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Análise: Seers Isle (Switch) é um romance visual medieval de magia e mistério

Sete aventureiros e uma entidade enfrentam a Ilha dos Profetas em suas iniciações mágicas.


Seers Isle
(Switch) é uma visual novel lançada inicialmente em 2018 para PC, mas que chegou para o Switch apenas neste ano de 2020. Ela foi desenvolvida e publicada pelo Nova-box, um estúdio indie focado em romances visuais interativos localizado na França, estúdio este que também teve um outro título seu portado para o Switch, chamado Along the Edge.


Em Seers Isle, um grupo de personagens vai em busca da sua iniciação na magia em uma ilha remota que serve como o elo entre o mundo mágico dos profetas e o nosso. Em belas artes feitas à mão, o enredo se desenvolve baseado nas decisões do jogador. Mesmo com o poder de escolha, é difícil prever qual o desfecho da aventura, o que rende bons mistérios e o desejo de jogar novamente. Não livre de problemas, como a ausência de dublagem e capricho na trilha sonora, o jogo se desenvolve muito bem.

Ao longo desta análise, a intenção é não revelar pontos chave na história para que a experiência do jogador seja preservada. Porém, alguns detalhes isolados do enredo serão apresentados, servindo como porta de entrada para que o leitor se interesse pela experiência completa.

A ilha dos profetas

A Seers Isle (traduzida livremente como “ilha dos profetas”) é um local guardado por entidades mágicas que regem o equilíbrio entre seu mundo e o dos homens. Seus representantes humanos são os xamãs, que passaram por suas próprias provações na ilha para receberem tal título em suas regiões de origem. De tempos em tempos, novos iniciados vêm em grupo para vencer as provações e se provarem dignos de reconhecimento pelos profetas.


Arlyn, Brandon, Connor, Duncan, Erik, Freya e Jennyver são, desta vez, os aventureiros, e estarão também acompanhados por mais uma entidade misteriosa que desempenha importante papel na trama.

A história é contada por meio de ilustrações digitais e balões de fala em sua integridade — não há dublagem. Para avançar, algumas decisões são de responsabilidade do jogador e vão desde escolher quem acompanhar quando o grupo se divide até poupar a vida de um deles num embate corpo a corpo. Cada decisão conta para quatro comportamentos que definem o rumo da história, iluminando indicadores no topo da tela presentes em todo o gameplay.

Veja que o símbolo verde se iluminou, fato que ocorre após uma decisão.

Tais comportamentos são divididos em dois pares antagônicos: o olho ou a mão, relativos ao comportamento humano; e o veado ou o homem, relativos à crença na magia. Não fica claro ao jogador qual o papel de cada um deles na primeira jogatina, mas isso se esclarece melhor até o final da primeira run. A soma de escolhas em cada um dos grupos é o que define alguns eventos importantes e, principalmente, o desfecho.

Após finalizar o título pela primeira vez, uma tela de conquistas é desbloqueada, permitindo entender quais grupos de comportamentos levam a determinados finais, bem como as cenas intermediárias que ainda não foram assistidas. Porém, não é muito claro para o jogador quais escolhas ele deve tomar, pois não se tratam de escolhas do tipo causa e consequência mas sim comportamentos específicos que pendem o foco da história para personagens que possuem aquelas características. Dessa forma, a primeira run dá bastante liberdade ao jogador e as seguintes tornam mais claro como atingir os diferentes finais. Apesar disso, às vezes parece um pouco arbitrário e até forçado que certas cenas ocorram, pois estão completamente desconectadas de nossas escolhas e apenas são associadas aos personagens que mais temos afinidade.

O enredo, mesmo que completo e bastante complexo, quer incentivar novas runs para atingir os outros finais, em um total de 8. Mas, ao tentar novamente, fica claro que a novel é composta por uma linha do tempo principal e quase imutável com pequenas variações, de forma que algumas escolhas são até insignificantes considerando o resultado final. Há um momento específico, por exemplo, que podemos escolher poupar ou não a vida de um dos personagens, mas a decisão, que parece real, tem o mesmo desfecho independente do que decidirmos. Com isso, pode ficar um pouco cansativo ter que rever todas as cenas apenas para atingir um novo final.



A imersão do romance

O enfoque de uma visual novel é, sem dúvidas, o enredo. Porém, o aspecto artístico deve ser levado em conta para a imersão. Em Seers Isle, eu o considero como um sucesso parcial, havendo ressalvas para que se torne um título perfeito. Os pontos que precisam de maior refinamento aqui são a trilha sonora e a dublagem.


As músicas que acompanham os eventos do romance são bem elaboradas e condizem com o ambiente misterioso da ilha, sendo a presença de vozes inconstantes no background a marca registrada deste e de outros títulos do tipo. Além disso, é também excelente seu aspecto dinâmico, trocando a faixa para cada situação sem transições bruscas. Senti falta, porém, de mais intensidade e outros ritmos nos momentos críticos, pois parece que o jogo se passa em uma única música com poucas variações.

Por fim, acredito que a adição de dublagem seria perfeita para uma experiência completa, mas compreendo que possa não estar ao alcance de um estúdio independente que ainda inicia no gênero. Os diálogos sem nenhuma remarcação de voz acabam contribuindo para a trilha sonora parecer tão constante.


Não posso deixar de comentar a também ausência do português brasileiro, que irá distanciar muitos dos meus conterrâneos do jogo. Mesmo dominando o inglês, apelei para o tradutor em trechos de linguagem mais rebuscada e de vocabulário complexo.

A Nova-box desenvolveu um título de qualidade com trama envolvente e madura no gênero dos romances visuais interativos, deixando o jogador sedento por atingir todos os finais. Porém, a não tão variada diversidade de acontecimentos pode espantar alguns jogadores de ver todos os desfechos por sua repetitividade. Mesmo assim, Seers Isle é um título de extrema qualidade, e chega perto da perfeição, fato que será possível nos próximos títulos da desenvolvedora.

Prós

  • Enredo envolvente, deixando o jogador sedento pelos oito possíveis desfechos;
  • Incentivo ao replay;
  • Ilustrações de qualidade.

Contras

  • Poucas variações no enredo originadas pelas decisões;
  • Ausência de tradução para português do Brasil;
  • Trilha sonora pouco variada em ritmos e intensidade.
Seers Isle — Switch/PC — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Icaro Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nova-box

É diretor de redação do Nintendo Blast e fã de games desde pequeno, quando começou sua jornada com Mario e Zelda lá no SNES. É formado na área das engenharias e trabalha com desenvolvimento de software. Quando sobra um tempinho entre as jogatinas e o dia a dia, aparece lá no Twitter como @niccomch.


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