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Análise: Ikenfell (Switch) une o mundo da magia a uma linda atmosfera retrô

O título traz de volta a magia dos RPGs antigos e aposta forte no seu peculiar sistema de combate.




Todo mundo é bem familiarizado com a premissa de uma escola de magia com alunos vivendo altas aventuras e se metendo em tremendas confusões, certo? Desde a série de livros e filmes de Harry Potter, é normal que millennials e a galera da geração Z fantasie com a chance de fugir da sua vida mundana cheia de problemas e boletos e escapar para um mundo mágico que transborda possibilidades.

A cultura pop vem reaproveitando essa ideia da "escola de magia" há um bom tempo — um dos melhores exemplos mais recentes para mim é o fantástico anime do estúdio Trigger, Little Witch Academia, disponível no Netflix — e não será tão cedo que filmes, livros, séries e, é claro, videogames, irão parar de se aventurar por esse ambiente da magia escolar. Ikenfell existe totalmente dentro desta premissa. A história desse indie da Happy Ray Games se passa por inteiro dentro da escola de magia homônima e resgata um visual estilo Game Boy Color que até lembra os antigos RPGs licenciados do próprio bruxinho de Hogwarts.

Uma aventura mágica pela escola Ikenfell 

O jogo começa com a solitária jornada de Maritte em busca de sua irmã mais velha que está desaparecida, Safina. O primeiro passo dessa jornada é atravessar a floresta mágica que circunda a escola Ikenfell, onde Safina vivia e aprendia sobre magia no maior estilo Harry Potter. Enquanto ela é apresentada como um prodígio sem igual na arte da magia, sua irmã mais nova nunca foi capaz de utilizar um feitiço sequer.

Após ser derrotada por espíritos guardiões da famosa escola, Maritte de repente desperta poderes mágicos do elemento fogo, algo que definitivamente não costuma acontecer no mundo de Ikenfell. A repentina descoberta das habilidades especiais da protagonista atua também como um conveniente tutorial para que o próprio jogador entenda como a magia funciona. Junto com Maritte, entramos nessa interessante realidade de um RPG com foco em batalhas que não apresenta a famosa barrinha de MP, ou magic points.




Assim como em diversos RPGs antigos, o combate leva os personagens para uma realidade alternativa com menus específicos, gráficos mais claros e uma movimentação completamente diferente do mundo normal do jogo. Em um grid 12x3, as batalhas aqui misturam elementos tradicionais de RPGs táticos, nos quais a movimentação é parte essencial, com o pressionar preciso de botões durante os momentos de ataque e defesa, assim como em Super Mario RPG ou nos títulos da série Paper Mario.

Ao contrário de grande maioria dos outros títulos do gênero, no entanto, o combate de Ikenfell decidiu ignorar os pontos de magia e focar nessas outras mecânicas citadas acima. Não existe um ataque físico "normal" que não gasta magia, aqui todos as habilidades disponíveis são mágicas. As limitações se encontram no range extremamente específico de cada ataque — que pede por uma movimentação constante dos personagens — e na sua habilidade de lembrar o timing preciso de apertar o botão, aproveitando o máximo de dano de seus ataques e otimizando ao máximo a sua defesa.




O que acontece é que nenhum confronto do título é simples ou fácil em nenhum momento. Sempre será necessário algum esforço e uma atenção redobrada para você seguir em frente, até durante as batalhas mais "mundanas" contra pequenos inimigos. Tirando a parte da história, sobre a qual eu falarei mais em frente, o foco do gameplay do jogo claramente é o seu combate, então não é necessariamente ruim que toda batalha seja mais difícil; porém, o processo se torna algo cansativo após um certo tempo. Jogar Ikenfell, em contraste com seu fantástico visual e trilha sonora, passa longe de ser relaxante.

Todos os ataques, não só os de Maritte, mas também os da sua party (que inclui até dois outros personagens simultâneos) e os de cada um dos inimigos, possuem janelas de tempo bem específicas para você ativar suas melhores formas pressionando o botão na hora correta. Isso inclui todas as habilidades, não apenas as que causam dano, mas curas e buffs também. Além disso, os personagens recebem cada vez mais habilidades únicas com o tempo e, adicionalmente, uma mecânica de armadilhas também é implementada — em que é preciso tomar cuidado constante em onde você pisa dentro da batalha.


Quanto aos personagens, embora apenas três possam ser escolhidos em combate de uma vez, um interessante elenco de seis é reunido durante a história, que, por sinal, com certeza é um dos pontos fortes do jogo. A jornada de Maritte em busca da sua irmã conta com vários flashbacks pontuais que, aos poucos, revelam um pouco mais sobre a vida de Safina dentro do campus de Ikenfell. Além do mais, graças à personalidade extremamente agitada e exagerada da bruxa prodígio, várias pessoas acabaram sendo diretamente afetadas por suas ações de uma forma ou de outra, e ela conhece toda essa gente durante seu caminho.

Há vários diálogos em Ikenfell e eles são ótimos. Os personagens possuem personalidades claras (e bem carismáticas) que criam vida por meio dos fantásticos "retratos" em pixel art que acompanham as falas, típico de RPGs clássicos. É sempre interessante conhecer um personagem novo, ver como Safina influenciou essa pessoa e, muito provavelmente, esperar que ele entre na sua party. Neste ponto, no entanto, se encontra um grande problema do jogo.


Com uma estrutura separada em capítulos — e com as batalhas "roubando" quase 100% do foco do gameplay em si —, Ikenfell tende a ficar repetitivo e formulaico. Desde o começo até as partes finais, o loop do gameplay segue mais ou menos assim: você derrota um punhado de inimigos, conhece algum personagem novo, conversa um pouco por aí, vai até uma nova área dentro da escola, enfrenta um boss e ganha um novo amigo para sua equipe. Esse processo, aliado à dificuldade crescente das batalhas simples, faz com que a jogatina se torne cansativa demais em certas horas.

Não existe qualquer tipo de "teste" ou penalidade caso você queria escapar de algum confronto, sempre será possível fugir. E comecei a escolher esse caminho cada vez mais ao longo da aventura, com a única penalidade real sendo ficar um pouco atrás na coleta de XP. Me parece um problema, no entanto, que um jogo que claramente coloca a maior parte dos seus esforços por trás de sua particular mecânica de batalha falhe em manter esse processo interessante até o final. Quanto aos confrontos com chefões, esses são bastante divertidos em todos os momentos, mas os inimigos pequenos ficam difíceis e enrolados demais de se derrotar.


Há grandes pontos positivos além da história e (na maior parte) do inovador sistema de combate, principalmente os gráficos em pixel art e a trilha sonora. O jogo adota o visual Game Boy Advance com vontade e nem ao menos possui uma alternativa de dimensionamento em 16:9, apenas 4:3, ou melhor, nada de widescreen. A escolha funciona e o mundo retrô de Ikenfell, embora lembre de imediato o GBC, é muito mais bonito e cheio de detalhes que um simples título do velho portátil. O overworld mantém o visual em uma simplicidade prática que não exagera nos seus elementos, mas mantém a delicadeza — provavelmente para ressaltar as ótimas animações mais detalhadas durante os combates.

Andando de mãos dadas com os gráficos, a música é uma bela surpresa desse indie sobre estudantes de magia. As composições são originais criadas por músicos colaboradores do desenho Steven Universe do Cartoon Network, e não é difícil perceber certas similaridades. As músicas reúnem o que há de melhor em ambientação e inovação em trilhas retrô de videogames, cheios de efeitos específicos, assobios e até vozes. É difícil pensar que a experiência seria a mesma experiência sem essa fantástica trilha sonora. 


Fãs de RPGs à moda antiga, apreciadores de Harry Potter e outros ambientes mágicos escolares, e entusiastas por jogos retrô em geral com certeza irão apreciar Ikenfell. Infelizmente, alguns pontos impedem o título de se tornar realmente imperdível ou extremamente memorável. Os maiores problemas são a estrutura da narrativa e o desafio crescente meio desequilibrado dos confrontos, mas o pacote geral agrada em diversos pontos, como seu visual e trilha sonora descolada, história marcante e sistema de batalha único. 

Prós

  • História ótima com vários personagens interessantes e cheios de personalidade;
  • Sistema de combate único que une movimentação tática e o apertar de botões em momentos precisos;
  • Adoráveis gráficos e animações pixel art;
  • Agradável trilha sonora original de compositores do desenho Steven Universe.

Contras

  • Estrutura narrativa e de progressão formulaica e repetitiva;
  • A complexidade do sistema de batalha eventualmente transforma as lutas mais simples em longos e cansativos confrontos.
Ikenfell - Switch/PC/PS4/XBO - Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: Switch 
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Humble Games

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.


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