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Análise: Curse of the Dead Gods (Switch) — explorando templos perigosos em um dungeon crawler de dificuldade brutal

Tente sobreviver a armadilhas e a monstros agressivos neste ótimo título indie de ação.


Em Curse of the Dead Gods, um aventureiro está preso em um estranho templo e para escapar ele precisará superar inúmeros desafios mortais. O jogo é um dungeon crawler focado em combate com várias mecânicas interessantes, como a inclusão gradual de maldições que deixam as jornadas mais desafiadoras. Elementos de roguelite trazem diversidade às partidas, assim como grande quantidade de equipamentos. Fora algumas pequenas limitações, o jogo é uma experiência sólida, brutal e viciante.

Confinado em ruínas fatais

Um aventureiro explora o mundo em busca de riquezas e poder. Sua procura o leva até um estranho templo no meio da floresta que, dizem as lendas, guarda tesouros inimagináveis. Logo após adentrar o local, ele percebe que caiu em uma armadilha: as ruínas são amaldiçoadas e a saída foi bloqueada. Para piorar, sua alma é corrompida pelo Deus da Morte e, após morrer, o aventureiro simplesmente acorda novamente na entrada do labirinto. Sem outra opção, ele terá que buscar uma maneira de reverter a maldição para se libertar desse ciclo sem fim.


A jornada do personagem se desenrola em um título de ação de exploração de calabouços com visão isométrica. Depois de escolher uma das regiões do templo, precisamos avançar por diferentes salas com armadilhas e inimigos, até alcançar o chefe. Pelo caminho, encontramos armas e amuletos que alteram as habilidades do aventureiro, e parte desses itens podem ser comprados em diferentes altares espalhados pelas salas. Cada partida oferece uma jornada única, pois as rotas são geradas aleatoriamente — um mapa mostra os possíveis caminhos, permitindo fazer escolhas conscientes.

Ao morrer, perdemos todos os equipamentos coletados e precisamos recomeçar desde o início, como é de praxe do gênero. Por ser um roguelite, Curse of the Dead Gods tem alguns elementos de progressão permanente entre as tentativas. Caveiras brilhantes permitem desbloquear vários recursos, como amuletos com efeitos passivos e altares que possibilitam começar uma partida com armas melhores. Já os Anéis de Jade liberam armamentos que podem ser encontrados em partidas futuras. Estes elementos dão algumas vantagens, mas o sucesso depende mais da habilidade do jogador. Fora isso, cada parte do templo conta com três aventuras distintas de duração e dificuldade crescente.
 


Na escuridão assolada por maldições

Curse of the Dead Gods se destaca com algumas mecânicas bem interessantes. Para começar, a iluminação é importante: muitas armadilhas apenas são reveladas sob luz. Como é impossível segurar a tocha e as armas ao mesmo tempo, precisamos alternar com cuidado entre as ferramentas para identificar e evitar os perigos. As salas têm braseiros que podem ser acendidos, porém inimigos são capazes de apagar o fogo ou até mesmo destruir o objeto, o que cria situações de perigo.

Pelo caminho, o aventureiro acumula corrupção ao atravessar portas ou ao receber certos tipos de dano. É importante ficar de olho nesse atributo, pois uma Maldição é ativada quando ele alcança certos níveis. Elas possuem efeitos diversos, normalmente com alguma característica negativa, como armadilhas que se ativam sozinhas, inimigos que geram morcegos agressivos ao morrerem ou tochas que se apagam quando o protagonista é atingido. Uma única maldição nem sempre é problemática, mas a situação se complica quando acumulamos várias delas. Por sorte, há maneiras de eliminá-las, mas é algo custoso.

Um detalhe interessante é a possibilidade de obter itens e melhorias ao custo de corrupção: quanto melhor for a qualidade do equipamento, maior será o preço a ser pago. Com isso, há um elemento interessante de risco e recompensa, porém ser ganancioso pode dificultar bastante a partida. As maldições, em conjunto com a dificuldade de recuperar a vida, trazem a inevitável sensação de urgência, além da dificuldade crescente, e conseguir lidar com isso faz parte da graça do jogo.

Fora isso, há vários amuletos com efeitos passivos interessantes, como aumentar o ataque de acordo com atributos, reduzir a corrupção ao derrotar inimigos ou recuperar um pouco de vida ao executar certas ações. Boa parte desses equipamentos está em trechos escondidos dos estágios, logo é importante explorar tudo com cuidado. Devido à aleatoriedade, cada partida acaba tendo uma configuração bem distinta, mas com um pouco de destreza e sorte é possível montar combinações poderosas — é divertido tentar encontrar sinergias e explorar as possibilidades. 
 


Lutando em embates brutais e estratégicos

A combinação de exploração com armadilhas, a mecânica de corrupção e o combate frenético faz com que Curse of the Dead Gods seja uma experiência intensa. No meu tempo com o jogo, perdi as contas de quantas vezes passei raiva ao ser atingido por espetos escondidos ou ao morrer para grupos de inimigos, porém a diversão é justamente conseguir superar essas situações complicadas.

O combate é um dos meus elementos favoritos no jogo. O aventureiro tem à disposição diferentes tipos de armas, dentre elas espadas, facas, pistolas, chicotes e martelos, cada qual com particularidades na hora de atacar. O herói conta também com dois movimentos defensivos: a esquiva, que permite escapar de praticamente qualquer perigo ao custo de vigor; já o bloqueio é capaz de interromper ataques, mas é difícil de executar. A movimentação é ágil, com direito a combinações de ataques alternando armas e movimentos defensivos. E há incentivo para a agressividade: o dinheiro recebido é aumentado ao derrotar vários inimigos em sequência.


Os embates são focados em ação, mas, na verdade, possuem foco em características estratégicas. Para começar, o vigor é utilizado tanto para ativar armamentos secundários quanto para se defender, logo é necessário agir com consciência para não ficar indefeso. Os inimigos são bem agressivos e normalmente atacam em grupos, e as arenas também contam com armadilhas que deixam as coisas bem complicadas, mas com um pouco de técnica é possível utilizá-las para ferir os oponentes. No geral, atacar sem estratégia resulta em morte certa.

Vários detalhes trazem variedade às batalhas. Cada arma funciona de um jeito único: chicotes puxam para perto alvos distantes, escudos têm capacidades defensivas e são ótimos para lançar monstros em armadilhas, martelos atordoam inimigos e quebram partes do cenário, e assim por diante. Além disso, há variações de uma mesma arma, como veneno e choque, o que incentiva trocá-las durante as partidas. Fora isso, os inimigos contam com muitos padrões de ataques, e entendê-los é um desafio, em especial os chefes.

Dominar todos estes detalhes é essencial para sobreviver em Curse of the Dead Gods, pois a dificuldade é brutal e oportunidades de recuperar vida são raras. Às vezes é desesperador e frustrante tentar dar conta de salas repletas de inimigos e perigos, principalmente quando nada parece funcionar. Mas depois de algumas mortes, os desafios dessa aventura  fazem mais sentido. Entendi que é necessário agir com consciência, atacando somente no momento certo e observando padrões de ataque dos inimigos. Depois que os sistemas são dominados, tudo fica muito recompensador.

É fácil perceber que o jogo se propõe a ser difícil, mas achei uma pena a ausência de opções para tornar a aventura mais acessível a jogadores menos habilidosos. Outros títulos do gênero implementaram esse tipo de recurso sem grandes complicações, e seria uma boa alternativa aqui também.

Desbravando templos inúmeras vezes

O mundo de Curse of the Dead Gods é dividido em três templos com temas e perigos distintos. O templo do Jaguar lembra uma ruína asteca com espetos saindo de buracos, armadilhas que cospem fogo e criaturas focadas em golpes próximos. Já os domínios da Serpente estão repletos de plantas e monstros venenosos. Por fim, a torre da Águia, conta com dispositivos elétricos e criaturas aladas. Cada área conta com três níveis de dificuldade, que introduzem novos elementos e oponentes.

É notável a diferença temática entre os templos, e seus elementos exclusivos nos forçam a agir de maneiras distintas. Mas mesmo com as rotas geradas aleatoriamente, é fácil perceber que a quantidade de salas não é extensa, o que traz uma sensação de repetição a longo prazo.


Para tentar mitigar esse problema, estão disponíveis desafios diários com restrições específicas. Em um deles, nossa única arma é um arco amaldiçoado que aumenta a corrupção ao ser utilizado; em outro, armadilhas disparam sozinhas e dão o triplo de dano; em um terceiro tipo, a interface some e o visual permanece em tons sépia, o que dificulta discernir os perigos. Me diverti tentando completá-los por oferecerem versões diferentes das fases, só é uma pena que a variedade deles seja bem reduzida.

Um detalhe que incomoda é o ritmo de desbloqueio do conteúdo. Habilidades e recursos são liberados ao custo de caveiras brilhantes, porém este item é bem escasso pela aventura e os preços aumentam progressivamente. Uma maneira mais fácil de obter os crânios é participando dos desafios diários, mas, mesmo assim, juntar as quantidades necessárias exige muito grind.
 


A beleza que vem do contraste entre luz e sombra

Fora isso, o universo de Curse of the Dead Gods é construído com um visual cel shading com traços fortes que lembram histórias em quadrinhos. Os três templos esbanjam personalidade com visual elaborado e temáticas distintas, por mais que não saiam muito do lugar comum das ruínas. Destaco a iluminação dinâmica, que traz contraste e atmosfera sombria aos cenários de forma realista e bela, além de ser um recurso de jogabilidade. O som também é elogiável: momentos de silêncio intensificam a tensão de explorar áreas repletas de armadilhas, já os combates contam com músicas tribais bem agitadas.


É uma pena que a história e a construção do mundo sejam tímidas: fora a cena inicial, não há desenvolvimentos de trama. Anotações sobre os inimigos projetam alguma ideia da organização deste universo, mas é um recurso limitado. De qualquer maneira, o jogo está completamente em português do Brasil e a localização é bem trabalhada.

Tecnicamente, o jogo é competente e o visual é claro de entender na maior parte do tempo. Tive a oportunidade de testar duas versões do título. No Switch, a ação se mantém constante em 30 quadros por segundo tanto no modo portátil quanto no docked, sem engasgar até mesmo nos momentos mais intensos, e os carregamentos são curtos. Já no PC a resolução é maior, os efeitos visuais são um pouco mais elaborados e o jogo roda a 60 quadros por segundo, porém observei engasgos em alguns momentos, mesmo utilizando uma máquina poderosa. Fiquei muito satisfeito de ver que o port para Switch é tecnicamente sólido e ótimo de jogar.
 


Uma maldição viciante

Curse of the Dead Gods combina exploração de calabouços e roguelite em uma experiência empolgante e brutal. Desbravar templos antigos é uma atividade tensa por causa da presença de armadilhas que, em sua maioria, só se revelam sob luz. Já o combate envolve com sua ação intensa e difícil que exige reflexos rápidos e pensamento estratégico. Além disso, há boa variedade de armas e equipamentos, e a mecânica de corrupção traz uma sensação de urgência constante às partidas. As características de roguelite ajudam a diferenciar as partidas, mas o grind e limitações no conteúdo trazem leve sensação de repetição. No mais, Curse of the Dead Gods é viciante, só esteja preparado para morrer bastante.

Prós

  • Ótima estrutura de exploração de calabouços com salas que misturam armadilhas e combates;
  • Sistema de batalha intenso focado em precisão, com muitas armas e equipamentos que oferecem diferentes estratégias;
  • Sistema de maldições traz urgência às partidas;
  • Ambientação acertada com boa variedade temática, ótimo uso de iluminação e boa engenharia de som.

Contras

  • Quantidade limitada de salas traz sensação de repetição a longo prazo;
  • Grande necessidade de grind para desbloquear armas e recursos;
  • Ausência de opções de acessibilidade pode limitar o acesso a certos jogadores.
Curse of the Dead Gods — Switch/PC/PS4/XBO — Nota: 8.5
Versões utilizadas para análise: Switch e PC
Revisão: Felipe Fina Franco
Análise produzida com cópia digital cedida pela Focus Home Interactive

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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