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Análise: Ys IX: Monstrum Nox (Switch) tem carisma próprio e as virtudes de seu antecessor

Um bom e conhecido sistema de batalha que se encontra com uma exploração aprimorada em level design vertical.

Publicado pela NIS America e desenvolvido pela Nihon Falcom, a mais tradicional empresa japonesa de RPGs de ação, Ys IX: Monstrum Nox (Switch) é um JRPG de ação em terceira pessoa com elementos de action-adventure dirigido por Hisayoshi Takeiri e Takayuki Kusano. Esse último, também diretor de seu imediato predecessor na série, Ys VIII: Lacrimosa of Dana (Multi).


O nono título numerado continua a clássica série Ys, a qual, desde o final da década de 1980, tem apostado em uma evolução conservadora, lenta e gradual das características técnicas e de game design da franquia ao mesmo tempo que procura atrair fãs tanto de action-adventure quanto de JRPG. Dessa vez, a Falcom resolveu fazer essa mesma aposta no híbrido da Nintendo e seu desempenho parece relativamente satisfatório.

Mas mesmo que Ys IX definitivamente não esbanje inovação, consegue fazer muito mais do melhor. Até mesmo as composições musicais do jogo — dos mesmos autores de Ys VIII —, que seguem algumas tendências da série, contém ótimas peças, tanto algumas mais dramáticas (geralmente para os combates) com acordes graves e riffs de guitarra, quanto outras dançantes com ritmos rápidos e quebradiços, e outras ainda com melodias singelas e expressivas com ênfase em instrumentos acústicos de corda e sopro bem gostosas de se ouvir por serem bem cadenciadas em uma atmosfera de mistério. Ao menos os fãs da série podem esperar tranquilos por uma das melhores OSTs da série em Ys IX.

Ademais, Ys IX herda muitas características de Ys VIII: Lacrimosa of Dana (Multi), mostrando-se uma evolução bem modesta daquele título e pouco inovadora, além de, em alguns pontos, acabar sendo mais problemático que seu antecessor e pouco otimizado para o Switch. Contudo, há algumas novidades dignas de nota, gameplay sólido de combate, design estiloso de personagens, uma narrativa satisfatória e um bom level design de exploração para seu gênero. Confira mais detalhes nos tópicos abaixo.



Novas aventuras esperam por Adol Christin em uma cidade-prisão

Contando com artistas e roteiristas de seu antecessor numerado, Yx IX apresenta um tom artístico e narrativo mais sombrio, mas um plano semelhante de elenco de personagens estilosos e seus respectivos estereótipos no grupo (um personagem iconicamente ingênuo, outro mais bruto, outro mais sombrio e solitário, outro mais descolado e assim por diante), bem como semelhantes rigidez e simplicidade de traços visuais, modelagem, animação e física.

O protagonista também, como na maioria dos títulos da série, continua sendo o silencioso e ruivo guerreiro Adol Christin, cuja personalidade é propositalmente mais neutra e equilibrada, sendo expressa de forma mais velada nas opções dicotômicas de árvores de diálogo que, na prática, influenciam pouco ou nada no fluxo da história.

A história se passa na região de Gllia, que se encontra sob controle do Império Romun, e é especialmente ambientada na “cidade-prisão” Balduq, assim conhecida por sua arquitetura fortificada de muros altos e fossos profundos e por seus interiores servirem de prisão para o Império (incluso prisioneiros políticos). Contudo, a cidade também é um importante centro de transporte da região, razão pela qual possui um comércio substancial e grande quantidade de pousadas e bares, além de teatros e outras instalações públicas.




A trama começa em torno de rumores acerca de aparições de seres chamados “Monstrum” que estariam criando confusão entre os habitantes da cidade. Supostamente um Monstrum possuiria habilidades sobrenaturais únicas e ao menos alguns deles estariam ajudando pobres e indefesos, enquanto outros seriam bandidos e agressores.

Nesse contexto, com a chegada do protagonista no local, após suas aventuras antes longe da civilização, em lugares inóspitos, ele acaba preso junto de uma facção de outros guerreiros também chamados Monstrum. Adol Christin junta-se a eles em seu objetivo de derrotar criaturas de outra dimensão que ameaçam Balduq que se desenrolam com muitas batalhas, exploração e investigação sigilosa de outros mistérios por trás dos Monstrum e dos objetivos do império.




Nessa proposta, a trama segue uma trajetória bastante linear, vez que outra aberta a quests opcionais, como costumeiro na tradição da série e dos JRPGs, um elenco de personagens mais ou menos fixo com personalidades bem típicas que se alternam no grupo liderado pelo protagonista e um enredo medieval em pequena escala regional com temática política e fantástica em um tom leve, mas ainda assim um dos mais sérios para os padrões da franquia.

De modo geral, o roteiro é bem-amarrado em sua subdivisão de capítulos, sem deixar muitas pontas soltas, embora alguns soem como pouco relevantes e outros sejam executados com muita rapidez, prejudicando o potencial de descoberta de alguns pontos do texto. Ademais, o texto possui muitos clichés em suas linhas de diálogos, mas também desfechos imprevisíveis que podem cativar tanto novos quanto antigos jogadores da série.

Um gameplay dinâmico e sólido de ação e exploração em um level design mais verticalizado

Desde a origem da série, Ys pretende ser um RPG de ação com um combate mais rápido, simples e acessível, e isso se mantém relativamente em Ys IX, o que não significa que não possa ter mecânicas variadas ou necessariamente resulte em um ritmo pouco instigante de ação.

De fato, o novo Ys numerado possui um ritmo dinâmico e divertido, mas problemas técnicos, como da IA muito simplista dos inimigos (tal como seu antecessor) e principalmente as quedas constantes de quadros — consideravelmente acima da média dos títulos já lançados para Switch — podem se mostrar um obstáculo maior para a experiência do jogador tanto em combate quanto fora dele.


De todo modo, seguindo a virtude de Ys VIII, Ys IX possui um sólido sistema de batalha envolvendo, além de um combo fixo de ataques em tempo real, uma variação considerável de habilidades únicas previamente selecionadas para cada membro do grupo que podem ser executadas havendo SP suficiente (que regenera em combate) e a possibilidade de alternar de forma dinâmica o controle entre cada personagem.

Entre as poucas diferenças em relação ao título anterior, destaca-se o modo Boost, que retorna dos spin-offs Ys: Origin (Multi) e Ys: The Oath in Felghana (PSP/PC). Esse modo, quando ativado por um personagem, aumenta temporariamente o seu dano, defesa e velocidade.


De forma mais peculiar, ainda se destaca a adição de habilidades de mobilidade chamadas Monstrum Gifts, como de deslizar e subir paredes, mas tais funcionalidade — junto da possibilidade de “impulso-teletransporte” para pontos específicos — estão mais diretamente relacionadas à exploração na cidade e nas dungeons.

Desde pelo menos a duologia Ys IV (Multi), mas principalmente após Ys V: Lost Kefin, Kingdom of Sand (SNES/PS2), essa franquia da Falcom é conhecida por trazer mais elementos de action-adventure do que o comum em JRPGs de ação, tanto por seus cenários abertos e seu level design horizontal mais diversificado quanto pelo seu maior aproveitamento de mecânicas como de pulo e escalada.



Claro que esse aproveitamento e nível de exploração não chegam perto daqueles presentes em jogos focados em action-adventure, como na série The Legend of Zelda, mas não deixam de colocar Ys em destaque frente aos RPGs em geral, já que na maioria dos quais sequer se pode saltar ou, quando possível é, trata-se de uma mecânica claramente subutilizada.

Essa afirmação é ainda mais fácil de se sustentar em Ys IX, onde os desenvolvedores ampliaram a exploração em um level design vertical, na medida que o jogador pode se teletransportar em alguns pontos, caminhar pelas paredes e pular entre estruturas elevadas e de telhado em telhado. Entretanto, a ambientação das dungeons e também dos cenários externos podem soar repetitivos ou desinteressantes com o tempo, dado que há poucos elementos criativos e diferenciados no aproveitamento espacial. 

Ainda que as limitações desses recursos possam soar subutilizadas, há de se conceder que em seu gênero são um destaque assim mesmo. Algo semelhante pode-se dizer de alguns poucos momentos envolvendo Stealth, embora tal aplicação continue quase tão simples quanto a dos precursores de tal implementação em um JRPGs, como notadamente em Final Fantasy VI (Multi).

Um bom e velho JRPG de ação

Apesar de problemas nada triviais de performance que prejudicam um tanto a experiência e um game design que evoluiu pouco em praticamente todos os aspectos, Ys IX: Monstrum Nox ainda possui a virtude de seu antecessor de ter um sistema de batalha sólido, acessível, diverso e relativamente equilibrado de RPG de ação, e ainda com alguns aprimoramentos, além de uma história razoavelmente bem-escrita, personagens bem-desenhados e, acima de tudo, um refinamento considerável no level design vertical durante momentos de exploração.

Desse modo, o novo título numerado dessa clássica série da Nihon Falcom é um título recomendável para quem queira se introduzir na série, mas talvez o Switch não seja a melhor plataforma para acessá-lo, caso tenha maiores preocupações com desempenho e performance. Ademais, também Ys IX pode ser uma boa pedida para quem já gostou de outros jogos da franquia e se satisfaz com as poucas novidades que esse novo Ys apresenta com bom estilo artístico, narrativo e de level design que parece lhe conceder suficiente personalidade perante os antecessores.

Prós

  • Um bom sistema de batalha de JRPG de ação;
  • Personagens bem-desenhados em uma trama bem-amarrada;
  • Boa exploração e level design vertical dentro de seu gênero;
  • Ótima trilha sonora.

Contras

  • Pouca inovação e aprimoramentos de modo geral;
  • Ocasional queda de quadros;
  • Ambientação e missões que tendem a se tornar um tanto repetitivas tanto em dungeons quanto no exterior.
Ys IX: Monstrum Nox – PS4/PC/Stadia/Switch – Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Diogo Mendes
Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America

Doutorando em Filosofia que passa seu tempo livre com piano, livros e jogos (principalmente JRPGs). No Twitter, também conhecido como Vivi. Interessa-se especialmente por produções de maior apelo artístico e/ou narrativo e mecânicas de puzzle, stealth e RPG. Seu histórico de análises pode ser conferido no OpenCritic; suas reflexões sobre a arte e a ciência dos jogos, em thegamelogicist.medium.com (em inglês), ou em seu podcast: MetaQuestCast.


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