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Análise: Streets of Rage 4 (Switch) é a sequência que a histórica franquia de beat 'em up merecia

Depois de mais de 25 anos, a série está de volta com o seu quarto capítulo e eleva o nível de qualidade que marcou a trilogia original de 16-bits.



O beat 'em up, também conhecido no Brasil como “briga de rua”, foi um dos gêneros mais populares da era 16-bits. Distribuir socos e pontapés nos incontáveis inimigos que insistiam em ressurgir na tela era sinônimo de diversão e entre as franquias que melhor exploraram a fórmula está Streets of Rage. A trilogia clássica, exclusiva do Mega Drive, teve seu último capítulo lançado em 1994 e, desde então, foram feitas algumas tentativas de trazê-la de volta — todas sem sucesso, pelo menos até agora.


No ano passado, após o remake de Wonder Boy III: The Dragon's Trap ser extremamente elogiado pelo público e crítica, a Lizardcube recebeu luz verde da SEGA para trabalhar com Streets of Rage. O projeto do quarto episódio da saga de Axel e Blaze envolveu ainda as contribuições da publisher Dotemu e do estúdio Guard Crush Games. O resultado final, que mescla nostalgia e modernidade, provou que valeu a pena esperar mais de 25 anos para retornamos às perigosas ruas de Wood Oak City.

Passado x presente

Streets of Rage 4 se desenrola uma década depois dos fatos mostrados no terceiro game. Com a derrota de Mr. X, a vida na cidade seguia tranquilamente, até que uma nova organização começou a ganhar força. Rumores indicam que o grupo é comandado pelos gêmeos Y, filhos do antigo chefão do crime. Para conter a ameaça, os já conhecidos Axel Stone e Blaze Fielding unirão forças com os novatos Cherry Hunter e Floyd Iraia.

Apesar de o enredo não ser o forte do jogo — como tradicionalmente acontece entre os beat 'em ups —, ele cumpre a função de moldar um plano de fundo que justifique toda a porradaria. Mesmo nunca se desenvolvendo de maneira complexa ou apresentando reviravoltas mirabolantes, a história simples cria um sólido fio que conduz e interliga de forma lógica os cenários e acontecimentos das 12 fases que compõem a aventura.
História entre as fases é desenvolvida com o uso de imagens e legendas


A narrativa descompromissada beneficia ainda aqueles que terão o primeiro contato com a franquia. Ainda que carregue o número quatro em seu nome, não é preciso conhecimento prévio sobre os três títulos anteriores para aproveitar tudo que o novo game oferece. No entanto, isso está longe de significar que os jogadores mais experientes foram deixados de lado, pois há um vasto conteúdo capaz de alimentar a nostalgia.

É o caso dos extras, por exemplo, que trazem informações complementares dos personagens. São nesses textos, disponíveis em português do Brasil, que descobrimos que Axel se aposentou e estava vivendo na natureza. Já Blaze deixou a polícia após desentendimentos com seus superiores e se tornou professora de dança e coreógrafa. Os lutadores inéditos também têm a biografia detalhada, com Cherry sendo filha de Adam Hunter e Floyd um aprendiz do Dr. Zan.
As legendas subindo, a cidade ao fundo... as referências começam já na tela inicial

Crie seu próprio estilo e desafio

Com mecânicas de combate variadas, Streets of Rage 4 brilha por apresentar estilos de luta distintos e capazes de agradar públicos diferentes. É possível terminar o jogo usando apenas movimentos simples — apertando seguidamente o botão Y para castigar os inimigos com séries básicas de golpes —, ou então eliminar os criminosos com poderosos combos, que têm execução complicada e drenam até 100% da barra de vida dos chefões.

O game incentiva os jogadores a dominar os controles, oferecendo recompensas muito interessantes. O desempenho dentro de cada fase é classificado por meio de uma nota, que gera mais pontos quanto maior for. Esses números são somados a um placar total, e quando determinadas marcas são atingidas neste contador, novos personagens vão se tornando disponíveis na tela de seleção.

No total, há 13 lutadores desbloqueáveis. Boa parte deles são versões em 16-bits dos protagonistas Axel e Blaze, com os sprites trazidos dos títulos originais. Porém, é possível também liberar alguns personagens clássicos, como Skate, Dr. Zan e Shiva, sendo que todos têm movimentos e visuais vindos diretamente do Mega Drive. Acaba sendo bem inusitado ver os heróis pixelados trocando sopapos com inimigos em alta definição.
Até mesmo os especiais foram trazidos dos títulos clássicos


Os jogadores mais habilidosos e que abusam dos combos tendem a receber notas altas nas fases. Com isso, precisarão repetir a jornada uma quantidade menor de vezes para somar a pontuação necessária para ter acesso a todo o time de personagens secretos. Além disso, o game também conta com um ranking global de pontos para estimular aqueles que gostam de uma competição a buscar as primeiras posições.

O estilo de luta ainda interfere diretamente na dificuldade geral. Os mestres do combo podem achar o “Normal” simples demais, enquanto outros jogadores encontrarão neste mesmo nível um desafio justo e que evolui em uma curva balanceada. Pensando nisso, o game oferece cinco opções diferentes de dificuldade, possibilitando assim ajustes que adequam a aventura em função da habilidade de cada um.

Em caso de game over, são disponibilizadas algumas ajudas. Depois de morrer, é possível repetir a mesma fase com mais vidas, por exemplo. Porém, ao aceitar o auxílio, a quantidade de pontos somada ao placar total sofre decréscimo significativo. Essas opções, tanto as ajudas quanto os cinco níveis diferentes de dificuldade, tornam Streets of Rage 4 muito gentil para jogadores casuais e uma boa porta de entrada para o gênero.
Cada personagem conta com um golpe especial próprio

Sozinho ou acompanhado

Como todo bom beat 'em up, o jogo se torna muito mais divertido no modo multiplayer. É possível reunir até quatro pessoas para distribuir tapas nas orelhas dos criminosos. A versão para Switch leva vantagem nesse quesito, já que o console conta naturalmente com um par de Joy-Cons, que podem ser usado por dois jogadores — apesar de que os movimentos têm execução muito mais confortável com o uso do Pro Controller.

Além da jogatina local, é possível juntar a galera através do online. No entanto, pela internet, a jornada acaba restrita a apenas dois jogadores. Fora isso, ainda há possíveis problemas de conexão. Em todas as vezes que tentei experimentar o multiplayer online, tive que enfrentar travamentos (lags) e em uma das oportunidades, o responsável pela sessão desconectou e me derrubou junto — isso quando já estávamos quase no fim do game. Portanto, a jogatina local acaba sendo muito mais interessante.
Se o responsável pela sessão desconecta, você também cai


O multiplayer também favorece a realização dos combos, com os jogadores conseguindo transformar os inimigos em bolinhas de ping-pong, os atirando de um lado para o outro. Na companhia de um ou mais amigos, acaba sendo rápido o processo de conhecer as particularidades dos personagens selecionáveis. Axel, Blaze, Cherry e Floyd têm movimentos e características muito diferentes entre eles.

Enquanto Axel é o que conta com atributos mais equilibrados, Blaze é um pouco mais fraca, mas tem uma técnica apurada. Cherry é a mais rápida do grupo, porém com golpes que tiram pouca vida dos inimigos. Já Floyd é exatamente o oposto, com socos bastante poderosos e movimentação demasiadamente lenta. É interessante experimentar cada um deles, pelo menos por alguns minutos, para definir qual se enquadra melhor ao seu estilo.

Na minha experiência, terminei o jogo a primeira vez com a Blaze e encontrei um pouco de dificuldade somente nas duas últimas fases. Na segunda tentativa, selecionei Axel e rapidamente criei alguns combos mais poderosos, que fizeram com que muitos dos chefes que me causaram problemas não tivessem nenhuma chance. Isso me mostrou na prática que os atributos únicos dos personagens realmente fazem diferença.
No multiplayer fica mais rápido de experimentar todos os personagens

Uma cidade decadente

Repletos de detalhes e com muitos easter eggs escondidos, os cenários de Streets of Rage 4 refletem com extrema qualidade o ambiente decadente de Wood Oak City. As ruas dominadas pelas gangues são sujas, não há beleza nas paredes pichadas e a iluminação ironicamente auxilia na criação de um clima um tanto quanto sombrio. Esses fatores somados tornam a ambientação perfeita e ajudam no desenrolar da trama.

Enquanto as primeiras fases têm cenários mais caóticos, em sintonia com a situação da cidade, as últimas acontecem em mansões luxuosas e com móveis caros que refletem o poder crescente da organização comandada pelos irmãos Y. As fases também são recheadas de nostalgia e elementos clássicos, como objetos no chão para serem usados como armas, e claro que não poderiam faltar os frangos assados dentro das latas de lixo.
Não poderia faltar o frango assado


Mais do que simples decoração, alguns detalhes dos cenários funcionam também como armadilhas. Há fios de alta tensão que dão choques, gás venenoso saindo de canos, buracos onde os personagens caem, entre muitas outras. Esses obstáculos não representam um perigo apenas para o jogador, já que causam dano aos inimigos. Um pequeno problema é que a inteligência artificial não leva isso em consideração e, às vezes, acaba se matando sozinha.

Mesmo com a qualidade visual e números crescentes de inimigos se movimentando na tela, Streets of Rage 4 consegue manter um desempenho estável no Switch. Tanto no modo portátil quanto no dock, o game roda a 60 fps fixos e não sofre em nenhum momento com quedas perceptíveis. Tecnicamente, a versão para a plataforma híbrida da Big N não perde em nada se comparada àquelas disponíveis nos demais consoles.
Inteligência artificial nem sempre é tão inteligente

Batida dos anos 1980

É praticamente impossível falar sobre Streets of Rage sem mencionar a marcante trilha sonora da franquia. Para quem cresceu ouvindo as batidas eletrônicas que embalaram a porradaria no Mega Drive, a boa notícia é que esse quarto episódio mantém o mesmo nível de qualidade. Isso porque um dos envolvidos é o próprio Yuzo Koshiro, compositor da série original e que criou algumas faixas desse novo capítulo, como a executada na tela de seleção de personagens.

Além de Koshiro, a equipe composta por nomes como Yoko Shimomura, Motohiro Kawashima, Harumi Fujita e Keiji Yamagishi conseguiu produzir um trabalho que merece todos os elogios. Além disso, o game conta com um pequeno presente para o público das antigas. As trilhas sonoras de Streets of Rage 1 e 2 estão disponíveis para serem tocadas nas fases do novo jogo, e combinam muito bem com todas elas, provando que o nível de qualidade foi mantido.

Para depois da luta

O título traz uma quantidade limitada de conteúdos adicionais para depois da campanha principal. Além dos textos com detalhes sobre a biografia dos personagens, há algumas artes conceituais. Fora isso, existe um modo arcade, em que o jogador é desafiado a terminar as 12 fases usando apenas uma “ficha”, um boss rush para enfrentar os chefões em sequência e um modo batalha que transforma o game em um pequeno jogo de luta.

Todos divertem por alguns minutos, mas rapidamente se tornam descartáveis. Assim como modernizou alguns conceitos clássicos, inserindo mecânicas aprimoradas de combos, por exemplo, Streets of Rage 4 poderia ter trazido alguns conteúdos adicionais mais excitantes, como possíveis rotas alternativas que deixassem mais interessantes os replays necessários para liberar todos os personagens secretos.
Modo batalha é um dos extras...
... e a biografia dos personagens outro

Valeu a pena esperar

Respeitando a trilogia clássica e modernizando alguns pontos fundamentais, o game revive de maneira fantástica uma das séries mais icônicas dos beat 'em ups. Também merece elogios por oferecer uma experiência que agrada tanto seu público cativo quanto àqueles que iniciarão agora nas brigas pelas ruas de Wood Oak City. A espera foi longa, mais de duas décadas, mas Streets of Rage 4 nos presenteia com um jogo que honra e expande o riquíssimo legado da franquia.

Prós

  • Mecânicas que se adaptam à habilidade do jogador;
  • Recompensas justas para quem melhor domina o sistema de combos;
  • Visual e trilha sonora impecáveis;
  • Nível de dificuldade variável, que torna a experiência mais ou menos desafiante;
  • Mescla interessante entre personagens novos e estreantes.

Contras

  • Conteúdo extra e do pós-game poderia ser um pouco mais amplo;
  • Multiplayer online com estabilidade bem variável.
Streets of Rage 4 — Switch/PS4/XBO/PC — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Dotemu

É jornalista e obcecado por games (não necessariamente nessa ordem). Seu vício começou com uma primeira dose de Super Mario World e, desde então, não consegue mais ficar muito tempo sem se aventurar em um bom jogo. Diretor de Redação do Nintendo Blast.


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