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1996: Um dos anos mais importantes da história dos games

Há 25 anos, o mercado gamer vivenciou um surto de criatividade inigualável.

A indústria cultural possui períodos que são marcantes. Em 1922, por exemplo, aconteceu a Semana de Arte Moderna em São Paulo. Os quadrinhos viram os muitos personagens de Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko ganharem vida durante a década de 1960. O Brasil passou a fazer parte definitivamente da rota dos shows internacionais a partir do primeiro Rock in Rio, em 1985.



A música, o cinema, a TV, o teatro, enfim, os diversos ramos culturais podem se relembrar de uma época de fervor criativo, de intensa produção que marcou a memória de quem teve a chance de vivenciá-la. Não apenas isso: para além da reverência, são momentos que repercutem de alguma forma até os dias atuais. Sejam aqueles personagens de quadrinhos dominando as bilheterias de cinema 60 anos depois de sua criação, sejam as composições de nomes como Mozart e Beethoven virando música do caminhão de gás e viralizando como funk.

Mas e os games? Em comparação às outras, trata-se de uma manifestação cultural mais recente e que por muito tempo teve pouco alcance de público. As pesquisas sobre o perfil do gamer brasileiro, por exemplo, demonstram o papel importante dos smartphones para a popularização do hábito de jogar.

Desde as primeiras experimentações em instalações militares até os teraflops dos consoles atuais, os jogos eletrônicos encantam por se diferenciar da literatura ou do cinema ao tirar o consumidor de uma posição de passividade. A interação com aquelas imagens permite uma outra forma de vivenciar as histórias e mecânicas apresentadas pelos criadores, que é única. Daí a importância dos títulos se conectarem aos jogadores.

Pong, Tetris, Mario, Sonic, God of War, Halo, The Last of Us... Quando uma empresa acerta essa difícil e imprecisa fórmula do sucesso, é normal que se queira explorar um pouco mais daquela experiência, tanto por parte dos jogadores, que já têm uma expectativa de gostar do que vão encontrar naquela sequência, quanto por parte da empresa, que pode lucrar mais um pouco com aquela ideia. É assim que surgem as franquias.

E se teve um ano prolífico em trazer franquias de sucesso para o mercado, esse foi 1996. Era um período de transição de tecnologias, quando os 16-bits do Mega Drive e do Super Nintendo ainda estavam no mercado e conviviam com os polígonos gerados pelo Nintendo 64 e pelos 32-bits do Sega Saturn e do primeiro PlayStation. Talvez por isso mesmo era um período de muita experimentação, em que o que existia previamente estava em decadência e o novo ainda não estava estabelecido.


Pensando em quantas franquias ou títulos estão comemorando seu 25º aniversário neste 2021, fica evidente o quanto aquele já distante ano de 1996 foi criativo e importante para estabelecer elementos e nomes que estão presentes na indústria até hoje. Nessa lista separamos dez jogos que representam essa efervescência. Acompanhe-nos pela calçada da fama daquele período mágico na história dos games.

10. Nights

Talvez a série menos conhecida e lembrada dessa lista. NiGHTS into Dreams foi lançado para Sega Saturn, fazendo uso de todo o poder gráfico do console. Primeiro jogo da Sonic Team a não ser estrelado pelo ouriço azul, trouxe novamente a dupla criadora do mascote. Yuji Naka trabalhou como produtor e líder de programação e Naoto Oshima atuou como diretor e designer de personagens.

Na história, os jogadores assumem o papel de Claris ou Elliot, duas crianças que vivem na cidade de Twin Seeds. Em seus sonhos, eles entram no mundo de Nightopia, onde todos os sonhos são realizados. O problema é que uma criatura maligna conhecida como Wizeman está reunindo poder para assumir o controle de Nightopia e o mundo.

O jogo exibe uma exuberante mistura de gráficos 3D com jogabilidade 2D e se destacou pelo seu estilo único, misturando elementos de plataforma e a habilidade de voar do protagonista. O voo, aliás, é o ponto central do gameplay, apesar de não possuir liberdade total na movimentação por seguir cursos pré-definidos.
Curiosamente, os testes iniciais demonstraram que o controle padrão do Saturn não funcionava do jeito que o time de desenvolvimento desejava. Em busca de uma alternativa mais de 100 protótipos foram construídos e testados, incluindo controles remotos, controladores de pé e até mesmo o conceito de usar um boneco em forma de NiGHTS para simular os movimentos. No fim, o 3D Control Pad foi desenvolvido para garantir que o jogo fosse mais suave e confortável de jogar. Mais tarde ele serviu de base para o controle do Dreamcast.

NiGHTS into Dreams teve a ingrata missão de substituir o mascote da Sega no console, já que Sonic 3D Blast saiu no mesmo ano para Mega Drive e o projeto que havia para Saturn acabou cancelado. Sua sequência, NiGHTS: Journey of Dreams, saiu apenas em 2007 para Wii.

9. Metal Slug

A aventura com tiroteios frenéticos remete a grandes clássicos dos anos 80, como Contra. No papel dos soldados Marco e Tarma, a missão era enfrentar um grande exército de inimigos pela frente. Com suporte a multiplayer cooperativo, o game tinha um alto nível de dificuldade e um vasto arsenal, incluindo a marcante Heavy Machine Gun.

Metal Slug apresentava uma grande quantidade de animações, muitos elementos em tela e grandes inimigos. O game também ficou conhecido pelo seu estilo de humor que tornava até as mortes dos inimigos um pouco cômicas. Trazendo os jogos de tiro 2D do estilo run and gun para a nova geração, o primeiro título da série saiu para arcade.

A SNK viu o sucesso que aqueles militares tresloucados faziam e levou o game para o Neo Geo e, a partir daí, para todas as plataformas possíveis. Atualmente o jogo também pode ser encontrado na eShop do Switch. Contudo, o lançamento mais recente da franquia ocorreu para os sistemas mobile, deixando a série mais nichada.

8. Donkey Kong Country 3

Após os primeiros títulos no NES com uma mecânica mais arcade, a série Donkey Kong Country iniciada em 1994 recolocou o gorilão no mapa e abusou das capacidades gráficas do Super Nintendo. Essa aventura definiu um estilo próprio, com o desafio de coletar as letras KONG e as marcantes fases com os carrinhos de mina.

Todo o elenco criado em torno de Donkey Kong contribuiu muito para o carisma da série. Desde Diddy, o primeiro parceiro, até o vilão King K. Rool, todos são lembrados com tanto carinho quanto o protagonista engravatado. O crocodilo malvado, aliás, até então restrito às produções da Rare, voltou em Super Smash Bros. Ultimate (Switch) e foi recebido com entusiasmo pelos fãs.

Com o retorno da adorável Dixie e a estreia de Kiddy, Donkey Kong Country 3: Dixie Kong's Double Trouble! encerrou a trilogia em 1996 com visuais ainda mais bonitos e um aprimoramento ainda maior das mecânicas, entregando uma das mais completas experiências de um plataforma 2D na época. Nós temos um N-BlastCast recente falando mais sobre esta obra-prima.

7. Super Mario RPG

Nos anos 1990, o Mario já era símbolo dos jogos de plataforma, além de se aventurar como médico, no golfe ou no kart. Já a Squaresoft (atual Square Enix) produzia RPGs muito populares no Japão, mas que não alcançavam o mesmo êxito no Ocidente. Sendo de interesse da Nintendo popularizar este gênero nos Estados Unidos e na Europa, as duas empresas se uniram para enfrentar este desafio.

O fruto desta parceria foi Super Mario RPG: Legend of the Seven Stars, o primeiro RPG estrelado pelo encanador bigodudo. Aqui, Bowser é um aliado na luta contra o inédito vilão Smithy e sua gangue. O jogo é descontraído e brinca com a franquia, mostrando Mario como uma espécie de popstar por ter salvado o dia diversas vezes.

Por muitos anos este foi o último título da Square em um console Nintendo, o que originou a série Paper Mario ao invés de uma continuação. Super Mario RPG fez parte do catálogo do Virtual Console do Wii U, mas até o momento os fãs aguardam sua inclusão no Nintendo Switch Online.

6. Crash Bandicoot

Numa época em que as companhias "precisavam"de um mascote, muitos consideravam Crash o representante da Sony, afinal, a Nintendo tinha Mario e a Sega tinha Sonic. Lançado como um exclusivo do PlayStation, foi provavelmente o título de plataforma que mais se aproximou de rivalizar com o panteão ocupado pelo encanador bigodudo e pelo ouriço azul.

Desenvolvido pela Naughty Dog, foi o sucesso de Crash que possibilitou que a desenvolvedora crescesse e se tornasse o que é hoje. Com um senso de humor que o diferencia dos outros mascotes, a história brinca com seus concorrentes: assim como Mario, o marsupial precisa resgatar sua namorada das garras de um cientista que, tal qual Robotnik, tem feito experimentos com animais selvagens.

Atualmente nas mãos da Activision, Crash já deixou de ser "a cara" do PlayStation há um bom tempo e conquistou os outros consoles. Esse ano, a série ganhou um novo capítulo, Crash Bandicoot 4: It's About Time.

5. Diablo

Revolucionando os RPGs de ação, Diablo se tornou uma referência para os futuros lançamentos ao popularizar o gênero rogue like. Uma grande novidade foi o fato de cada partida ser totalmente diferente da outra, graças à geração de fases de forma aleatória.

A franquia da Blizzard começou no PC, com atmosfera e mecânica próprias. Andar pelas catacumbas na cidade medieval de Tristan enfrentando o mal em visão isométrica marcou época. Diablo II: Resurrected, remasterização do segundo título da franquia, chega ainda este ano para o Switch.

4. Tomb Raider

Num ambiente dominado por personagens masculinos e por donzelas em perigo, Lara Croft surgiu armada, inteligente e poderosa. Os polígonos a mais em certas partes do corpo poderiam até atrair alguns marmanjos a princípio, mas não eram mais importantes do que a qualidade do jogo. Polêmicas à parte, a personagem ganhou seu lugar na cultura pop.

Arqueóloga e exímia caçadora, buscou relíquias em lugares extremamente perigosos, essa versão feminina de Indiana Jones conta com games recheados de ação e puzzles. Rodou o mundo por cenários como pirâmides do Egito, templos na Bolívia e Peru e a cidade perdida de Atlântida.

Infelizmente, o último título a dar as caras em plataformas Nintendo foi Tomb Raider Underworld de 2008, presente no Wii e no DS. De lá para cá, a franquia sofreu um bem-sucedido reboot que inspirou também um novo filme em 2018.

3. Super Mario 64

1996 foi o ano em que o Nintendo 64 chegou ao mercado para bater de frente com o Saturn e o PlayStation. Havia o desafio de mostrar que suas franquias clássicas e tão identificadas com as gerações anteriores poderiam sobreviver à mudança de paradigma dos gráficos em 3D. E quem melhor para encarar o desafio do que seu mascote?

Super Mario 64 foi uma revolução tão grande que definiu como se fazer um jogo de plataforma a partir de então. Não houve um título que melhor representasse a transição do 2D para o 3D, com qualidade de cenários, jogabilidade satisfatória e grande repercussão de público, do que a nova aventura de Mario.

A liberdade de movimentação e o controle da perspectiva de câmera foram as maiores contribuições do game, amplamente utilizadas tempos depois por outros jogos e desenvolvedoras. Era o início de uma revolução de conceitos que haviam chegado para ficar.

2. Pokémon

A franquia Pokémon surgiu no Game Boy e é um sucesso desde os primeiros títulos e movimenta uma legião de fãs pelas diversas mídias em que está presente. A série principal seguiu pelos portáteis da Nintendo até o lançamento de Sword/Shield no Switch em 2019.

O RPG de ação para encontrar e treinar monstrinhos de bolso é desenvolvido pela Game Freak e lançado em formato de gerações. A cada nova dupla de títulos da série principal, novos Pokémon, história e personagens são introduzidos.

Os spin offs também são muito bem-sucedidos. Um exemplo recente é Pokémon GO, que na época do lançamento rompeu a barreira do mundo gamer nos noticiários. O Nintendo Blast já traçou a linha do tempo da franquia e está publicando diversos especiais desde fevereiro para celebrar os 25 anos de Pikachu e companhia.

1. Resident Evil

O jogo que inegavelmente mudou a história. Com uma grande repercussão, o título trouxe a experiência do terror para um game, popularizando o gênero chamado survival horror. Quem entrou em Raccoon City e enfrentou a infestação de zumbis nunca mais foi o mesmo.

A importância de Resident Evil só cresceu desde sua estreia no PlayStation, rendendo uma franquia multimídia com quadrinhos, animações e duas séries de filmes, só para citar alguns. O primeiro jogo está disponível no Switch, e constantemente são lançados ports, remakes e remasters, a fim de apresentar a franquia para novos jogadores e dar uma nova experiência aos fãs de longa data.

Um admirável mundo novo

A quantidade de jogos que chegam ao mercado hoje seria impensável na década de 1990, mas são poucos os títulos e franquias que alcançam a relevância e resistem ao teste do tempo. Como esta lista demonstra, 1996 trouxe para a indústria uma gama de jogos que marcou de uma vez por todas a virada para os gráficos em 3D, colocando os games nos trilhos em que seguem até os dias de hoje e criando algumas séries importantes que se tornaram multimídia.

E você? Tinha noção de que todos esses lançamentos ocorreram no mesmo ano? Já era gamer há 25 anos e vivenciou o período? Percebeu que deixamos passar algum jogo? Vamos continuar essa conversa aqui nos comentários.

Revisão: José Carlos Alves


Nascido no mesmo dia que Manoel Bandeira (mas com alguns anos de distância), perdido em Angra dos Reis (dos pobres e dos bobos da corte também), sob a influência da MPB, do rock e de coisas esquisitas como a Björk. Professor de história, acostumado a estar à margem de tudo e de todos por ser fora de moda. Gamer velho de guerra, comecei no Atari e até hoje não largo os mascotes - antes rivais - Mario e Sonic.


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