o que acontece na tela. Para tentar resolver, aumentei ao máximo o brilho de minha televisão, mas, mesmo assim, não dava para ver nada do que acontecia e era necessário esperar até amanhecer para poder continuar. A escuridão e os cenários sem capricho algum influenciam diretamente na experiência de Pine, afinal, trata-se de um jogo em que a exploração é o principal fator. Chega a doer os olhos ter que ficar por períodos prolongados encarando os mapas mal acabados.

Como se já não fossem problemas suficientes, o desempenho técnico é sofrível. São frequentes quedas de fps e pequenos congelamentos de tela, sem contar que ao pressionar o botão ‘A’ para iniciar diálogos com os NPCs é preciso esperar alguns segundos até que a conversa, de fato, comece. Algo semelhante acontece nos menus, ao apertar ‘Start’ para craftar itens ou trocar seu equipamento, as opções ficam “invisíveis” por algum tempo — até que o jogo consiga carregá-las e elas apareçam.
Durante a noite a iluminação dificulta a exploração do mapa

Cadê o final?

Enfrentando todos os bugs e problemas, consegui progredir na campanha principal. Mas, ao chegar em uma das últimas missões, Tuhy entrou em uma caverna e o load demorou muito mais do que o convencional. Fiquei cerca de 15 minutos esperando, até decidir reiniciar o Switch e tentar novamente. A aventura voltou a esbarrar na intransponível tela eterna de carregamento. Repeti o procedimento uma terceira vez, agora com o console no modo portátil, e nada aconteceu.

Esse é o erro mais crítico de Pine, que impossibilita terminá-lo na versão de Switch. De acordo com os desenvolvedores, um patch corretivo já está pronto e somente aguarda a aprovação da Nintendo para ser liberado. No entanto, até a publicação dessa análise, o game não pode ser finalizado.
Os "detalhados" cenários cobertos de neve

Uma jornada tortuosa

Tentando deixar as questões técnicas de lado, Pine também comete certos pecados no conteúdo. As missões são excessivamente repetitivas, quase sempre consistindo em ter que coletar um item, usá-lo para craftar algo novo e levá-lo para alguma tribo. Como não existem indicações claras no mapa de onde os materiais podem ser encontrados, acaba sendo necessário caminhar aleatoriamente até localizar o suprimento em questão.

O sistema de combate deixa a desejar. Tuhy é muito lento e fraco — algo que faz sentido, já que os humanos são retratados no game como seres frágeis e o personagem nunca foi um guerreiro. Mas, essas características que poderiam ser usadas para acompanharmos a evolução do protagonista, são mal exploradas. Com o passar do tempo e independentemente do inimigo, o jogador perceberá que basta se afastar do oponente, carregar o ataque com a espada e desferir a pancada quando o rival de aproximar. Com essa tática todas as lutas do jogo se tornam idênticas e sem emoção.

Por fim, as mecânicas para troca de armas são confusas, com os golpes à distância ou corpo a corpo sendo executados pelo mesmo botão. Para alternar entre um e outro, é preciso usar o 'X' para selecionar a arma que será utilizada e a escolhida fica marcada no canto superior esquerdo da tela, ao lado das barras de vida e estamina. Isso faz com que nos momentos de batalhas mais rápidas, o jogador constantemente cometa algum erro e levante o arco e flecha ou invés de se defender com a espada.
Texturas sempre muito simples

Mundo vivo

É interessante observar como suas ações influenciam ativamente em Albamar, dando ao mundo um charme bem peculiar. Apesar de a ilha não ser tão grande — quando comparada a outros jogos de mundo aberto — ela é bastante viva. Os diferentes animais estão sempre perambulando em busca de recursos para seus povos, então, é normal encontrá-los caçando ou caminhando pelas florestas. Esses são os momentos perfeitos para saqueá-los, aproveitando para rechear seu inventário ao mesmo tempo em que desfalca o estoque de suprimentos das aldeias inimigas.

Se você repetir tal ação algumas vezes, as tribos começarão a perceber o perigo e passam a mandar soldados para proteger os responsáveis pela coleta de materiais. Por isso, é sempre necessário calcular com frieza todos os seus passos, pois um simples “roubo” agora pode tornar uma missão futura bem mais complicada. Isso porque com o desenrolar da trama, Tuhy precisa ir conversando e entendendo os padrões de vida de todos os habitantes de Albamar para conhecer o verdadeiro passado dos humanos e assim garantir um futuro para a sua própria espécie.

Ter boas relações com alguns povos, sempre os ajudando na coleta de recursos, faz com que seus aliados evoluam tecnologicamente. Isso libera o acesso a armas e roupas melhores, que aumentam o poder de ataque e defesa do protagonista. Todavia, se sua aldeia parceira se tornar muito poderosa frente às demais, a população crescerá rapidamente, demandando maiores quantidades de materiais para se manter. Assim, nem sempre se torna inteligente apostar todas as fichas em uma única cidade.
É mais inteligente deixar os inimigos se matarem antes de entrar na briga

Um port em versão beta

Com um complexo mundo aberto e ideias interessantes para o gênero, Pine tem seu brilho ofuscado por inúmeros problemas técnicos. Apesar da dor de cabeça, é até possível superar os travamentos, loads intermináveis, quedas de fps, entre diversos outros bugs. No entanto, depois de driblar todas essas situações, ainda ter que topar com uma tela de carregamento infinita que impede a progressão se torna extremamente frustrante. Claro que os desenvolvedores podem disponibilizar atualizações futuras que melhorem desempenho do game, o tornando realmente jogável. Mas, no momento atual, parece que ainda está em sua versão beta e chega a ser desrespeitoso com o público comercializar algo nesse estado dentro da eShop.

Prós

  • Ótima localização em português do Brasil;
  • Apresenta conceitos interessantes para os jogos de mundo aberto;
  • Suas ações realmente interferem no cotidiano de Albamar, tornando o local vivo.

Contras

  • Incontáveis problemas técnicos;
  • Bug que impede a conclusão da campanha principal;
  • Missões repetitivas;
  • Sistema de combate tedioso.
Pine — PC/Switch — Nota: 3.0
Versão utilizada para análise: Switch
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nintendo
Pine está disponível na Loja Nintendo

É jornalista e obcecado por games (não necessariamente nessa ordem). Seu vício começou com uma primeira dose de Super Mario World e, desde então, não consegue mais ficar muito tempo sem se aventurar em um bom jogo. Diretor de Redação do Nintendo Blast.

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