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Análise: Bug Fables: The Everlasting Sapling (Switch) e a inerente magia de uma boa fábula

Originalmente lançado para PC em 2019, Bug Fables: The Everlasting Sapling faz jus às referências que possui em uma aventura leve e muito recomendada para fãs de RPGs de turno.

Lembro-me até hoje com carinho e nostalgia do primeiro título indie cuja trajetória acompanhei e que joguei com afinco, ainda no meu saudoso Wii U (o qual infelizmente não funciona mais, graças a cruéis e sucessivas quedas de energia elétrica). Tratava-se de Shovel Knight, clássico moderno da Yacht Club Games lançado em 2014 e que fora desenvolvido com auxílio de uma campanha no kickstarter por veteranos da Wayforward e de outras empresas conhecidas na indústria de games.


À época, confesso que fiquei muito surpreso com o título, que conseguiu capturar perfeitamente a essência de suas influências - alguns dos melhores títulos da geração 8-bit, como Mega Man (NES) e Super Mario Bros. 3 (NES) - e trazê-la para os tempos modernos, adicionando sua identidade própria ao processo. Era algo totalmente novo, porém familiar, quase que como fazer um novo amigo que surpreendentemente gosta das mesmas coisas que você.

Embora não pertençam ao mesmo gênero e não possuam muitas semelhanças diretas, é com segurança e felicidade que relato que obtive uma experiência muito similar com Bug Fables, desenvolvido pela Moonsprout Games e publicado pela Dangen Entertainment. Originalmente lançado para PCs no ano passado, esta pequena grande aventura finalmente chega ao Nintendo Switch e outros consoles, e não deve passar despercebida por nenhum fã de RPGs de turno, especialmente os à la Paper Mario. Sem mais delongas, vamos à análise.

Há muito, muito tempo...

Bug Fables se passa na terra de Bugaria, na qual o Ant Kingdom se estabeleceu há muito tempo graças a uma expedição da bondosa rainha Elizant I. Conforme o reino das formigas prosperava, a rainha descobriu a existência de um tesouro há muito guardado pelos povos antigos - o Everlasting Sapling, uma planta que concederia juventude e força infinitas a qualquer um que comesse uma de suas folhas.

Elizant I dedicou sua vida a procurar o tesouro, mas, infelizmente, nunca o encontrou. Então, antes de adormecer em um sono profundo, ela passou a tarefa para sua filha e sucessora, a princesa Elizant II. Determinada a cumprir o sonho de sua mãe, a nova rainha abriu as portas do reino a todos os insetos, prometendo recompensas generosas a quem lhe trouxesse o Everlasting Sapling.

Assim se formou a Explorers’ Association - Associação dos Exploradores, em tradução livre -, cujos membros procuram por todo o reino pistas do lendário tesouro. Porém, até os dias atuais, ele nunca foi encontrado. Não obstante, muitos insetos sonham em um dia consegui-lo para si próprios.

Vida de inseto

Com o pano de fundo montado, a aventura começa com Kabbu, um simpático e destemido besouro, tentando conseguir sua licença de explorador. O grande problema, porém, é que Kabbu não possui um parceiro, e as explorações são justamente conduzidas por duplas de insetos. Felizmente, Vi, uma jovem abelhinha, também aparece sozinha para se alistar em busca de fama e sucesso. Assim, nessas circunstâncias improváveis, forma-se a nossa dupla protagonista, que decide combinar forças para fazer o que nenhum inseto jamais conseguiu: encontrar o Everlasting Sapling.

Já na sequência inicial, uma das primeiras coisas a chamar a atenção é o visual do jogo: embora o vídeo de abertura lembre o início de obras como Super Mario World 2: Yoshi’s Island (SNES), a direção de arte do título como um todo é claramente inspirada na franquia Paper Mario, como pode ser visto pelas capturas de tela. Na prática, o resultado final é visualmente muito bonito e limpo, especialmente no modo portátil do Switch. 

Ver os personagens, efeitos e pequenas construções do jogo estilizadas como desenhos em papel é algo que, embora não seja inédito no mundo dos games, consegue roubar um sorriso tanto na primeira como na décima quinta hora de jogo, especialmente devido à variação entre os cenários. Bugaria possui cavernas, praças, túneis subterrâneos, construções e monumentos, e a temática de insetos permitiu inclusive que os produtores brincassem com as possibilidades oferecidas. Há uma casa que é uma caixa de papelão improvisada, por exemplo, e uma lesma pode servir como meio fiel de transporte de determinados vendedores.

Assim como a trilha sonora com suas melodias suaves - que não ficariam fora de lugar em um jogo da Nintendo, por exemplo -, tudo possui boa quantidade de detalhes, evidenciando carinho por parte dos desenvolvedores e colaborando na imersão do jogador como um todo.

Pequena grande fábula

Na prática, Bug Fables é um RPG de turnos, o que significa que haverão basicamente dois momentos distintos durante o jogo: exploração e combate. A parte de exploração envolve, como indicado anteriormente, viajar por Bugaria através dos capítulos da história e explorar livremente diversos pontos dos diferentes reinos (há o das abelhas, o das vespas, etc.). 

Aqui é onde muitos RPGs se atrapalham, oferecendo com muita frequência mundos sem vida, marcados por sidequests desinteressantes e personagens sem unicidade ou traços marcantes. Felizmente, não é o caso de Bug Fables. Iniciando pelos próprios Kabbu, Vi e posteriormente Leif - que completa o time -, cada inseto apresentado possui uma história de vida ou personalidade distinta, o que ressalta a singularidade deste pequeno grande mundo fictício.

Em uma das sidequests, por exemplo, a dona de uma pousada está triste por não receber clientes e preocupada se o serviço oferecido está realmente agradando seus clientes. Então, cabe à trupe de Kabbu se candidatar para passar a noite e oferecer uma avaliação sincera da recepção. Por fim, a pequena ação muda totalmente o astral do estabelecimento. Em outra, uma cantora está triste por não conseguir se apresentar no teatro do reino. Ajudá-la trará uma grata surpresa aos amantes de boa música.

Cabe aqui ressaltar que nem todas as atividades secundárias e opcionais trarão recompensas valiosas ou serão substancialmente longas, mas nas palavras do próprio líder besouro em diálogo com Vi, “poder ajudar os outros já é uma recompensa em si” - olha aí uma grande lição para a vida inteira.

Outro ponto em que diversos RPGs costumam falhar é na realização de seu sistema de combate. Felizmente, aqui está mais uma surpresa: as influências de Paper Mario em Bug Fables não se resumem à escolhas estéticas, mas permeiam também o modo de combate do título. Até o ataque principal de Kabbu - usando seu chifre - é extremamente parecido com o martelo de Mario em Paper Mario: The Thousand Year Door (GC), só mudando o botão que deve ser solto no momento certo.

Caso você não seja familiarizado com as aventuras em papel de Mario, basta saber que aqui Kabbu, Vi e Leif terão, cada um, um turno para agir diante dos inimigos que aparecem na tela e uma oportunidade de se defender quando atacados (basta apertar o botão de defesa no momento do golpe). Durante o turno, é possível atacar, usar uma habilidade/item ou transferir sua vez para outro inseto do time. O objetivo, logicamente, é zerar os Hit Points (HP) dos inimigos antes que eles acabem com os seus, e a progressão segue o esquema de experiência e níveis, comum ao gênero.

É um modelo simples, mas divertido, e que oferece diversas abordagens na prática, posto que cada protagonista possui ataques, atributos e habilidades próprias. Kabbu é balanceado e forte, mas não consegue atacar inimigos que estão no ar - Vi deve derrubá-los primeiro para que isso seja possível. Do mesmo modo, Leif não possui muito HP, mas pode congelar inimigos - algo que numa situação apertada pode ser o grande diferencial. 

Outro ponto que me surpreendeu positivamente foi a dificuldade dos combates. Não se deixe enganar pelos visuais fofinhos de Bug Fables. Batalhas, especialmente as contra chefes, podem ser realmente desafiadoras, de modo que é sempre bem-vindo estocar itens de cura e reanimação e pensar com calma a melhor forma de abordar um inimigo que não está sozinho. Como um jogador que gosta de certa dose de desafio em seus RPGs, me senti em casa, mas não se assuste caso você goste de aventuras mais tranquilas: nada aqui é injusto ou fruto de uma dificuldade que se apoia em métodos artificiais para existir.

No entanto, para aqueles que curtem um desafio ainda maior, logo no início do título você recebe uma medalha que permite aumentar o nível de dificuldade dos inimigos, que em troca rende mais experiência e itens melhores ao fim das batalhas. Palmas para a Moonsprout Games, que optou por não alienar os jogadores mais hardcore - inclusão de verdade deve abranger todos os perfis, afinal. Ah, se certas franquias da Nintendo, como Pokémon, fizessem o mesmo.

A trilha e o caminho

Considerando todos os aspectos individuais e o conjunto da obra, Bug Fables certamente é uma obra distinta que faz jus às influências marcantes que carrega em suas costas. Confesso que não esperava muito do jogo e, ao seu término, não posso ter outra atitude senão alçá-lo ao panteão dos grandes jogos independentes, do qual já fazem parte clássicos modernos como Hollow Knight (Switch), Cuphead (Switch) e o já referido Shovel Knight.

Jogá-lo no Switch é ainda mais prazeroso pelo fato da aventura e de seus sistemas internos combinarem com um dispositivo portátil. É possível progredir no jogo mesmo em pequenos intervalos de tempo, como com uma rápida exploração ou alguns inimigos derrotados. Junta-se a isso uma conversão impecável, na qual os únicos bugs encontrados serão os que já fazem parte de Bugaria (entendeu?), e aqui há uma sonora recomendação.

Logicamente, não é um jogo perfeito - para o nosso público em específico, a ausência de tradução para português brasileiro é especialmente notável, e há uma série de ideias que podem ser implementadas em uma eventual sequência, como a possibilidade de montar e customizar uma party livremente. Além disso, as seções de plataforma durante explorações por vezes são mais imprecisas que o padrão. Felizmente, não é possível “morrer” nelas. Mas aqui há uma aventura que merece ser explorada com carinho por todo fã de RPGs de turno carismáticos e jogos independentes. 

Caso você se enquadre em uma dessas categorias, repito o que disse no início: é quase que como fazer um novo amigo, que surpreendentemente goste das mesmas coisas que você. E, convenhamos, quem não gosta de fazer novos amigos?

Prós

  • Direção de arte agradável, inspirada em Paper Mario;
  • Mundo e personagens altamente carismáticos;
  • Sistema de combate divertido, que oferece desafio sem ser injusto;
  • Conteúdo opcional, incluindo Boss Fights;
  • Adaptação técnica impecável.

Contras

  • Sem suporte a português brasileiro;
  • Seções de plataforma durante a exploração podem ser imprecisas.
  • Diálogos no início da aventura podem ser longos demais.
  Bug Fables: The Everlasting Sapling - Switch/PC/PS4/Xbox One - Nota: 9.0 
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Vladimir Machado
Análise produzida com cópia digital cedida pela Dangen Entertainment

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.


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