Jogamos

Análise: The Last Blade: Beyond the Destiny (Switch) é uma ótima adaptação portátil da série de luta

O título da série NeoGeo Pocket Color Selects surpreende com mecânicas bem trabalhadas e bastante conteúdo.


Muitos talvez não estejam familiarizados com The Last Blade, uma franquia de luta da SNK que surgiu nos sistemas Neo Geo. O conceito de combates com armas brancas lembra Samurai Shodown, mas os títulos se destacam com sua temática diferenciada, visuais e música estonteantes, e mecânicas ágeis. The Last Blade: Beyond the Destiny, uma adaptação que combina conteúdo dos dois jogos principais, foi lançada no portátil colorido da SNK em 2000 e é bem competente, levando em conta as limitações do console. Agora, 20 anos depois, o título chega a outra plataforma via NeoGeo Pocket Color Selection, trazendo uma ótima oportunidade de conhecê-lo.

Destino e confrontos em um Japão em transição

A trama de The Last Blade usa elementos da mitologia oriental e se passa durante o período Bakumatsu, era de transição em que o Japão aboliu sua política de isolamento do restante do mundo. A população precisa se adaptar às mudanças e aos estrangeiros recém-chegados e, para piorar, estranhos eventos assolam o país. A origem dos acontecimentos peculiares parece ser o enfraquecimento de um selo mágico que deveria impedir a abertura dos portões do inferno — entidades malignas vão fazer de tudo para atravessar o portal. Alguns indivíduos sentem as perturbações e decidem tentar impedir o pior, resultando em inúmeros conflitos.

É inevitável não lembrar de Samurai Shodown, mas The Last Blade tem vários méritos próprios. O sistema de combate é ágil e acelerado, com um botão dedicado a um movimento de aparar golpes — se utilizado no momento certo, o rumo da batalha muda completamente. Além disso, a ambientação na era Bakumatsu dá um ar diferente ao jogo com alguns aspectos ocidentais, como a belíssima trilha sonora com pianos e cordas, e as várias dramáticas cenas de história. Por fim, o visual impressiona com gráficos 2D pixel art elaborados, além de cenários ricos e dinâmicos.

Beyond the Destiny adapta The Last Blade 1 e 2 em um único jogo. Lutadores de ambos os títulos estão presentes na versão portátil, já o sistema de luta é baseado no de The Last Blade 2. Cada personagem tem três gradações de ataques com a arma, que são ativados de acordo com o tempo em que o botão A é pressionado: um toque rápido executa um movimento fraco, segurar o comando desfere os golpes fortes. Já chutes e o movimento de aparar podem ser feitos ao pressionar o botão B. É impressionante como conseguiram condensar tantos movimentos em dois únicos botões e, surpreendentemente, funciona muito bem.

Outra característica marcante de The Last Blade que também está presente em Beyond the Destiny é a variação de estilo de luta, que é selecionado antes dos embates. No Power, o personagem é mais forte e lento, além de ter acesso a ataques exclusivos. O Speed foca em agilidade, o que permite executar sequências de golpes com facilidade ao custo de menor dano. Por fim, o EX combina características dos dois estilos, mas a defesa do combatente e o preenchimento da barra de especial são dramaticamente reduzidos. O combatente muda sensivelmente de acordo com o estilo escolhido, e entender as nuances é parte da diversão.

Experiência simplificada, mas ainda intensa

Beyond the Destiny consegue reproduzir a experiência geral de The Last Blade, mesmo com algumas limitações técnicas. O principal apelo da série é seu combate ágil e técnico, que tem como cerne sobre saber ler o oponente e reagir de acordo, afinal muitos dos golpes são bastante poderosos e errar pode custar caro. O sistema de repelir traz dinâmicas interessantes capazes de mudar o rumo do combate: é muito empolgante conseguir repelir um ataque complicado e revidar com sequências de ataques.

A versão portátil consegue passar essa sensação, mesmo que em escala menor. O ritmo dos embates é ágil e ainda há reviravoltas constantes por causa de um ataque aparado na hora certa. Claro, não é tão fluído quanto as versões maiores e a ação é mais lenta e cadenciada, mas funciona. Alguns comandos não são tão precisos, e certas sequências são um pouco chatas de executar, mas com o tempo aprendi a contornar essas limitações.

É notável também a diversidade de personagens. Kaede tem movimentos balanceados e versáteis; Moriya prefere golpes lentos que podem ser combinados em diferentes sequências; Lee é especializado em chutes aéreos e esquivas; o ninja Zantetsu lança shuriken e se teletransporta pelos cenários; a espadachim Hibiki usa sua katana para desferir cortes rápidos e precisos. 16 lutadores, cada qual com três estilos de luta, oferecem grande variedade — gostei bastante de aprender suas particularidades.
 
Um ponto que incomoda é a dificuldade desbalanceada. Na configuração padrão, algumas batalhas são fáceis a ponto de serem banais, já outras são extremamente difíceis. O último chefe, em especial, conta com alguns movimentos extremamente poderosos capazes de infligir 60% de dano ou mais. Isso, em conjunto com a fluidez reduzida, resulta em momentos frustrantes.

Muito conteúdo em uma versão produzida com esmero

The Last Blade: Beyond Destiny surpreende com a sua quantidade de conteúdo, mesmo sendo uma adaptação portátil. O jogo tem quatro modos principais: Story, Survival, Time Attack e VS. O modo história, em especial, é bem interessante: a primeira partida retrata os acontecimentos de The Last Blade, já a segunda campanha cobre os eventos de The Last Blade 2. Sendo assim, eventualmente ele se transforma lentamente na sequência, com direito a alteração da animação de abertura.

Jogar qualquer uma das modalidades rende pontos, que podem ser utilizados na Galeria. Lá, é possível desbloquear informações sobre os lutadores, detalhes da história, finais, lutadores adicionais e outros extras. Um recurso interessante é a possibilidade de equipar pergaminhos que alteram características dos combatentes, de maneira similar às cartas de Samurai Shodown! 2. Há também dois minigames: um de baseball com Juzoh e Akari, e uma espécie de dodge ‘em up vertical estrelado por Mukuro. Esses joguinhos são simples, mas divertem.

Visualmente o título conta com gráficos pixel art similares aos outros títulos de luta da SNK lançados para o Neo Geo Pocket. Os personagens são retratados no estilo chibi, ou seja, com cabeças maiores que o corpo e muitas expressões faciais, mas feito de tal maneira para não ficar cômico demais — parte da seriedade dos jogos grandes está presente aqui. Os movimentos estão bem animados e a ação é fluída, sendo destaque os especiais Hidden Secret Slash: a tela escurece e uma ilustração do lutador aparece, trazendo um tom dramático ao movimento.

Os cenários continuam bastante detalhados, assim como as cenas não interativas (levando em consideração as limitações do portátil, claro). Já a música, que é um dos grandes destaques da série, foi transformada em versões chiptune mais simples, porém com melodias marcantes e plenamente reconhecíveis.

Uma adaptação conservadora

Tal como outros títulos da linha NeoGeo Pocket Color Selection, The Last Blade: Beyond the Destiny conta com alguns recursos interessantes. A tela pode ser customizada com bordas diversas inspiradas em diferentes modelos do console portátil, um filtro de scanlines e diferentes níveis de zoom. O manual do jogo está disponível para consulta a qualquer momento no menu, mas é uma pena que a última página acessada não fique marcada.

Uma adição notável é o multiplayer local para dois jogadores, algo que era custoso no console original (afinal exigia dois aparelhos e dois cartuchos). No modo portátil, com os Joy-Con conectados, o jogo assume uma estranha configuração com uma tela individual para cada jogador, que segura uma das extremidades do console — funciona, mas nada prático. Fora isso, o emulador também permite alterar os comandos e retroceder a ação em até dez segundos, algo perfeito para desfazer erros pontuais.

No geral, o pacote é funcional, mas senti falta de mais configurações. Eu gostaria de, por exemplo, poder utilizar os outros botões do controle para executar combinações de comandos, como A+B. As bordas têm seu charme, mas, particularmente, preferi jogar sem ilustração alguma, e acho uma oportunidade perdida não utilizar o espaço de maneiras mais interessantes, como exibindo os golpes dos personagens.
 

Confronto retrô que vale a pena

The Last Blade: Beyond the Destiny é uma versão portátil da série de luta que consegue adaptar de forma competente boa parte de suas principais características. O sistema de combate é surpreendentemente profundo, e muitas mecânicas interessantes tornam os embates empolgantes, mesmo que com algumas limitações nos controles e na fluidez da ação. Além de ser tecnicamente ótimo, o jogo conta com muito conteúdo a ser desbloqueado, o que incentiva explorar todos os modos. A versão para Switch oferece opções razoáveis, mesmo que um pouco limitadas. No mais, The Last Blade: Beyond the Destiny é um dos melhores títulos do Neo Geo Pocket Color e também um notável jogo retrô de luta.

Prós

  • Sistema de combate ágil que apresenta as principais mecânicas das versões originais;
  • Boa variedade de personagens e estilos de luta para dominar;
  • Muito conteúdo desbloqueável, como elementos de história, modificadores e lutadores;
  • Aspectos audiovisuais charmosos e bem trabalhados;
  • Recursos extras interessantes, como manual digital.

Contras

  • Dificuldade desbalanceada em alguns momentos;
  • Recursos de emulação limitados.
The Last Blade: Beyond the Destiny — Switch — Nota: 8.5
Revisão: Vladimir Machado
Análise produzida com cópia digital cedida pela SNK
 
Confira também:

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


Disqus
Facebook
Google