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Análise: Spiritfarer oferece um abraço quentinho para o seu Switch

O indie da Thunder Lotus Games não apenas diverte, mas transborda beleza em suas imagens, sons e mensagens.



Após dois interessantes títulos que se destacam pelo visual de primeira, Sundered e Jotun — o primeiro game que analisei aqui no Nintendo Blast —, os franco-canadianos da Thunder Lotus Games complementam sua tríade dos gráficos maravilhosos com a surpresa indie do ano; Spiritfarer, o autoproclamado “jogo de gerenciamento de recursos sobre morrer”.

Grande parte da jogabilidade se assemelha ao gênero que eu chamo carinhosamente de “fazenda” — como Stardew Valley ou Harvest Moon. Mas Spiritfarer, aliado com diversos elementos de jogos de plataforma, coloca o seu gerenciamento de recursos em meio à uma narrativa integralmente bela, tanto em seu conteúdo quanto nos seus estupendos gráficos e incrível trilha sonora.

Barqueiro de espíritos

Talvez muitos já estejam familiarizados com a imagem de Caronte, o barqueiro de Hades. A figura da mitologia grega atuava como um guia para os recém-mortos durante sua viagem de barco entre os mundos. Logo no início de Spiritfarer, Stella, a protagonista, é designada para uma função similar apropriadamente chamada de spiritfarer (algo como um “navegante dos espíritos”). O velho detentor da função decide se aposentar sem muitos detalhes, e entrega uma esfera mágica para cada um dos novos barqueiros das almas. No caso, Stella e seu gatinho, Daffodil — que pode ser controlado por um segundo player em modo co-op.

Não demora até que você inicie a grande aventura desbravando o mar do mundo dos espíritos. Como meio de transporte, dessa vez os barqueiros de almas não velejam em uma pequena canoa, como no conto de Caronte. O barco que cai nas mãos de Stella é gigantesco e começa com o espaço equivalente a um pequeno vilarejo. Eventualmente, enquanto você adiciona elementos como espaços para plantação, cozinha, galinheiro, moinho, fornalha e, principalmente, casas para os espíritos passageiros, o barquinho termina parecendo uma verdadeira cidade em alto mar.



Dentro do barco, os espíritos recrutados desempenham diversas funções. Ao mesmo tempo que eles assumem o papel de pets virtuais, requerendo atenção, comida e abraços calorosos de tempos em tempos, os espíritos compartilham valorosos ensinamentos sobre novas mecânicas de jogo e memórias sinceras sobre suas vidas.

O loop do gameplay funciona assim: você conhece um espírito em alguma ilha, faz o que ele pede para recrutá-lo (uma missão como pegar certo item/falar com certa pessoa ou ir a algum lugar) e recebe uma esfera especial quando ele se junta ao barco — que serve para fazer upgrade nas habilidades de plataforma de Stella, como usar pulo duplo ou planar utilizando o chapéu como um balão. Nesse momento, o espírito se torna um integrante da sua tripulação por um tempo; que retribui o seu carinho e cuidado com atividades pré-determinadas, como ajudar na coleta de recursos ou com as atividades dos prédios da embarcação.

Cada espírito pede por um lugar para viver dentro do barco, na forma de uma casa personalizada que requer recursos específicos para ser construída — de maneira similar, após entregar a casa, é preciso montar três upgrades para o interior do novo lar, como móveis e objetos de decoração. 



Durante esse tempo de procura por minérios, madeira e itens mágicos para completar essas casas, você estará explorando um vasto mapa com um punhado de ilhas, muita água e alguns eventos semi-aleatórios de coleta de recursos (destravados por espíritos específicos). E depois de ouvir algumas histórias pessoais de seus convidados, passar um tempo agradável em sua companhia e completar as quests de cada um, eventualmente chega o inevitável adeus.

Apesar do sabor amargo da despedida de um dos seus novos amigos, os espíritos sempre deixam para trás uma flor espiritual que é essencial para outro grupo de upgrades, as melhorias do barco. É possível fazer três tipos de upgrades para sua embarcação: deixar o barco maior; subir o nível da mesa de projetos, liberando novos tipos de prédios para construir; e, por último, aumentar a velocidade total do barco e destravar outros percursos do mapa — deixando que o barco quebre paredes de gelo, destrua bloqueios de pedra ou navegue dentro da névoa pesada.



A impressão inicial que Spiritfarer passa é a de um grande mundo aberto, misterioso e cheio de caminhos possíveis. Isso até que é verdade em partes, mas a realidade do jogo é uma história mais linear que precisa ser seguida quase à risca para que você vá em frente no seu progresso. Em termos de jogabilidade, o objetivo central do título é a coleta constante de recursos diferentes; e, em várias momentos, você irá precisar de certos espíritos específicos para ativar eventos e conseguir determinados recursos, das esferas que os espíritos entregam para melhorar suas habilidades, ou das flores que eles deixam para trás quando atravessam dessa para melhor.

É possível explorar livremente até certo ponto, mas no final você será refém da
"coleta" de espíritos — que é, na maior parte, bastante linear — para continuar o progresso da narrativa. Isso não é ruim de forma alguma, apenas contém as possibilidades do título em um universo mais limitado. Honestamente, creio que a escolha foi correta para que a jogabilidade do game não ficasse muito repetitiva e maçante. 

Você tem a liberdade de passar bastante tempo com Spiritfarer, e será possível fazê-lo de algumas formas diferentes, mas alguma hora, assim como toda a premissa do jogo, chega a hora de se despedir.

Que tal um abraço?

Spiritfarer não é um jogo perfeito, especialmente no Switch. Comparando com a versão de PC, por exemplo, os gráficos ficam devendo um pouco. Adicionalmente, slowdowns repentinos de queda de FPS e travamentos completos do jogo (com direito a erro do Switch) aconteceram durante minhas jogatinas — por sorte há um sistema de autosave, e nunca cheguei a perder muito progresso. Por fim, um ponto que incomoda são os numerosos e longos loadings presentes em processos rotineiros do gameplay, como entrar e sair do barco ou dormir e acordar para o novo dia.



Complementando os poucos pontos negativos, acredito que algumas opções de "qualidade de vida" poderiam ter sido implementadas. Há um sistema de fast travel entre certos locais do mapa, por exemplo, mas o processo de velejar até o ponto desejado, sair da sala do mapa para falar com a foca que faz o translado, e então velejar novamente até onde você quer ir fica bem cansativo em pouco tempo. Além disso, é impossível ler o nome das cidades do mapa ou conferir qualquer outra informação enquanto você está dentro da tela de seleção da foca-táxi. Perto do final do jogo, em vez de passar pelo enrolado processo da foca, decidi que era melhor deixar o barco percorrer o seu caminho — mesmo que muito mais longo.

Outro elemento frustrante que poderia ser um pouco diferente é o livro de receitas dentro da cozinha. É necessário buscar receitas particulares em vários momentos durante o jogo, e não há absolutamente nenhuma forma de filtrar e procurar receitas ou ingredientes na lista geral. O processo com certeza poderia ser bem mais fácil e agradável com algumas pequenas adições na interface do menu. 



Por outro lado, Spiritfarer conta com muitos acertos. Começando pelo gameplay; o específico híbrido de "simulador de fazenda" à la Harvest Moon, com um toque de exploração marítima estilo Zelda: The Wind Waker e um esqueleto de um bom plataforma sidescroller simplesmente funciona. Como fã de jogos de gerenciamento de recursos, eu nunca havia experienciado nada exatamente como Spiritfarer — e a surpresa inicial me pegou de jeito. Assim que comecei o game, foi extremamente difícil parar de jogá-lo por um bom tempo.

Após o período do fascínio inicial, a fórmula eventualmente cansa um pouco, é claro. É possível também que alguns achem o game um tanto lento e enrolado de forma geral. No entanto, o ritmo de novos recursos, locais e mecânicas é saudável e variado o bastante para prender você sem muita dificuldade até o final da aventura. Minha recomendação é seguir um ritmo mais lento durante seu tempo com Spiritfarer. Converse com todo mundo que aparecer — os diálogos, tanto de NPCs aleatórios quanto dos espíritos passageiros são sempre cheios de vida e personalidade — e, se possível, saboreie cada mecânica inédita, cada ilha inexplorada e cada abraço demorado. 



Um abraço pode ir muito longe, e Spiritfarer deixa isso claro desde o começo. Do espírito mais terno ao mais carrancudo, todos estão dispostos a abraçá-lo por uma quantidade totalmente apropriada de tempo. Os abraços do jogo são lentos, demorados e oferecem um verdadeiro respiro no meio das mil e uma atividades que vão se acumulando no dia a dia dentro do barco. A maestria desse encontro entre o frenesi de itens colecionáveis e momentos ternos de calmaria realmente é um feito digno de aplausos. Sem falar que os gráficos e os sons, com todas as suas forças combinadas, parecem sempre querer fazer você sorrir — ou, no mínimo, apreciar certas cenas primorosas.

A arte dos personagens e dos cenários parece ter sido cuspida diretamente de um livro infantil maravilhoso, e logo animada por um sopro divino de delicadeza. Há muito cuidado nos detalhes de Spiritfarer, tanto nos gestos dos seres vivos quanto em elementos como a paleta de cores de certos cenários. O tempo passa e um background que pode deslumbrar você durante a manhã do jogo, talvez seja ainda mais surpreendente durante o lusco-fusco do entardecer.

Lugares místicos e etéreos encontram paisagens paradisíacas e tudo sempre impressiona. A beleza visual tão única do título não passa despercebida por ninguém, desde a sua avó até uma criança de dois anos de idade. 



É preciso admitir quando o som de uma obra consegue casar de forma perfeita com a sua parte visual — e Spiritfarer alcança esse façanha. Os abraços, por exemplo, não são apenas longos e delicados visualmente, mas até o som dos personagens expressa isso de forma ideal. Todos os barulhos parecem soar acompanhados por uma marca própria. Sons como o estridente tilintar dos sinos da manhã, o grunhido de felicidade dos passageiros recém abraçados e até o frágil chiar do vento passando enquanto carrega a embarcação ficam facilmente marcados na memória.

A música também, embora não apresente uma variedade tão grande de faixas, acerta em cheio no sentimento dos locais e acontecimentos. Às vezes a trilha assume a forma de um conjunto de notas calmas e sóbrias de um piano à beira mar ou encarna o silêncio atmosférico de alguma ilha deserta. E em outros momentos há uma intensidade de sopros e cordas cheios de tons e sabores diversos durante atividades mais intensas ou locais muito agitados.



Em resumo, este é um jogo sobre coletar uma tonelada de recursos em ritmo frenético e explorar um vasto mapa resolvendo quests e mais quests, mas da mesma forma também é um ensaio bonito e singelo sobre despedidas. Um lindo conto agridoce sobre a vida e a morte. Spiritfarer fala de amor, carinho, despedidas, dores, inseguranças e recomeços de um jeito que não vemos muito no mundo dos videogames. E o melhor de tudo é que essa bela história acontece dentro de um jogo legitimamente inovador, divertido e bem-feito. Não perca tempo, Spiritfarer é um dos melhores jogos do ano para o Switch.

Prós

  • Jogabilidade legitimamente inovadora e divertida;
  • Gráficos e animações maravilhosas;
  • Parte sonora primorosa;
  • História bonita e envolvente;
  • Modo co-op opcional.

Contras

  • Alguns problemas de performance: slowdowns e travamentos;
  • Loadings longos e menus incompletos ou pouco otimizados às vezes;
  • Gameplay pode parecer lento e enrolado para algumas pessoas.
Spiritfarer - Switch/PC - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch 
Revisão:  Felipe Fina Franco
Análise produzida com cópia digital cedida pela Thunder Lotus Games

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.


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