Jogamos

Análise: Rabisco+ é um dos títulos mais relaxantes na atual biblioteca do Switch

Uma carismática coleção de facílimos action-puzzles para se jogar a qualquer hora.


Desenvolvido pela Green Dinosaur Games e publicado pela Ratalaika Games, Rabisco+ (Switch) é um jogo de action-puzzle no estilo de arcade com perspectiva aérea, fases curtas e controles bastante simples para uma jogatina cuja longevidade depende completamente de inovações e refinamentos no level design.


O título chega ao híbrido da Nintendo como uma versão expandida e aprimorada da fórmula de Rabisco (Multi), lançado no ano passado para várias plataformas, inclusive o Nintendo Switch. E em ambos os casos a Green Dinosaur Games procurou proporcionar uma experiência acessível, relaxante e divertida. Confira nesta análise até que ponto a execução dos conceitos de Rabisco+ efetivamente consegue entregar uma experiência desse tipo.



Traços minimalistas, delicados e coloridos ao ritmo de bossa nova

De um ponto de vista artístico, Rabisco+ inicia muito bem a experiência ao pé do ouvido. Desde os primeiros passos o jogador é acompanhado por timbres de sons retrôs ou acústicos em melodias suaves e bem espaçadas, quase sempre em tom maior e embaladas a um gostoso ritmo de bossa nova.

Bossa nova, o mais célebre gênero de música brasileira, foi uma excelente escolha. Ele é pouco usado em trilhas sonoras de videogames, o que é uma pena, pois trata-se de um gênero da música popular bastante propício para criar momentos relaxantes como aqueles intencionados pelos desenvolvedores de Rabisco+.


Ao mesmo tempo, a arte visual de Rabisco+ harmoniza muito bem com suas músicas. Os traços do protagonista e do cenário são bem minimalistas, assim como as melodias, e o cenário tem um caráter de esboço, assim como a leve impressão de improviso presente nas linhas melódicas de bossa nova, mais particularmente por sua influência do jazz.

O level design simples, direto e pouco desafiante também corrobora para que o jogador não se frustre e sempre se sinta recompensado por achar a melhor forma possível de passar pelos puzzles de movimento do jogo.

Fora isso, vale salientar que a narrativa do jogo é praticamente inexistente, e como a proposta é de ser algo mais focado na experiência arcade, não há problema algum com tal escolha de design.



Uma movimentação simples em um level design variado, mas pouco criativo e refinado

Os problemas do jogo começam e terminam em seu gameplay. Não é um defeito em si que o jogo tenha uma movimentação muito simples, mas passa a sê-lo se o level design não contribui para tornar a jogatina estimulante, minimamente desafiadora, além de suficientemente criativa para que o jogador deseje ver o que virá de novo e como serão aprimoradas as mecânicas previamente introduzidas.

O jogador limita-se a movimentar normalmente o protagonista, com a única adição de uma mecânica de impulso (dash) que lhe proporciona ganho de velocidade por um curto período de tempo. A mecânica de impulso é limitada à energia acumulada em algo como uma barra de stamina.

Uma mecânica limitada, como já dito, não é um problema em si, mas ocorre que o level design é repetitivo, demasiadamente simples, sem muito desafio e sem grande criatividade. É verdade que há muitas ideias implementadas, como portais, inimigos que perseguem o jogador, blocos que quebram com o uso do dash, obstáculos etc. Mas todas elas não são bem exploradas.


De modo geral, uma nova ideia mecânica é implementada de cinco em cinco fases, explorada nas poucas fases seguintes e desaparece, sucedendo uma nova implementação, e assim por diante por 100 fases. Raramente essas implementações são cumulativas e mais raramente ainda são exploradas criativamente em conjunto.

Desse modo, os action-puzzles que resultam das mecânicas de Rabisco+ são, de modo geral, muito simples de resolver, seja pela parte de raciocínio mental, seja pela parte de desafio físico de tempo de reação. Essa série de problemas agrava-se pelo fato do jogo ser bastante curto e ser pouco estimulante retornar às fases apenas por fator de speed run.



Calmo e simpático, mas sem muita profundidade, diversão ou desafio

O novo jogo da Green Dinosaur Games cumpre bem seu objetivo de relaxamento. É uma experiência muito gostosa, calma e agradável. A proposta funciona é especialmente bem-vinda no caso do Switch.
As fases curtas e subdivididas em breves seções com pontos de save combinam perfeitamente com a proposta do Switch de parar o gameplay a qualquer momento e continuar, em modo portátil ou não. Por outro lado, seria preferível que Rabisco+ tivesse um quarto das mecânicas implementadas, mas que fossem melhor exploradas.

Rabisco+ é bonitinho e sonoramente agradável, mas seu gameplay é demasiadamente simples e pouco criativo na execução das várias mecânicas que implementa. Trata-se de um título que poderia se sair muito melhor ao aprender com jogos como The Witness (Multi) que, a partir de uma mecânica muito simples, refina muito e aprimora progressivamente um conceito de gameplay até que seja implementado um outro.

Prós

  • Uma boa trilha sonora delicada e agradável;
  • Estética e gameplay relaxantes.

Contras

  • Muitas mecânicas subutilizadas;
  • Level design pouco desafiante e criativo;
  • Pouco conteúdo de modo geral.
Rabisco+ — PC/XBO/XBX/PS4/PS5/Switch — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Icaro Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Ratalaika Games

Doutorando em Filosofia que passa seu tempo livre com piano, livros e jogos (principalmente JRPGs). No Twitter, também conhecido como Vivi. Interessa-se especialmente por produções de maior apelo artístico e/ou narrativo e mecânicas de puzzle, stealth e RPG. Seu histórico de análises pode ser conferido no OpenCritic; suas reflexões sobre a arte e a ciência dos jogos, em thegamelogicist.medium.com (em inglês), ou em seu podcast: MetaQuestCast.


Disqus
Facebook
Google