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Análise: Picross S GENESIS & Master System edition (Switch) traz puzzles com um toque da SEGA

Edição temática da franquia engaja ao incorporar jogos clássicos em seus desafios, mas não promove mudanças dignas de uma versão especial.

Picross S GENESIS & Master System edition (Switch)

Tem algumas coisas na vida que com certeza sempre vão acontecer. O Sol nascerá diariamente, a gravidade continuará sendo lei… e novos jogos da série Picross serão lançados regularmente para algum console da Nintendo. Desde a época do SNES e do Game Boy, a desenvolvedora japonesa Jupiter trouxe seus títulos puzzle para praticamente todas as plataformas da Big N. Com o Nintendo Switch não poderia ser diferente. A cada ano, a produtora bate ponto na eShop com novas levas de quebra-cabeças.


Em 2021, como se não bastassem os mais de 400 desafios de Picross S6 (Switch), o estúdio lançou uma edição especial da franquia, anunciada há mais de um ano. Picross S GENESIS & Master System edition mistura os puzzles quadriculados característicos da série com personagens e elementos de jogos da SEGA dos anos 80 e 90.

Como o maior crossover de Picross já lançado no Nintendo Switch, o título emprega a fórmula testada e aprovada de edições anteriores e adiciona figuras 8 e 16-bit da antiga rival da Nintendo, tornando-se engajante principalmente para seus fãs. No entanto, não há novidade alguma em seu gameplay e design em relação a lançamentos passados. O resultado é um jogo que cumpre seu papel de forma segura, mas que poderia ter se arriscado mais, especialmente por representar alguns dos IPs mais importantes da história dos games.

Um ótimo passatempo

Desde meados dos anos 1990, Picross segue a mesma fórmula. O jogo apresenta uma série de nonogramas — quebra-cabeças em que é necessário descobrir uma imagem escondida em uma malha quadriculada. Os números ao lado de cada linha e coluna indicam a quantidade de casas preenchidas nessas respectivas fileiras.

Por exemplo, uma linha com o número 5 ao seu lado mostra que, em algum lugar nela, há cinco quadrados preenchidos lado a lado. Já uma com os números 4 e 5 significa que há quatro casas consecutivas pintadas, seguidas por outras cinco, com pelo menos uma casa em branco entre elas. Por meio de raciocínio lógico e matemático, é possível encontrar os quadrados certos e, assim, revelar o símbolo oculto.

Picross S GENESIS & Master System edition (Switch)


Ao contrário de títulos como Tetris, Puyo Puyo ou Panel de Pon, em que o game over é garantido devido ao aumento da dificuldade do puzzle, Picross segue uma abordagem mais parecida com passatempos como palavras cruzadas e sudoku. Embora haja um contador que marca os minutos gastos em cada quebra-cabeça, o jogo não possui punições para erros, ranks de desempenho ou limites de tempo, tornando a experiência muito mais tranquila.

O ritmo do game é ditado pelo jogador. Precisa de mais tempo para solucionar um problema complexo? Quer salvar o progresso em um puzzle e continuar depois? Prefere resolver um ou dois quebra-cabeças no tempo livre do dia a dia? Ou deseja ficar horas zerando nível após nível? Tudo isso é possível. Essa característica mais solta faz com que o título tenha um clima até relaxante, perfeito para sessões pick up and play.

Além disso, o jogo é capaz de se tornar bastante viciante. A satisfação em ver as figuras tomando forma, o clima sereno que permite a quem está jogando viajar nos seus próprios pensamentos enquanto soluciona os puzzles e a vasta quantidade de quebra-cabeças disponíveis fazem com que aquela sensação de "só mais um nível" seja constante. Assim, horas de jogatina podem se passar facilmente sem se perceber.

Falando em horas, esta edição especial também oferece um grande custo-benefício em relação ao tempo de gameplay. Quem quiser concluir todos os 480 níveis levará algumas boas semanas para alcançar esse objetivo. Comparativamente, Picross S2 (Switch) tem somente 30 desafios a menos e me levou cerca de 61 horas totais para finalizá-lo. Espere, portanto, que o game faça parte de sua rotina por um longo período.

Picross S GENESIS & Master System edition (Switch)

Explicações e recursos confusos

Mesmo estando presente nos consoles da Big N há mais de 25 anos, é comum encontrar pessoas que ficam intimidadas ao jogar Picross pela primeira vez. Afinal, o título não é tão conhecido e há uma curva de aprendizagem considerável para ser superada. Nesse aspecto, GENESIS & Master System edition faz um trabalho mediano para ensinar suas regras e ajudar jogadores com dificuldade.

Essa edição especial tem tutoriais interativos para cada um dos três tipos de desafios disponíveis: Picross (puzzles normais que também podem formar imagens maiores no modo Clip Picross), Mega Picross (problemas que incluem números que se expandem por duas linhas) e Color Picross (quebra-cabeças coloridos). Tais explicações conseguem mostrar algumas das técnicas básicas para se completar um nonograma. Porém, em certas instâncias, elas não são muito claras, principalmente ao demonstrar como funcionam os recursos de ajuda do título.

Textos confusos, que requerem repetidas leituras para serem compreendidos, fazem parte da explanação. Gráficos que exemplificam o conteúdo ensinado são usados, o que ajuda no entendimento das técnicas, mas não o suficiente para empoderar completamente o usuário. Ele pode começar os primeiros puzzles sem saber exatamente o que está fazendo, desmotivando-o.
Picross S GENESIS & Master System edition (Switch)
Os tutoriais podem ser um pouco difíceis de entender


Parte da culpa dessa desorientação vem das próprias mecânicas de auxílio em si, que podem se tornar desnecessariamente complexas. Dependendo das configurações do jogador, o game pode destacar linhas que possuem quadrados cheios ou vazios para serem identificados ou até mesmo indicar que uma certa cor requer uma atenção maior durante uma partida de Color Picross.

Enquanto há momentos em que essas opções mostram o caminho certo a seguir, há várias situações em que somente poluem a área de jogo. O título utiliza muitas cores e ícones para dar dicas de ações que são mais fáceis de se executar usando pensamento lógico. Aprender por meio de tentativa e erro acaba sendo a opção mais tranquila e, consequentemente, divertida.

Até mesmo o próprio jogo acaba desincentivando o uso dessas funções ao assinalar todos os quebra-cabeças concluídos sem assistência com uma marcação especial. Acaba sendo perda de tempo aproveitar a ajuda se o objetivo é conquistar esse distintivo diferenciado em todos os puzzles.

No entanto, há um ponto positivo que auxilia na compreensão dos tutoriais. Pela primeira vez, um jogo da série Picross S é localizado em português brasileiro. Assim, embora as explicações não sejam tão claras, pelo menos elas são mais inteligíveis no nosso idioma. O trabalho de localização é bem competente, sem confusões normalmente feitas com o português de Portugal.
Picross S GENESIS & Master System edition (Switch)
Em português, o título do jogo até muda para representar o nome nacional do Genesis: Mega Drive

Design parado no tempo

Uma vez superada a curva de aprendizagem, todos os atributos viciantes e relaxantes do game começam a aparecer, resultando em uma boa experiência. Porém, jogadores de longa data de Picross não podem deixar de sentir que a série S possui alguns pontos que poderiam ser melhorados. Com GENESIS & Master System edition é a mesma coisa.

Assim como em todas as edições anteriores no Nintendo Switch, o título não pode ser jogado com a tela de toque em modo portátil. Isso é especialmente desconcertante, pois os jogos da franquia no Nintendo 3DS possuíam essa opção. É difícil defender essa omissão, principalmente sendo esse o nono game Picross que a Jupiter disponibiliza para o console. Já houve bastante tempo para ela incluir esse método de controle que deixa a jogabilidade muito mais fluida.

Outros modos presentes em games passados também fazem falta. Em 2007, Picross DS (DS) chegou a incluir partidas online 1 contra 1, quebra-cabeças extras via DLCs gratuitos, desafios e minigames. Praticamente 15 anos depois, a ausência de opções como essas, que acrescentam valor à proposta inicial dos puzzles, traz um ar de retrocesso.

Essa sensação também pode ser notada na carência de opções simples, como reiniciar nonogramas, desfazer ações equivocadas ou utilizar marcadores específicos para assinalar quadrados possivelmente vazios. Essa inexistência já esteve presente em games dos anos passados e nunca foi abordada pela desenvolvedora, Assim, as horas com o jogo, apesar de boas, não alcançam todo seu potencial.

Lidando com clássicos

O carro-chefe de GENESIS & Master System edition é, como o próprio nome já sugere, a combinação de jogos clássicos da SEGA com desafios de Picross. Cada figura revelada nos quadradinhos representa um sprite de um jogo da companhia. A apresentação geral do título também se inspira nos dois consoles, com músicas de Out Run, Fantasy Zone, Space Harrier e Alex Kidd in Miracle World, além de uma UI baseada nas caixas japonesas de ambas as plataformas.

A quantidade de games representados por essa edição temática merece destaque. No total, 59 jogos dos anos 1980 e 1990 estão presentes. De lançamentos clássicos, como a trilogia Sonic the Hedgehog e Golden Axe, a títulos que nunca foram disponibilizados fora do Japão, a lineup é um prato cheio para grandes fãs da SEGA. É bem provável que alguns de seus jogos favoritos da época estejam aqui.
Picross S GENESIS & Master System edition (Switch)
A lista completa de jogos representados pelo título


Comparando com as versões normais de Picross, que incluem elementos da vida real em seus puzzles, o uso de gráficos de games antigos torna a solução dos quebra-cabeças inicialmente mais interessante. Preencher as casas acaba virando uma atividade de adivinhação, em que o jogador supõe de qual título vem o sprite revelado, tornando a experiência mais engajante nos primeiros minutos.

Porém, após algumas horas com o jogo em mãos, esse frescor acaba passando ao se perceber que é necessário ser um acompanhante fervoroso da SEGA para reconhecer todas as imagens dos níveis. Os nonogramas não se limitam só a personagens ou outros símbolos icônicos, mas também incluem coisas menores, como itens e assets de background. Caso a pessoa não tenha um vasto conhecimento sobre cada um desses sprites, eles acabam perdendo a relevância e deixando de instigar.

Isso poderia ser resolvido caso o crossover tivesse um pouco mais de cuidado no tratamento de seu importante conteúdo. Nas vezes em que a Jupiter criou Picross licenciados com outras marcas e franquias — como Sanrio, Pokémon, Kemono Friends ou Overlord —, a desenvolvedora acrescentou mecânicas de gameplay ou opções simples, como galerias de imagens, que reconheciam o valor das IPs que representava.

Entretanto, GENESIS & Master System edition não possui modos que vão além dos puzzles base. Assim, todos os jogos da SEGA, que marcaram a história dos games, parecem meros instrumentos para a criação de quebra-cabeças. Seria interessante se o título tivesse uma apresentação breve dos seus quase 60 jogos ou até mesmo mostrasse onde os sprites podem ser localizados em seus respectivos games.
Picross S GENESIS & Master System edition (Switch)
O game não possui opções especiais além dos puzzles base

Bom, mas sem surpresas

No final das contas, Picross S GENESIS & Master System edition é exatamente aquilo que prometia ser: um jogo de puzzle com elementos de ambos consoles. Não há nada necessariamente errado nisso, já que fãs da franquia podem se esbaldar com as centenas de novos quebra-cabeças que os deixarão ocupados por horas a fio. Já a presença da SEGA torna o game mais interessante que qualquer outro lançamento da série no Nintendo Switch.

Porém, para um título que lida com propriedades intelectuais tão importantes e que é o nono lançamento da franquia no console híbrido, seu design raso acaba decepcionando. Desde 2017, a desenvolvedora Jupiter ignora aprimoramentos de qualidade de vida básicos que tornariam suas coleções de nonogramas ainda melhores. Esta teria sido uma boa hora para introduzi-los, junto com modos que ilustrassem melhor os clássicos representados.

Prós

  • Picross continua um tipo de puzzle tranquilo e relaxante de se jogar, permitindo sessões ao ritmo do jogador;
  • Centenas de quebra-cabeças oferecem muitas horas de gameplay;
  • Grande quantidade de clássicas propriedades da SEGA representadas no game;
  • O tema “GENESIS e Master System” torna os níveis mais interessantes de serem concluídos;
  • Inédita na série, a localização em português brasileiro permite uma compreensão melhor do jogo.

Contras

  • Tutorial nem sempre muito claro pode provocar confusão em jogadores novos;
  • Recursos de ajuda podem ser desnecessariamente complicados;
  • A série continua não acrescentando recursos de qualidade de vida, como suporte à tela de toque, modos diferentes e opções de reiniciar puzzles ou refazer ações erradas;
  • A apresentação do título é muito simples e poderia ter um cuidado melhor com o legado dos games que representa.
Picross S GENESIS & Master System edition - Switch - Nota: 7.0

Revisão: João Gabriel Haddad
Análise produzida com cópia digital cedida pela Jupiter


Jornalista, analista de mídias e entusiasta de games desde que jogou Pokémon Azul no Game Boy Color nos anos 90. De lá para cá, tenta aproveitar ao máximo todos os consoles no pouco tempo que a vida adulta permite. Se não está escrevendo para o Blast ou demorando anos para zerar um jogo, está no Twitter (@DanielMorbi) e no Instagram (@daniel.skm)
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