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Análise: Pac-Man 99 (Switch) é um labirinto de infinito fator replay

Mais um título que mostra que não se pode dizer que falta diversão no serviço Nintendo Switch Online, mas sim diversidade.


Desenvolvido pela Arika e publicado pela Bandai Namco exclusivamente para o Nintendo Switch Online, Pac-Man 99 é um jogo de labirinto em formato de battle royale online que expande as mecânicas do clássico Pac-Man (Multi) e visa proporcionar partidas mais rápidas, progressivamente mais dinâmicas e constantemente interativas com as partidas simultâneas de outros jogadores (até 99).


Jogos de labirinto (maze games) não são mais tão populares hoje em dia como outrora, e talvez valha uma pequena introdução: trata-se de um subgênero do gênero ação que foi primeiramente descrito no início da década de 1980 e rotulou muitos jogos daquela década; entre eles, o clássico Pac-Man.

De modo geral, o subgênero abrange títulos com uma ambientação labiríntica (tipicamente em perspectiva de câmera aérea) e cujo level design envolve ação rápida do jogador para desafios físicos de coordenação olho-mão e tempo de reação para escapar de criaturas, ultrapassar algum oponente ou simplesmente navegar pelo labirinto dentro de um limite de tempo.

Particularmente em Pac-Man, o jogador controla seu icônico protagonista amarelado de mesmo nome em um labirinto onde ele busca se alimentar de pequenas bolinhas e frutas espalhadas pelos corredores enquanto foge de fantasmas, podendo, porém, também caçá-los durante períodos em que se encontram vulneráveis.

Pac-Man 99 trabalha em cima desse clássico de 1980, expandindo suas mecânicas, tornando-as mais dinâmicas e adicionando elementos de battle royale online claramente inspirados em Tetris 99, outro battle royale exclusivo do Nintendo Switch Online, porém não apenas de ação, mas mesclado com puzzle.

Confira nesta análise como o clássico Pac-Man é relativamente bem-sucedido em expandir e adaptar-se a um battle royale à moda de Tetris 99, mas infelizmente sua execução deixa a desejar se comparada a esse título de action-puzzle e mais ainda se avaliada à luz de outros jogos de seu gênero ou das capacidades do hardware de que dispunha.



Uma simples, mas significativa, expansão das mecânicas de Pac-Man

Pac-Man 99 expande a jogabilidade do original de 1980 principalmente através de duas mecânicas: a de multiplicador de fantasmas e a de novos inimigos de ação temporária.

A primeira mecânica nova designa os ícones enfileirados de fantasmas que aparecem nas laterais do labirinto. Esses, quando engolidos pelo protagonista, geram mais fantasmas, que seguem algum dos quatro principais que estejam próximos do local. A função dessa mecânica é permitir maximizar os pontos possíveis pelo jogador, gerando também maior dinamismo na competição de pontuação entre os jogadores online.

A segunda adição mecânica, por sua vez, trata-se do fato de que, após algum tempo de jogo, aparecerem outros inimigos menores, assemelhados à Pac-Man, que o podem seguir pelo labirinto, retardando seu movimento (no caso dos inimigos brancos) ou até mesmo eliminando-o (no caso dos vermelhos). No caso dos novos inimigos alvos e rubros, eles podem ser eliminados também pelo jogador ao pegar uma pílula coletável de tamanho maior (uma das quatro nas extremidades do labirinto), ou pelo menos serem paralisados temporariamente.



Novos inimigos, inimigos de um belo level design

A primeira coisa que se pode notar é a ausência de um tutorial ou de maiores informações sobre a regras do jogo, o que dificulta o aprendizado e o entendimento de como funciona a competição online.

Os quatro fantasmas iniciais, que são os inimigos básicos do jogo, são tais como aqueles do jogo original. Lidar com eles envolve, entre outras coisas, compreender a personalidade de cada um para saber se esquivar deles nas horas certas. Um irá perseguir você incessantemente, outro é covarde e tentar fugir de você e os outros dois tentarão antecipar seus movimentos no labirinto. Desse modo, já em 1980, Pac-Man foi um dos precursores do desenvolvimento da IA para criar “personalidade” nos personagens; nesse caso, nos inimigos.


Além do fator criativo, esse recurso era interessante para tornar o jogo mais estratégico. Contudo, em Pac-Man 99 é difícil fazer uso desses conhecimentos quando a velocidade do jogo começa a aumentar; agrava ainda mais o fato de que aparecem os novos inimigos, que são muito mais imprevisíveis, e muitas vezes o jogador perderá a partida por puro azar ao se encontrar encurralado em algum canto do labirinto.

Para efeito de comparação, em Tetris 99 a velocidade aumenta, mas, caso o jogador seja habilidoso, não precisará contar tanto com a sorte para vencer uma partida como um jogador de Pac-Man 99 precisará. Desse modo, o nervosismo com o tempo passa a não estar em conseguir desempenhar o gameplay de forma mais rápida, e sim em contar com a sorte para não ficar encurralado antes dos demais jogadores.

O fato de os inimigos novos poderem ser eliminados ou paralisados ajuda na estratégia de gameplay e a tornar o desafio competitivo mais justo nos diferentes modos de jogo, mas não resolve de todo o problema, infelizmente.

Um labirinto divertido, mas repetitivo e pouco recompensador

De resto, há pouco a se falar quanto à estética dessa nova entrada de Pac-Man; continua carismática e funcional, apesar de já ter mais de 40 anos, o que é algo impressionante, que só alguns outros poucos jogos, como Tetris, conseguiram nos legar. No mais, ele se tornou como um todo mais dinâmico, especialmente a música de fundo. Porém, infelizmente não trouxe uma variedade maior de cenários, que seria bem-vinda. Há temas variados em DLC, mas não mudam significativamente a jogabilidade e, em alguns casos, seus visuais até atrapalham.

Apesar de continuar muito divertido e algumas adições ao gameplay terem o tornado mais dinâmico e interessante para a adaptação ao formato battle royale, Pac-Man 99 está longe de ser equilibrado e satisfatório frente a Tetris 99, por exemplo, e deixa a desejar em termos de equilíbrio estratégico de ação, conteúdo, modos de partida e cenário, ou mesmo em recompensa para o progresso no jogo, e ainda pesa a ausência de um tutorial ou maiores explicações das regras do jogo.

O jogo é recomendável a todo aquele que quiser se distrair um pouco e se divertir em momentos esparsos do dia, mas não para quem é fãs de jogos de labirinto que se interessem em treinar horas a fio e aprimorar suas habilidades em competições online, posto que, como dito, a jogatina dependerá muito da sorte, ainda que o aperfeiçoamento das habilidades também contribua para sua performance nas partidas e não seja em vão seu treinamento.

Prós

  • Gameplay divertido para fãs de jogos de labirinto;
  • Adições únicas para um jogo de battle royale;
  • Uma boa atualização do clássico Pac-Man.

Contras

  • Pouca variedade de level design;
  • A jogabilidade depende demasiadamente do fator sorte;
  • Não são claras as regras por trás das mecânicas;
  • Ausência de tutorial. 
Pac-Man 99 – Switch – Nota: 7.5

Revisão: José Carlos Alves

Doutorando em Filosofia que passa seu tempo livre com piano, livros e jogos (principalmente JRPGs). No Twitter, também conhecido como Vivi. Interessa-se especialmente por produções de maior apelo artístico e/ou narrativo e mecânicas de puzzle, stealth e RPG. Seu histórico de análises pode ser conferido no OpenCritic; suas reflexões sobre a arte e a ciência dos jogos, em thegamelogicist.medium.com (em inglês), ou em seu podcast: MetaQuestCast.


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