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Análise: Skatebird não consegue acertar suas manobras no Switch

Mesmo com a ótima ideia de unir pássaros fotorealistas com skate, o indie passa longe de entregar uma boa experiência.


E se o famoso skatista Tony Hawk, também conhecido no Brasil como "Toninho Gavião", realmente fosse um gavião? Será que ele ainda conseguiria andar de skate? De certa forma, Skatebird tenta responder essa pergunta, ainda que em uma escala um pouco menor — e sem deixar de aproveitar a piadinha com "skateboard".

É difícil pensar que um jogo sobre pequenos e coloridos passarinhos andando em skatinhos de dedo não daria certo. Entretanto, por mais que a equipe de três pessoas da Glass Bottom Games tenha se esforçado para criar um mundo agradável a partir de uma temática interessante, o título infelizmente deixa a desejar no seu ponto principal: a jogabilidade.

Um pássaro sem asas

Assim como os primeiros jogos da série Tony Hawk's Pro Skater, Skatebird aposta desde o início no próprio ato de andar de skate como o seu maior atrativo. Fica óbvio que o propósito ao jogar o game é aproveitar e curtir o gameplay sem grandes compromissos. Um sistema de missões mantém uma certa progressão da narrativa, mas esses objetivos existem mais como um simples norte enquanto você aproveita para testar manobras e explorar o cenário à vontade.

A destreza desses passarinhos com o skate, assim como as possibilidades que se abrem para a exploração e a interação com o ambiente, deveriam ser justificativa o suficiente para você querer jogar e continuar jogando Skatebird. Para alcançar o sucesso, games desse tipo precisam entregar ao jogador apenas a caixa de areia e a pá. Se a base for firme o suficiente, a diversão será garantida a partir da sua própria imaginação e vontade de experimentar. 


Na vida real, andar de skate é sobre liberdade. A cultura do skate é altamente ligada à necessidade de autoafirmação e à vontade de descoberta tão associada à juventude. Da mesma forma, a habilidade natural de voar dos pássaros remete a várias imagens de liberdade e a busca por ela. Nós como seres-humanos, assim como os nossos amigos alados, podemos nos sentir presos e literal ou figurativamente enjaulados em alguns momentos. Essa é a grande beleza do skate. Impulsionar o que está parado e dar asas (ou rodas) aos nossos próprios pássaros em gaiolas internas.

Voltando para o ponto principal, só quero que fique claro que a premissa de Skatebird é ótima. Pássaros e a cultura do skate podem ter mais em comum do que nós imaginamos, afinal. O problema é que, embora os desenvolvedores tenham acertado na temática, na ambientação e no design dos personagens, eles passaram longe do ideal na questão mecânica. 


Ao contrário de alguns bons jogos de Skate que existem por aí, e que sabem priorizar a experiência, Skatebird simplesmente não é muito divertido de se jogar. Controlar o seu adorável pássaro customizável em um skate de dedo deveria ser exatamente tão fluido quanto um pássaro andando de skate, porém é desconfortável do início até o fim.

Eu não sei se algum jogo já me causou tanto desespero em relação ao aspecto técnico quanto Skatebird durante os seus primeiros momentos. Acho que eu demorei mais de uma hora na segunda missão, que consistia apenas em subir um half-pipe e coletar um item. Tentei de todas as formas entender os controles ou até melhorá-los de alguma forma ativando ou desligando qualquer opção do menu. Nunca em nenhum jogo eu tratei de conhecer tão bem as opções de jogabilidade do menu e, ainda assim, o resultado não foi favorável no final. 


Seu pássaro sempre andará rápido ou lento demais, você irá cair do skate com qualquer mínimo toque no primeiro obstáculo e a ação de grind, um dos principais movimentos de um game de skate, consegue ser menos satisfatória e fluida do que nos jogos 3D do Sonic. Já nos half-pipes, a câmera faz questão de ficar presa no pior ângulo possível assim que você sobe um pouquinho nas rampas, destruindo qualquer vontade que você teria de continuar fazendo manobras do tipo.

Existe um sistema de acúmulo de velocidade à medida em que você realiza truques que poderia ser interessante, mas preparar combos e sequências de manobras é uma das ações mais frustrantes do game. Graças à câmera sofrível e à habilidade de cair ao menor sinal de contato com o mundo, você é constantemente punido por tentar qualquer movimento mais criativo ou interessante. De maneira similar, punições também ocorrem realizando missões, que quase sempre pedem que você colete itens em locais específicos que precisam ser acessados com o skate. 


Muita coisa simplesmente dá errado em Skatebird e até alguns dos pontos positivos poderiam ser melhores. Há um pulo duplo, por exemplo, que representa uma inovação interessante para o gênero dos games de skate. O problema é que um pássaro deveria ser capaz de muito mais do que apenas um pulo a mais, não é mesmo? No final das contas, a identidade de pássaro do protagonista só é utilizada com esse salto adicional e de nenhuma outra forma. Aproveitar melhor as habilidades únicas de um pássaro com certeza é uma das maiores oportunidades perdidas do título.

De forma parecida, o potencial das localidades também não é aproveitado de forma realmente adequada. O tamanho diminuto dos passarinhos cruzando de skate por pequenos objetos do cotidiano poderia criar várias situações inusitadas com um design de cenário criativo. Isso até acontece, porém apenas em partes. Ao mesmo tempo que é possível deslizar por uma caixa de pizza atuando como uma grande rampa — algo que funciona muito bem —, a realidade também é quebrada rapidamente com mini half-pipes e mini bancos de praça espalhados por aí. Teria sido muito mais interessante utilizar mais as possibilidades e esquecer dos objetos tradicionais.


Tudo isso não quer dizer, no entanto, que é impossível desfrutar do seu tempo de jogatina. A ambientação em geral é agradável, os passarinhos são bastante simpáticos e a trilha sonora original cai bem em um jogo de skate. Além disso, a história, por mais que seja simples, é divertida e engraçada o suficiente para engajar os jogadores que estiverem dispostos a seguir em frente — algo que pode ser difícil, infelizmente, graças a dificuldade gradual imposta pelos controles falhos e os requisitos das missões.

A outra grande barreira de entrada é a já citada primeira hora de jogo. A movimentação do pássaro realmente não é intuitiva o bastante e é preciso uma quantidade considerável de paciência e vontade de encarar o desafio de aprendê-la. A verdade é que, após um certo esforço para encontrar essa paciência, eu consegui sim me acostumar com os controles e até mesmo me divertir com o título. Isso não é algo impossível, mas ainda assim eu acredito que a experiência geral anda na direção contrária dos principais preceitos do skate virtual: liberdade, fluidez e experimentação.

Uma manobra mal calculada


Skatebird pega uma ótima premissa e até consegue embalar a ideia em um pacote agradável visualmente. O problema, no entanto, é que a execução final, assim como uma manobra mal calculada em cima do skate, passa voando do seu objetivo. Os controles e a movimentação deveriam ser os principais pilares da jogabilidade de um jogo de skate, mas o título falha justamente nestes quesitos, tornando a experiência difícil e tediosa. Tanto fãs de skate quanto os amantes dos pássaros provavelmente possuem alternativas melhores no Nintendo Switch.

Prós

  • Premissa criativa e interessante;
  • Visual agradável;
  • Trilha sonora adequada.

Contras

  • Péssimos controles;
  • Câmera mais perdida do que um pássaro em cima de um skate;
  • Premissa mal-aproveitada, tanto em relação à jogabilidade quanto ao visual dos cenários.
Skatebird - Switch/PC - Nota: 5.5
Versão utilizada para análise: Switch 
Revisão: Icaro Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Glass Bottom Games

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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