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Análise: No More Heroes 2: Desperate Struggle (Switch) — nem tudo de antigamente era melhor

A sequência do polêmico e clássico jogo do Nintendo Wii dá continuidade ao humor absurdo de seu antecessor.

É muito comum associar elementos do passado a boas lembranças, ou em outras palavras, nostalgia. No entanto, será que tudo era melhor antigamente? No More Heroes 2: Desperate Struggle pode ser um ponto contra esta máxima popular. O jogo, lançado originalmente há dez anos para o lendário Nintendo Wii, é um dos mais controversos e polêmicos da plataforma. Se por um lado sua jogabilidade e sistema de combate foram muito elogiados, por outro, o humor pastelão pode causar desconforto em quem joga. É fato que ele marcou presença na geração do Wiimote, mas será que envelheceu bem?

Uma corrida por vingança

A história de No More Heroes 2 se passa três anos após o final do seu antecessor. O início é bem direto e já começa com um combate contra Skelter Helter, que busca vingança contra o protagonista, Travis Touchdown, por ele ter assassinado seu irmão mais velho no passado. A luta é insana e já mostra como a jogabilidade funciona, servindo como um rápido tutorial. Após derrotar o adversário de forma arrasadora, Travis encontra a agente da United Assassins Association, Sylvia Christel, que o informa que ele está no Rank 51 da organização de assassinos.

A apresentação e o diálogo são recheados de insinuações eróticas entre os dois personagens, o que é uma das coisas que envelheceu muito mal neste jogo, mas vamos abordar isso mais adiante. De repente, a conversa é interrompida pelo Skelter Helter, o assassino de outrora que havia sido derrotado. Ele avisa a Travis que será vingado pelos seus comparsas e deixa de viver após dizer isso.




Na mesma noite, um grupo de criminosos mata Bishop, o melhor amigo de Travis, e joga sua cabeça pela janela da casa do protagonista em um saco de papel. Furioso e em busca de vingança, Travis pede ajuda para Sylvia, que diz a ele que quem ordenou o assassinato foi Jasper Batt Jr., o CEO da Pizza Bat e assassino Rank 1 da UAA. Para vingar seu amigo, o nosso anti-herói terá que derrotar todos os criminosos que estão acima dele na classificação até chegar no primeiro colocado.

O enredo é bem simples, mas se encaixa muito bem. Acontecem diversas cenas absurdas entre um capítulo e outro, tornando a narrativa dinâmica e interessante. Porém, a história perde seu brilho quando tenta apelar para a sensualização exagerada, objetificando o corpo feminino de forma desnecessária e cafona. Além disso, o excesso de violência torna o humor forçado em alguns momentos, ou em outras palavras, cringe.

Talvez, com muitos talvez, esse tipo de narrativa era considerada adulta e aceitável na década de 2000, mas tornou-se inadequada para os dias de hoje. Há várias formas de fazer humor non-sense em games sem precisar apelar para o machismo. Temos excelentes exemplos na atual geração, como Sunset Overdrive (XBO) e Dead Island (Multi), que satirizam a violência e quebram a quarta parede sem apelar para este artifício.



Sangue nos olhos

Se por um lado a narrativa de No More Heroes 2 possui elementos que a tornam obsoleta, por outro, a jogabilidade dele continua interessante, já que ela traz duelos rápidos e divertidos que podem ser aproveitados a qualquer momento. Aliás, a proposta arcade do jogo casa muito bem com a portabilidade do Switch, porque os estágios duram menos de 10 minutos em média, sendo bem acessíveis durante uma viagem ou enquanto você está na fila do banco.

O sistema de combate é simples, mas profundo o suficiente para manter o jogador interessado. Junto a isso, há diversos power ups que diversificam ainda mais a jogatina. Em certas ocasiões que dependem da sorte ou quantos inimigos você derrotar, é liberado um especial que faz o tempo passar em câmera lenta ou até mesmo transformar Travis em um tigre.

Entre um estágio ou outro é possível explorar o apartamento de Travis e ter uma vida típica de um solteirão adulto: jogar videogame, assistir animes, brincar com o gato, etc. Além disso, nas horas vagas, você pode treinar na academia para aumentar a sua agilidade ou pontos de vida. Uma melhoria em relação ao primeiro jogo da série é que removeram o mundo aberto, tornando as viagens entre os locais da cidade mais rápidas e práticas, já que não haviam muitos incentivos para explorar as ruas de Santa Destroy.




Nem o maior assassino da United Assassins Association consegue viver sem dinheiro, portanto, é necessário trabalhar em No More Heroes 2. Ainda bem que os empregos são muito divertidos, pois são minigames em 8 bits que oferecem um gameplay simples e descontraído. Aliás, o jogo inteiro possui referência aos videogames clássicos, desde a interface dos menus, até os efeitos sonoros. Logo, a personalidade é um dos principais pontos fortes do jogo.

Falando em personalidade, uma das mecânicas mais legais do lançamento original de Wii foi mantida: os controles por movimento. Jogando com os Joy-Cons separados, eles assumem com precisão o papel dos clássicos Wiimote e Nunchuck, elevando a diversão para um outro nível. Entretanto, os comandos tornam-se imprecisos em alguns momentos, mas foram raras às vezes que isso atrapalhou o gameplay. De qualquer forma, ainda é possível terminar a campanha principal inteira apenas com o Pro Controller, sem precisar mover um músculo.

É imprescindível citar a melhoria mais notável deste port: os gráficos. A resolução do jogo e de todas as texturas ganharam um aumento de qualidade, para se adequarem aos padrões da atual geração de videogames. Porém, não houve mudanças na modelagem dos personagens ou de quaisquer outros objetos, mas mesmo assim o jogo ficou visualmente bonito. Até porque o visual cartunesco é artístico, ultrapassando a barreira da limitação técnica do Wii e adaptando-se muito bem aos dias de hoje. Eventualmente ocorreram quedas de quadros por segundo, principalmente em telas de carregamento. Não chegam a atrapalhar a jogabilidade, mas são notáveis.



Rock 'n' Roll Baby!

Todo bom show precisa de boas músicas, e No More Heroes 2 cumpre esse requisito com louvor. A trilha sonora é sensacional e certamente adicionarei algumas faixas à minha playlist de músicas favoritas. A competência da soundtrack não se limita a apenas um gênero, já que ela varia do pop ao hard rock e funciona perfeitamente em cada situação em que é aplicada durante a jogatina.

No More Heroes 2: Desperate Struggle possui diferenciais que o tornam único, mas os diversos elementos de sua narrativa são datados e podem não agradar a todos os jogadores. Sua proposta arcade casa muito bem com a portabilidade do Switch, junto a isso, os gráficos renovados e os controles por movimento tornam o port para o híbrido a experiência definitiva — deixando a versão de Nintendo Wii totalmente obsoleta.

Prós

  • Gameplay muito carismático e cativante;
  • Sistema de batalha bem elaborado;
  • Gráficos em alta resolução;
  • Trilha sonora sensacional.

Contras

  • Narrativa rasa;
  • Parte da abordagem humorística envelheceu mal;
  • Pontuais queda de quadros por segundo;
  • Controles de movimentos falham eventualmente.
No More Heroes 2: Desperate Struggle — Switch — Nota: 8.0
Revisão: Vladimir Machado
Análise produzida com cópia digital cedida pela XSEED Games

Fã de The Legend of Zelda e SMT: Persona. Entusiasta por videogames e também fala sobre videojogos no Twitter.


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