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Análise: Paper Mario: The Origami King (Switch) é uma carismática aventura por um mundo de papel

O novo jogo do encanador continua a tendência de experimentação da franquia em um título com ideias criativas e muito humor.


Em Paper Mario: The Origami King, uma ameaça na forma de papel dobrado assola o Reino dos Cogumelos e o encanador bigodudo é o único capaz de desfazer o caos. O novo jogo da franquia para Switch oferece uma aventura recheada de humor e carisma enquanto experimenta conceitos novos. O título não acerta em tudo que se propõe, mas, mesmo assim, se desdobra em uma experiência encantadora.


A franquia Paper Mario nasceu como um RPG tradicional e, com o passar do tempo, foi se transformando ao experimentar diferentes elementos e mecânicas. The Origami King segue essa tendência e, na verdade, é um misto de aventura e puzzle com leves toques de RPG. Por causa disso, ele pode ser decepcionante para aqueles que queriam um RPG tradicional como os dois primeiros títulos da série — inclusive, recomendo o indie Bug Fables: The Everlasting Sapling como ótima alternativa para os saudosistas. Mas dentro do que se propõe, é um jogo notável e divertido, basta estar disposto a aproveitá-lo.

Papel e origami em uma aventura para salvar o reino

Olly, uma criatura feita de papel dobrado que se proclamou rei, apareceu no Reino dos Cogumelos e instaurou o caos. Com seus poderes, ele transformou a Princesa Peach e outros habitantes em estranhos origamis. Além disso, com a ajuda de serpentinas mágicas, ele levou o castelo da princesa para o alto de uma montanha distante — essas ações fazem parte de um plano para mudar profundamente o mundo. Sendo assim, Mario, na companhia de Olivia, a irmã de Olly, vai precisar explorar o reino para destruir as serpentinas e acabar com os planos do rei origami.


No controle do encanador, visitamos inúmeros cenários em uma jornada com trechos de exploração, plataforma e muitos puzzles. O mundo de The Origami King é extenso e interconectado, ao contrário dos últimos títulos, cujas áreas eram divididas em fases. As localidades são vastas e repletas de atividades, mas a progressão é majoritariamente linear — não foi dessa vez que a estrutura de mundo aberto chegou ao universo de Paper Mario.

Boa parte dos enigmas e situações podem ser resolvidos com saltos ou golpes de martelo, mas Mario conta com alguns truques novos em The Origami King. Pelas suas andanças, o herói encontra buracos e estruturas inacabadas (obra do caos instaurado pelo Rei Olly), e é possível restaurá-los por meio de confete. Além de conseguir moedas com essa ação, novos caminhos e segredos podem ser revelados. Outra novidade é a 1,000 Fold Hundred Arms, uma técnica que estende os braços de Mario. Ela pode ser ativada em pontos específicos e é utilizada para puxar, rasgar, bater ou mover objetos e partes do cenário.


Inúmeros colecionáveis são os maiores incentivos para desbravar cada área. A principal tarefa paralela é salvar inúmeros Toads pelo mundo: os personagens estão em todos os cantos enrolados em buracos, presos em elementos do cenário ou até mesmo transformados em origamis diversos. Os Toads resgatados conferem várias vantagens, como desbloqueio de lojas ou ajuda durante o combate. Fora isso, há também tesouros e itens escondidos pelos cenários. Parte da diversão é justamente conseguir encontrar esses objetos e, em muitos momentos, preferi vasculhar as áreas em vez de seguir na história.

Às vezes, Mario também precisa enfrentar os Paper Macho, versões gigantes de inimigos feitas de papel marchê. Estes confrontos acontecem no cenário da exploração e são, em sua maioria, simples — basta desviar do bicho e acertá-lo com o martelo. Algumas dessas batalhas são contra monstros ainda maiores e apresentam estrutura mais elaborada, lembrando um tradicional embate contra chefes. Mesmo com conceito básico, os Paper Macho ajudam a trazer diversidade ao jogo.


Enfrentando inimigos em puzzles disfarçados de combates

O combate não está de fora de The Origami King. Desta vez, o sistema conta com aspectos curiosos. As mecânicas básicas, como a ação por turnos e movimentos que são fortalecidos ao apertar botões na hora certa, ainda estão presentes, mas várias novas características transformam esses embates em pequenos puzzles.

Nas batalhas normais, que acontecem ao encontrar criaturas-origami, Mario é cercado por inimigos em uma arena circular. Antes mesmo de agir, temos um número limitado de movimentos para girar os anéis ou deslizar o solo a fim de reorganizar a localização dos oponentes. O objetivo é agrupar os origamis malignos para que os ataques sejam mais efetivos: saltos acertam todos em uma fila, enquanto o martelo golpeia um pequeno bloco de inimigos próximos. Além disso, ao reunir os inimigos corretamente, a força dos ataques de Mario é aumentada.



Na prática, os embates são pequenos puzzles. Em cada um deles, a intenção é terminar o confronto em um ou dois turnos e, para isso, é essencial solucionar o enigma de organização para receber o bônus de força. Claro, às vezes você não consegue encontrar a resposta dentro do tempo e a batalha continua, porém o combate se arrasta quando precisamos atacar os inimigos individualmente.

No começo, tudo é bem simples (mova um inimigo pra lá, gire outro pra cá), mas rapidamente padrões complicados aparecem. Por sorte, é possível gastar moedas para comprar mais tempo para mover a arena ou para pedir a ajuda de Toads — dependendo da quantia, os simpáticos personagens jogam itens de recuperação ou resolvem completamente o puzzle. O dinheiro, inclusive, é a única recompensa obtida ao vencer as batalhas e ele é um bom incentivo: as moedas são utilizadas para comprar equipamento, itens, serviços e até mesmo ajuda, e tudo é caro no mundo do jogo. Mario ainda se fortalece, mas por meio de itens obtidos pela aventura.


Apreciei bastante a criatividade do combate. É divertido e interessante reorganizar os inimigos em diferentes padrões, e é bem recompensador conseguir solucionar um puzzle aparentemente complicado. Mesmo já habituado a esse tipo de desafio, foram várias as vezes em que eu quebrei a cabeça para resolver a organização de batalhas por causa da complexidade crescente e, em muitas situações, precisei  gastar dinheiro para conseguir ajuda.

Infelizmente, as batalhas cansam rápido por causa de vários motivos. Para começar, a estratégia é rasa e basta repetir os passos de sempre para sair vitorioso. Alguns poucos oponentes exigem ataques específicos, mas o impacto na diversidade é mínimo. Além disso, os puzzles se tornam tediosos, pois os padrões se repetem com frequência e as opções de solução são limitadas. Por fim, a dificuldade é desbalanceada: às vezes, do nada, aparecem enigmas extremamente complicados seguidos de desafios banais. O conceito do combate é interessante, mas a pequena variedade decepciona.


A empolgação estratégica das batalhas contra chefes

Em pontos importantes da trama, Mario enfrenta grandes criaturas em batalhas contra chefes. Nestes embates, as mecânicas são um pouco diferentes: o mestre fica no centro da arena e precisamos manipular o cenário no intuito de fazer um caminho para o encanador. Fora as setas de movimentação, existem também outros painéis de efeitos diversos, como aumentar o número de ações ou ativar a habilidade 1,000 Fold Hundred Arms.

Assim como os combates comuns, as batalhas contra os chefes funcionam como puzzles. Atacar de qualquer jeito não funciona e cada mestre exige uma estratégia distinta para ser vencido — observação e experimentação são essenciais. Ao enfrentar uma caixa de lápis de cor, por exemplo, precisamos acertá-la com o martelo na parte de trás para fechar a sua tampa, o que impede que ela lance mísseis de lápis no próximo turno. Já na luta contra um dragão de água, precisamos elevar o solo no momento certo para escapar de um devastador ataque aquático. Nem sempre o próximo passo está claro, mas o jogo ajuda com algumas dicas espalhadas pela arena.


Gostei bastante da criatividade destes confrontos, pois cada um deles tem conceitos e recursos únicos. Muitos dos ataques dos chefes alteram a arena com perigos ou outras complicações, o que nos força a mudar de estratégia constantemente. Além disso, é impossível não gostar do conceito maluco de alguns chefes que são baseados em objetos de papelaria, como um furador de papel ou um monstro feito de elásticos. Seus temas, inclusive, são explorados durante os combates na forma de mecânicas diversas.

Tanta variedade e momentos absurdamente divertidos fazem com que as batalhas contra os chefes sejam empolgantes. Gostei tanto destes embates que, por mim, metade das batalhas normais poderiam ser removidas e substituídas por mais mestres. Mesmo assim, senti falta de maior desafio: as batalhas, no geral, são fáceis, fora um único chefe que demorei para entender o que tinha que ser feito. Entendo que para alguns seja complicado resolver estes puzzles, mas acho que não custava nada incluir opções adicionais de dificuldade ou até mesmo desafios opcionais mais complicados.


A beleza e a variedade de um mundo de papel

O mundo de The Origami King tem construção fascinante, principalmente por trazer grande variedade de situações e temas. Shogun Studios, um dos meus locais favoritos no jogo, é um parque temático repleto de atrações inspiradas na cultura tradicional japonesa, como “templo de treinamento ninja” e “lançamento de shurikens”, em um misto de exploração e diversão. O imenso deserto Sandpaper intriga com a sua noite perpétua causada pelo sumiço misterioso do sol, sendo um carro com formato de bota o meio de transporte para explorar as ruínas da região. Já o oceano oferece uma grande área explorável com ilhas para descobrir e tesouros submersos para encontrar. Estas situações, em conjunto com inúmeros minigames, fazem com que o ritmo da aventura seja ágil.


Outro ponto que encanta é o belo visual repleto de cenários coloridos e vibrantes feitos de diferentes materiais, como papelão, papel crepom, papel marchê e mais. Até mesmo áreas conceitualmente simples contam com seu charme, como uma montanha outonal com muito laranja e vermelho ou o deserto cujo chão parece um tecido roxo. Fora isso, o jogo brinca constantemente com o conceito de “mundo de papel” com personagens dobrados, enrolados ou amassados de forma realista.

Uma trilha sonora com instrumentos reais dá vida a The Origami King com melodias bem construídas, por mais que nem sempre muito notáveis. Mesmo assim, é possível ver o esmero desprendido para fortalecer a atmosfera de cada lugar. Os temas de batalha são destaque: além de serem empolgantes, seus instrumentos e melodias se alteram para se adequar à área explorada naquele momento. O ponto alto acontece em trechos específicos da trama com cenas que lembram musicais, como árvores dançando depois de Mario ajudá-las ou Olivia cantando durante um ritual no deserto — mesmo sem dublagem, são partes muitos memoráveis.


Uma jornada imprevisível e cômica

Um detalhe que sempre chamou a atenção na série Paper Mario é a ambientação bem humorada que constantemente explora conceitos não abordados nos outros jogos do personagem. The Origami King mantém essa tendência com suas situações leves e divertidas que abusam de piadas e trocadilhos — no meu tempo com o jogo, ri bastante com as várias cenas malucas e personagens inusitados.

Mario é acompanhado por diferentes aliados que, desta vez, funcionam mais como elementos narrativos. Olivia, a origami que ajuda o encanador, é inocente e adorável, mas constantemente se deslumbra com qualquer coisa e se esquece da sua missão de impedir seu irmão. Já Bobby, o Bob-omb desmemoriado, é ácido e sarcástico nos momentos mais inoportunos. Luigi, como sempre, está mais perdido do que todos, por mais que ele acabe ajudando à sua maneira. Até Bowser participa da jornada em sua forma parcialmente dobrada e é engraçado vê-lo tentando ser imponente mesmo sendo praticamente inútil. A trama em si é um pouco previsível, mas os ótimos personagens e algumas surpresas tornam a aventura cativante.

Há todo tipo de momento cômico ao longo da jornada. Em determinado trecho, Mario precisa livrar uma cozinha de Goombas dobrados em pequenas baratas enquanto os funcionários surtam. Durante uma apresentação teatral, o encanador participa como mocinho e até faz par amoroso com Birdo. Por meio de portas escondidas pelo mundo,é possível visitar um café onde vários capangas de Bowser relaxam e conversam, protagonizando conversas divertidas (como um Goomba e um Shy-Guy discutindo quem é o melhor “capanga básico”).


Mas o maior destaque vai para os Toads, que estão espalhados por todos os cantos do mundo. Muitos deles foram transformados em origamis elaborados, como animais e objetos; já outros estão amassados, dobrados ou enrolados, como se fossem de fato papel. O legal é que seus simples diálogos após serem resgatados são muito engraçados e abordam inúmeros temas, como piadas, trocadilhos, reflexões sobre a vida, brincadeiras com sua natureza de papel, referências a jogos e até mesmo memes. É tanta situação maluca que eu fiz questão de ir atrás de todos.

Um desdobramento divertido e viciante

Paper Mario: The Origami King cativa com sua aventura bela, variada e bem humorada. O novo título da franquia de papel do encanador apresenta um mundo elaborado e com grande diversidade de atividades e segredos que nos convida a explorá-lo constantemente. O sistema de batalha, que não passa de um puzzle com cara de combate, tem algumas ideias interessantes, embora muitas limitações o tornam cansativo. Já os embates contra os chefes são criativos e empolgantes. O maior destaque do jogo é seu ótimo senso de humor presente nos eventos inusitados, nos personagens carismáticos e no texto afiado e divertido. Paper Mario: The Origami King pode não ser o RPG que muitos desejavam, mas não deixa de ser mais uma criativa e notável aventura do personagem.

Prós

  • Mundo extenso repleto de colecionáveis e atividades paralelas;
  • Combate contra chefes é empolgante e desafiador;
  • Humor afiado explorado em situações divertidas e ótimos diálogos;
  • Ambientação vibrante com cenários elaborados e trilha sonora com faixas marcantes.

Contras

  • Combate padrão se torna repetitivo com o tempo;
  • Baixa dificuldade e ausência de desafios adicionais mais complicados.
Paper Mario: The Origami King — Switch — Nota: 8.5
Revisão: João Pedro Boaventura
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nintendo
Paper Mario: The Origami King está disponível na Loja Nintendo

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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